29/04/2020

XIII: Você foi real?

Era um dia normal, numa semana normal, numa época bem normal. Estava sentado trabalhando, fazendo o que eu era pago para fazer: placas, cartões, panfletos, letreiros e todo esse tipo de bugiganga doida. Daonde eu sentava, dava pra olhar a recepção, que era separada da minha sala por um blindex com insulfilm. Quem estava lá fora não me via, mas eu via quem estava lá fora. Nada demais, até que algo quebrou a normalidade daquele dia.
Uma garota ruiva, mais ou menos da minha altura entrou na loja junto com a mãe. Tinha ar de rockeirinha, usava óculos... e ela me fisgou.
Sabe quando você vê alguém e acha a pessoa atraente? Normal né, faz parte do que chamamos de vida. Mas não foi o caso, eu senti ali uma conexão diferente, eu olhei praquela garota e pensei: caralho, que deusa.
Sério, nunca tinha me acontecido isso até então, parece que eu tinha sido arrebatado por um OVNI. Sei lá, é a única descrição possível pro que aconteceu. Eu estava atônito, mas eu era tímido demais pra chegar lá e falar "oi broto vamo sair rsrs".
Então fui fazer a única coisa que eu sabia: desabafei no Twitter. Normal, não disse nomes (afinal, nem sabia quem era), não disse nada. Só falei que uma deusa havia entrado na loja.
Eis que um dos maiores mistérios da minha vida surgiu: Alguém sabia que ela ia lá na loja, viu meu tweet e dedurou pra ela.
Aquele momento estranho em que a pessoa te pergunta "ei, é verdade que você me achou bonita?"
Que vergonha, meu Deus. Que vergonha.
Mas... era verdade. Você era linda, uma graça e tudo o mais.
Bom, conversamos, conversamos, conversamos mais um pouco, conversamos ainda mais... e quando achei que ia, não foi.
Porquê não foi? Não sei, mas não foi.
Aí a vida nos levou para outros caminhos, outros corpos, outras dores. Fui até deletado do Facebook.
Natural.
E quando tudo estava normal novamente, você reapareceu. Sorrisos, alegria, descontração...
"Hey, vamos sair pra pegar Pokémon?"

E aí a gente se beijou, e foi você quem me agarrou, o que é mais surpreendente ainda.

A sensação de estar corrigindo algo que o destino deveria ter nos permitido 4 anos antes foi indescritível. Comecei a traçar rotas na minha própria cabeça, tentando encontrar respostas pro que nem deveria ter uma pergunta. Sabe, foi doido, de verdade foi doido.
Foi indescritivelmente doido, ainda mais se considerar que eu tava saindo de 2 relacionamentos seguidos. Eu me senti dentro de uma maquininha de buscar ursinhos, com um atoleiro de sentimentos me pressionando pra baixo, e você chegou com o gancho e me tirou de tudo aquilo. Eu, atolado num mar de dúvidas, tristezas e irritações, fui trazido pro mundo real.
Voltei ao normal. Voltei a ser eu mesmo. Voltei a só gostar de alguém e fui sincero.
Chega de esconder o que eu sinto, chega de fingir que sou o que não sou. Eu só mandei a letra.
Foi legal. Vivemos alguns meses muito intensos e incríveis. Conheci sua família, conheci sua dor. Dormimos e acordamos juntos. Transamos sexos incríveis. Comemos coisas deliciosas. Rimos. Choramos. Nos alegramos.

E de repente você sumiu e eu nunca mais te reencontrei.
De todas as histórias amargas que eu tenho pra contar do meu passado, você é a única que eu não consigo achar uma culpa pra apontar. Simplesmente por que eu nem sei o que aconteceu. Você só... sumiu. Evaporou, fugiu pelos meus dedos e foi embora sem arrependimentos. E aí eu tentei te reencontrar. O meu maior erro foi ter tentado te reencontrar.
A única coisa que eu sei é que isso me mudou. Pra melhor? Pra pior? Não faço ideia.
Mas mudou.

E se não fosse o livro de Edgar Allan Poe que você me emprestou, eu confesso, eu ainda estaria me perguntando se você foi real.

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