Honestidade é uma coisa muito complicada de se exigir, mas pior ainda é ser honesto. É muito difícil ser transparente por diversos motivos: Medo de magoar pessoas, medo de ser julgado, medo da baixa estima, medos, muitos medos. Mas pode perceber, a gente sempre fica muito frustrado quando as pessoas não são honestas com a gente. Esse é o erro: Não aceitar as máscaras dos outros.
"Ah, um dia sua máscara vai cair, você é podre, você é nojento". As pessoas não estão preparadas para lidar com o íntimo de ninguém. Pessoas num geral, basicamente todos nós: Eu, você quem lê, seus pais, seus avós, seus amigos e meus inimigos, talvez ninguém esteja mesmo preparado, ou até disposto a ler vossas almas. O nosso íntimo é significativamente cru e deveras amaldiçoado, uma maldição que só nos compete e que, muitas vezes, por compartilhar, acabamos criando inimizades.
É óbvio que há exceções a regra, já que num geral, se uma pessoa nos abandona por nos conhecer 100%, é sinal de que ela não merece nossa presença. Mas será mesmo que devemos compartilhar todos os nossos pensamentos?
É aí que entra a hipocrisia natural do ser humano. Quer saber tudo de todos, mas não quer que ninguém dê bom dia para o rosto por trás da sua máscara. Máscaras são necessárias, deveríamos agradecer por podermos ter a felicidade de poder compartilhar somente com nosso pensamento, nossos desejos, planos e segredos mais íntimos. Só nós mesmos nos entendemos, então nada mais justo sermos nossos melhores amigos, amantes e confidentes.
Quando estiverem em uma situação onde a máscara de alguém cair, lembre-se de sua própria máscara e faça uma reflexão: Quem é você para crucificar alguém?
07/12/2016
17/11/2016
Três, dois, um: Respira.
Alguns momentos tem sabor de eternidade, mas a maioria tem sabor de graxa velha. Num instante tudo pode se perder, ou você pode passar a vida inteira preso num looping chato. Não importa por onde você passar, sempre pode ser um lugar novo, contanto que olhe para o lugar certo. Abraçar as vezes é um bom remédio, mas tem hora que é bom tomar um Rivotril mesmo. Respirar traz calma, meditação e oxigênio, o que é importante para viver, mas prender a respiração as vezes é bom pra ligar a mente, ou pra desentupir os ouvidos quando colam. Decerto que nunca parou conscientemente para olhar aquele azulejo antigo que fica destacado na parede da casa da vovó, mas preste atenção da próxima vez, é capaz que perca um bom tempo analisando ele até perceber que perdeu um bom tempo analisando ele a toa, já que era só um azulejo inútil velho grudado na parede. Só que é bom as vezes perder tempo analisando coisas a toa. E se a paz que você quer está dentro de você mesmo? Já olhou lá pra dentro de você? Eu quando olho, só sinto fome, mas vai que você encontre paz? E é nessa loucura de viver que a gente deixa tanto tempo passar sem prestar atenção ao nosso redor. Tudo é arte, é música, é vida e não importa onde esteja, cidade grande, interior, dentro de um escritório, no fundo do mar, aprecie o seu momento. É um saco trabalhar, é uma merda ter de estudar, as vezes você só quer jogar, as vezes quer matar aquele cara idiota, mas tem coisas que são tão fáceis da gente fazer pra poder abstrair essas porcarias, que as vezes é difícil entender como que ficamos tanto tempo estressados. Somos autossuficientes, só falta nos bastarmos.
10/11/2016
Você não pode me derrubar.
Três a cada dez jovens sofrem bullying na escola. Um em cada cinco o praticam. 7,2% sofre bullying e 20,8% o praticam. 62% das pessoas que usam a internet, praticam bullying virtual. 49%, o sofrem. 20% são vítimas mas também o praticam. Cerca de um milhão de pessoas se suicidam por ano.
Estatísticas.
Adolescente de 12 anos se mata após bullying em Vitória. Menino morre em sala de aula após bullying homofóbico, caso acontecido na Rússia. Menina canadense se suicida após bullying em foto sua postada no facebook. Adolescente se suicida sendo assistido e incentivado na internet.
Fatos.
Estenda a mão pra quem precisa de você.
Não deixe um sonho morrer por falta de incentivo.
Precisamos entender que o próximo também é feito de carne e osso.
A vida é muito curta para encurtarmos mais ela.
Piadas contra outras pessoas não é engraçado. É cruel.
Segregação mata.
Bullying mata.
Não seja assassino passivo.
Não seja assassino.
E você, tente olhar a vida de uma ótica mais positiva.
Sua vida vale muito.
É preciosa.
Você provavelmente sabe cantar.
Se não sabe, cante mesmo assim.
