Eu me lembro de quando eu tinha 12, 13 anos de idade. Eu literalmente chorava no chuveiro por ser feio. Passava horas a fio pensando que eu nunca teria ninguém, não importa quem eu fosse. Ser adolescente nos anos 2000 era complicado, mas acho que ser adolescente sempre foi complicado, no fim das contas.
Eu me apaixonei por algumas meninas naquela época. Poucas, mas aconteceu. E claro, eu nunca era correspondido. Havia um abismo de diferença entre mim e aquelas garotas, não só em se tratando de beleza, mas era tudo: Eu era meio nerd, tinha orelhas de abano, várias espinhas na cara, era completamente ingênuo e meus interesses se resumiam a jogar fliperama e assistir animes na televisão. Elas no entanto, sonhavam com a própria sexualização, desejavam os garotos velhos que passavam na frente da escola empinando motos e fazendo rompompom. Muito difícil competir com quem faz rompompom na moto.
Aos poucos eu fui envelhecendo e descobrindo que eu precisava fazer parte de alguma tribo. Por ironia do destino, meus amigos começaram a ouvir rock e eu também, logo, comecei a querer usar preto, sonhava em ter um sobretudo, munhequeiras e correntes com caveirinhas penduradas. Claro, queria também um Allstar. Esse último eu tive, o resto era difícil, pois minha mãe sempre foi controladora e chata, e com isso não seria diferente. Lembro até que pra eu ouvir meus CD's, eu tinha que me trancar no quarto e ouvir pelo fone no meu antigo diskman. Se botasse em qualquer aparelho pela casa, ela reclamaria.
A questão é que eu realmente amava ouvir metal, porém eu só queria parecer rockeiro para impressionar algumas garotas. Se eu era feio, pelo menos podia amenizar isso tentando ser estiloso. Mas não colou também, pois os garotos mais velhos comiam todas as garotas por quem eu ousava me apaixonar, patético pra um adolescente. E claro, nem ter estilo eu tinha, pois afinal de contas, tudo o que eu fazia era vestir uma velha blusa xadrez que ganhei do meu pai e umas calças jeans rasgadas que me davam aspecto de um grunge fedido.
Foi assim que eu fui me dando conta de que minha vida amorosa seria uma merda. Já não bastava na época eu ser atormentado por memórias nefastas de uma relação sexual horrível, ainda havia a rejeição. Não foram raras as vezes que me humilharam por qualquer motivo idiota: Parecer gay, ser feio, ter espinhas na cara, não poder sair de casa por que a mamãe não deixava, usar a mesma roupa, ter a mochila mais feia da escola... e quando falo ser humilhado, me refiro até mesmo aos meus amigos, pessoas que poderiam me defender e me botar pra cima.
Não haviam amigos, é doloroso mas é a verdade. Eu vivia em um inferno e para aonde eu olhasse, tudo me causava dor. Só me sobravam o ódio pela rejeição, a vontade de explodir tudo enquanto embalava compras de babacas no mercado em troca de 25 centavos. Ou as vezes nem isso. Meu refúgio era um fliperama abarrotado no centro da cidade. Lembro que comprava um copão de açaí e botava ele entre os controles da máquina, e entre um combo e outro, eu dava uma colherada. Isso claro, quando conseguia fazer dinheiro o suficiente para arcar com meu parco desejo.
Minha mãe fazia questão de me lembrar que eu era pobre. Nunca soube ao certo se era sua forma de descontar em mim por ter tido uma vida de merda ou se ela apenas era babaca. Mas sempre senti falta do lado amoroso da minha mãe, um lado que vi tantas poucas vezes que sinceramente, acho que lembro de todos. Ela dizia que eu era feio, que eu era um pobre fodido, que viveria preso para sempre a cuidar dela até que ela morresse. Fui doutrinado a aceitar isso, e mesmo quando meu irmão foi embora, eu continuei sendo abusado psicologicamente dessa merda. Me submetendo a trabalhar desde moleque pra fazer grana e botar em casa o pouco que ganhava, enquanto a assistia fumar e torrar o dinheiro dela com sapatos e coisas desnecessárias. Não vou dizer que ela não tinha direito a isso, mas sempre achei cruel eu não ter direito a nada. Nem quando ela ganhou 2 causas seguidas na justiça ela lembrou de mim. Nem uma calça jeans. Nem um pacotinho de cuecas, nada. Ela fez questão de comprar móveis, utensílios para casa e mais sapatos, tudo para ela. Era como se eu fosse a galinha dos ovos pra ela, logo, se eu já ajudava a prover tudo em casa, é claro que ela poderia gastar o resto só com ela. E é claro que eu não precisava de nada, afinal de contas eu era só um adolescente. Adolescente não precisa de nada, no muito de uma surra.
Por isso nunca entendi quando fiquei velho e comecei a despertar inveja nas pessoas. Pessoas que tinham tudo e me invejavam mesmo assim. "Nossa, que batalhador", "caramba, você é incrível!", "eu não teria aguentado essas coisas". Nunca me entendi merecedor desse tipo de inveja, sobretudo por saber que tem gente que viveu uma vida bem mais merda que a minha. Perto de muita gente, eu posso ser apenas um moleque arrogante que reclama de barriga cheia. Porém, conforme a maturidade veio batendo na minha porta, comecei a perceber que não é sobre o tamanho da dor e sim o quanto podemos suportá-la. Todos somos marcados de alguma forma, faz parte da vida.
