02/08/2020

Cross Vermelha.

Ele era jovem naquela época. 12, talvez 13 anos.
Lembro que o garoto se divertia como a criança que ainda era, mas que titubeava em admitir.
"Sou adolescente".
Os mistérios da vida, vejam como é. Somos jovens e queremos ser adultos. Somos adultos e queremos ser jovens. Somos velhos e queremos ser crianças. Crianças, adivinhem... querem ser adultos.
Sua casa ficava no alto de um morro, bem no meio de uma rua bem engraçada. A rua começava numa subida e terminava numa descida! Imagine que sacrifício morar bem no meio dela, a todos os lugares que olhasse, haveria uma subida.
Mas também uma descida para aproveitar sua pequena bicicleta vermelha, passada de geração em geração até que caísse em suas mãos.
Era comum ser sacaneado por não ter uma bicicleta nova. Também por não ter uma bicicleta grande.
Mesmo que se estude em meio a pessoas pobres, sempre terá aquele que tem mais do que você. E sempre terá aqueles que vão querer diminuir as pessoas.
É a lei do sobrevivente versão escolar. Uma graça.
Não é como se essas merdas passassem despercebidas por ele. Doía sim. Mas ele sabia contornar isso dando valor a coisas realmente pequenas que lhe alegravam.
Descer a ladeira de casa.
Seus cabelos balançavam. O vento harmonizava suas sobrancelhas.
Era um momento de lucidez no meio de um turbilhão de problemas, tristezas, ausências e desejos não correspondidos.
Numa época onde era prisioneiro em sua casa, comprar o cigarro da mamãe era motivo de festa.
Pudera, por alguns minutos, aquele jovem encarnava personagens de histórias em quadrinhos, fantasiando que estava em cima de uma motoca envenenada correndo atrás de bandidos.
Ou que estava numa missão interplanetária pilotando um jet voador pelo espaço. Sonhando com noites azuladas e céus estrelados que pouco via e que pouco respirava.
Ao voltar, contentava-se em fingir que os bonequinhos desenhados em papel eram de verdade. Os dava nomes, atuava, representava, criava peças onde eles lutavam entre si até descobrir quem seria o vencedor.
As vezes catalogava seus bonecos errantes, sem braço, sem cabeça, imóveis, mordidos, mal pintados, deslocados. Nossa, como foi raro ter brinquedos da moda.
Tão raro que sequer teve.
Mas aquelas coisas já eram coisas ultrapassadas. Ele era jovem mas não era mais uma criança. Já trabalhava, pensava em meninas e sonhava com seu futuro de adulto. Bonecos, carrinhos e afins não lhe distraiam mais.
Por isso que aquela bicicleta lhe servia como meio de união entre o jovem e o adulto. Lhe servia perfeitamente para sonhar e fugir das realidades em que vivia.
Voltando da igreja, indo para a escola, buscando o pão na padaria. Sempre havia espaço para sonhar enquanto pedalava.
Sempre havia espaço para desejar que dias melhores viessem.
Assim como hoje há espaço para desejar uma nova ladeira para descer enquanto sonha.

Nenhum comentário:

Postar um comentário