Tocar, jogar, brincar.
Ser.
A tristeza é foda, as vezes você quer sumir.
Mas o céu é azul, o vento as vezes é gostoso.
Não desapegue.
Dê a volta por cima.
Você é capaz.
Vale a pena.
Seja o cavaleiro da paz no mundo do caos.
Pois só assim você não deixará o mal vencer.
E eventualmente, dê o dedo do meio para a vida.
Ela é mesmo bem filha da puta.
Estatísticas.
Adolescente de 12 anos se mata após bullying em Vitória. Menino morre em sala de aula após bullying homofóbico, caso acontecido na Rússia. Menina canadense se suicida após bullying em foto sua postada no facebook. Adolescente se suicida sendo assistido e incentivado na internet.
Fatos.
Estenda a mão pra quem precisa de você.
Não deixe um sonho morrer por falta de incentivo.
Precisamos entender que o próximo também é feito de carne e osso.
A vida é muito curta para encurtarmos mais ela.
Piadas contra outras pessoas não é engraçado. É cruel.
Segregação mata.
Bullying mata.
Não seja assassino passivo.
Não seja assassino.
E você, tente olhar a vida de uma ótica mais positiva.
Sua vida vale muito.
É preciosa.
Você provavelmente sabe cantar.
Se não sabe, cante mesmo assim.
Tocar, jogar, brincar.
Ser.
A tristeza é foda, as vezes você quer sumir.
Mas o céu é azul, o vento as vezes é gostoso.
Não desapegue.
Dê a volta por cima.
Você é capaz.
Vale a pena.
Seja o cavaleiro da paz no mundo do caos.
Pois só assim você não deixará o mal vencer.
E eventualmente, dê o dedo do meio para a vida.
Ela é mesmo bem filha da puta.
04/11/2016
Garota Perfeita.
E provavelmente você veio de outro mundo, porque nada do que diz parece fazer sentido.
Você é tão estranha, que quando entra na passarela, não é música que se ouve, e sim barulhos eletrônicos, zipzaps voando para todos os lados, parece que estática toma conta do lugar. Mas não dura muito e a música já volta a tocar. A questão é: Sério que alguém consegue prestar atenção em alguma música com você lá?
Remexe seus ombros de uma forma engraçada, tal como uma lagarta se liberta do casulo. Sua bunda requebra eloquentemente, descobrindo novas formas de vida na pista de dança. O ambiente é fechado, mas todos avistam o céu, sentem a brisa do mar e cheiram aquele aroma refrescante de orvalho na floresta. Não, não é sobre drogas que me refiro, e sim desse seu poder oculto de trazer vida aos ambientes mais inóspitos do planeta.
Com seu olhar sereno, ajeita os óculos e lança aquele laço giratório em todos ali presentes. Ainda toca alguma música no recinto? Ninguém sabe dizer, só que todos dançam, hipnotizados. Essa sua beleza exótica, em nada lembra os artistas da famigerada Hollywood. Na verdade, sua beleza é tão humana que parece extraterrestre. Contornos normais, curvas acentuadas, defeitos existentes, mas imperceptíveis ao olho nu da espécie-mor que transita em vaga existência térrea.
Sua boca não se move, exceto quando passa a língua pelos lábios. Acredito que toda vez que faz isso, várias fadas no mundo morrem. E se der na telha de botar a mão na cintura e apontar para alguma direção, ai acredito que todas as fadas morrem. O mais engraçado é que seu erotismo é tão cruel mas tão singelo, que nenhum homem tem coragem de lhe abordar, mas todos provavelmente desejaram estar em sua cama no final de sua apresentação.
Sua roupa era simples, mas reluzia sob os holofotes fluorescentes daquela espelunca que fedia até você entrar, e agora cheira a paz. Paz no meio do caos, um local outrora habitado por copos velhos e voadores de whisky e que agora é lar de bonitos copos de cuba libre. Mas ela não precisa disso para ficar embriagada. Ela DEIXA os outros embriagados, e é isso que a diverte. Ali, anos parecem dias, e todos ao redor desse astro-rei envelhecem, menos a própria, pois se alimenta da sua própria luz.
E talvez, cansada de agraciar a vida dos presentes com aquele espetáculo estranho que desenhou em papel crepom, ela começa a deixar o local. Rodeado de curiosos, ela simplesmente some no meio da multidão. O ambiente escurece novamente. O cheiro volta a ser pútrido. A felicidade some do lugar. E no fundo, o jukebox cospe fora aquele LP antigo do The Cure que ninguém reparara que tocava para, logo após, começar a tocar aquela velha merda do Metallica. E se copos, garrafas e suores misturados de sangue voltam a voar pelo local, pelo menos todos ali presentes sabem que, no fundo, a garota perfeita nunca pertenceu aquele lugar, mas aquele lugar jamais seria o mesmo sem aquela garota perfeita, extraterrestre mas simplesmente, humana.