Aliás, eu acho que "faz parte da vida" deve ser minha frase de assinatura, pois sempre que algo dá errado, eu me pego pensando isso. Faz parte da vida, correto? Ser traído várias vezes faz parte da vida. Ser sustentado pela namorada faz parte da vida. Ver sua mãe torturando você psicologicamente faz parte da vida. Ter uma dúzia de problemas de saúde faz parte da vida. E faz mesmo, infelizmente.
Voltando ao meu lado sentimental, é incrível como que eu estava certo desde jovem: Minha vida amorosa seria uma merda. Com exceção de 2 relacionamentos, eu não durei mais de um ano com ninguém. Houveram idas e vindas as vezes, encontros e desencontros, mas nunca dei sorte nesse aspecto. Claro que isso é subjetivo: Eu fui feliz com grande parte das pessoas com quem me relacionei, nem que por um instante, um breve instante. Mas muitas merdas aconteceram também. Primeiro, eu tive que lidar com uma série de traições. Acredito que o fato de eu não ser bonito, ser bem ingênuo e pobre tenham ajudado nesse aspecto, afinal de contas, deveria ser mesmo bem tedioso sair com um garotinho orelhudo que só queria estar de mãos dadas e viver uma merda de conto de fadas.
Esse garoto morreu, aos poucos. Ele foi sufocado, surrado, espancado e atormentado por memórias ruins. Aprendeu a fumar, a beber, queria se destruir. Queria se sabotar. As pessoas o machucavam e ele nem sabia qual era o motivo. Aos poucos a bebida e o cigarro começaram a lhe dar amigos. Aquilo o preenchia levemente, mas não a ponto de fazer sumir o buraco no peito. Incontáveis foram os fins de semana que eu virei fazendo maratona etílica, bebendo e fumando. Eu sinceramente não sei como não fui para as drogas mais pesadas, pois teria todo o apoio desses amigos pra tal. Acho que nunca quis parecer esses junkies de filmes barra pesada, meu negócio era afundar aos poucos. Transitava entre sociais sem graça e bares sujos, lotados de gente estranha. Ironicamente, comecei a ficar bonito. Era a barba o utensílio que faltava naquele garoto franzino e nada descolado, além de umas roupas bacanas e o cabelo que ficava cada dia maior. Como haviam marias shampoos por aqui, eu tinha alguma chance.
Acontece que essa vida não me trouxe muitas boas pessoas. Com exceção de bem poucos, a maioria só ria das minhas piadas por que eu inteirava a cachaça. A maioria deles só fingiam gostar de mim por eu ser um bom ouvinte. Eles só estavam perto de mim até o maço estar cheio, mas quando eu ia embora, ia a pé, as 4 da manhã, as vezes sem ter a casa de um amigo mais próximo pra cair nem uma carona que fosse, mesmo que muitos tivessem moto ou até carro. Aquelas migalhas eram humilhação travestidas de amizade, e pra quem nunca teve nada, farelo é banquete. Flertei com o coma alcoólico algumas vezes, nada demais. Só mais um capítulo do "faz parte da vida".
Hoje eu não consigo entender em que momento as pessoas pararam de gostar de mim e começaram a me odiar. Não foram poucas as vezes que um relacionamento nem teve chance de dar certo por que alguém já havia contado meia dúzia de merdas pra quem eu viria a me apaixonar. Eu poderia escrever um livro só com as coisas absurdas que essa cidade já inventou de mim, desde ter filhos e uma família fora da cidade até estupro coletivo, que até hoje é o boato mais asqueroso e repugnante que já inventaram de mim. Mas não é estranho você ouvir numa rodinha de caras invejosos que eu não presto. Não sei o que lhes fiz, mas me parece que eles só tem raiva de mim por que as minas que eles querem pegar me acham bonito.
Me acharem bonito... meu eu adolescente acharia isso surreal. Agora mesmo fui chamado de gostoso numa foto, algo que se tornou até corriqueiro, mesmo eu ainda me olhando no espelho e vendo aquele moleque feio e estranho. Eu não sou bonito e ninguém me fará acreditar no contrário. Mas essa "beleza" me parece que faz com que eu seja visto apenas como um pedaço de carne. Não é incomum algumas pessoas literalmente falarem que querem sentar em mim, as vezes até sem muito pudor. Me adicionam, trocam 2 palavras e jogam a real: Quero te dar.
Mas porquê? Por que eu me tornei o cara que não se apega. O cara pra quem as pessoas podem dar e contar a vida delas, inclusive sentimentais, e eu vou permanecer lá, de pé, firme e forte, dando conselhos e fingindo que nada dói, mas tudo dói. Ser tratado como lixo doía, ser tratado como o homem forte também dói. E sei lá se sou forte mesmo. Na brincadeira da fortaleza, eu desabei no primeiro tijolo construído, mas fingi a ausência de dor para proteger pessoas que eu amei e que só me usaram de escudo ao invés de moradia.
Esse foi provavelmente o maior desabafo que eu já fiz aqui, e eu só estou parando por que meus dedos doem, pois eu poderia falar muito mais. Mas enfim, ainda estou de pé, e todo dia que me levanto eu relembro daquele adolescente fodido, achando que seria mais feliz.
Não, você não vai ser mais feliz. Você seguirá pobre, sendo usado pelas pessoas e sem ter margem pra errar. Vai viver com a maldição de não conseguir manter raiva de ninguém, mesmo que lhe magoem profundamente. E vai fingir sorrisos e piadas pra que não vejam o rombo que ainda existe bem no meio do seu peito, com a certeza de que absolutamente ninguém é capaz de preenchê-lo. Nem mesmo você.
Mas pelo menos você vai ter, eventualmente, uma barra de chocolate branco na geladeira.