Você é tão estranha, que quando entra na passarela, não é música que se ouve, e sim barulhos eletrônicos, zipzaps voando para todos os lados, parece que estática toma conta do lugar. Mas não dura muito e a música já volta a tocar. A questão é: Sério que alguém consegue prestar atenção em alguma música com você lá?
Remexe seus ombros de uma forma engraçada, tal como uma lagarta se liberta do casulo. Sua bunda requebra eloquentemente, descobrindo novas formas de vida na pista de dança. O ambiente é fechado, mas todos avistam o céu, sentem a brisa do mar e cheiram aquele aroma refrescante de orvalho na floresta. Não, não é sobre drogas que me refiro, e sim desse seu poder oculto de trazer vida aos ambientes mais inóspitos do planeta.
Com seu olhar sereno, ajeita os óculos e lança aquele laço giratório em todos ali presentes. Ainda toca alguma música no recinto? Ninguém sabe dizer, só que todos dançam, hipnotizados. Essa sua beleza exótica, em nada lembra os artistas da famigerada Hollywood. Na verdade, sua beleza é tão humana que parece extraterrestre. Contornos normais, curvas acentuadas, defeitos existentes, mas imperceptíveis ao olho nu da espécie-mor que transita em vaga existência térrea.
Sua boca não se move, exceto quando passa a língua pelos lábios. Acredito que toda vez que faz isso, várias fadas no mundo morrem. E se der na telha de botar a mão na cintura e apontar para alguma direção, ai acredito que todas as fadas morrem. O mais engraçado é que seu erotismo é tão cruel mas tão singelo, que nenhum homem tem coragem de lhe abordar, mas todos provavelmente desejaram estar em sua cama no final de sua apresentação.
Sua roupa era simples, mas reluzia sob os holofotes fluorescentes daquela espelunca que fedia até você entrar, e agora cheira a paz. Paz no meio do caos, um local outrora habitado por copos velhos e voadores de whisky e que agora é lar de bonitos copos de cuba libre. Mas ela não precisa disso para ficar embriagada. Ela DEIXA os outros embriagados, e é isso que a diverte. Ali, anos parecem dias, e todos ao redor desse astro-rei envelhecem, menos a própria, pois se alimenta da sua própria luz.
E talvez, cansada de agraciar a vida dos presentes com aquele espetáculo estranho que desenhou em papel crepom, ela começa a deixar o local. Rodeado de curiosos, ela simplesmente some no meio da multidão. O ambiente escurece novamente. O cheiro volta a ser pútrido. A felicidade some do lugar. E no fundo, o jukebox cospe fora aquele LP antigo do The Cure que ninguém reparara que tocava para, logo após, começar a tocar aquela velha merda do Metallica. E se copos, garrafas e suores misturados de sangue voltam a voar pelo local, pelo menos todos ali presentes sabem que, no fundo, a garota perfeita nunca pertenceu aquele lugar, mas aquele lugar jamais seria o mesmo sem aquela garota perfeita, extraterrestre mas simplesmente, humana.
15/10/2016
Doente Sociedade.
Já pararam para reparar como situações consideradas trágicas andam sendo motivos de ostentação? Depressão, tristeza, problemas pessoais entre outros se tornaram drogas consumáveis, e tal como estas, facilmente encontráveis em qualquer esquina mundo afora.
Não é muito difícil encontrar diálogos em que pessoas comparam, disputam e até brigam apenas para reforçar que estão mais desgraçados nesta vida, tipo:
- Tenho que tomar um tarja preta.
- Pelo menos você vai conseguir dormir, diferente de mim.
- Porém vou ter dificuldades de me concentrar.
- É, mas tem o fato de que você não precisa lidar com a morte de alguém.
- Mortes são difíceis, mas já passou pela situação de um avião caindo na sua casa? Poisé né...
E assim se sucede, num acúmulo de desgraças Murphyanas em que o vencedor é o ser mais fudido da conversa, levando para casa como prêmio uma falsa sensação de simpatia por suas dores, que o perdedor acaba sentindo obrigação de demonstrar.
Sociedade doente, cada vez mais próxima de um mundo mais racional, mas ainda sim tão presa a fantasmas, ainda sim tão perdida em seu egoismo. Envoltos de uma aura negativa, num mantra ecoado e repassado para todos em que "quanto mais cedo morrer, melhor". Suicidas em potencial? Talvez. Mas principalmente prostrados na arrogância de se manter na dor simplesmente por que é cool. Se o amigo tem uma depressão real, você pode muito bem inventar uma e sair por aí exibindo ela na cintura, junto de seu smartphone novo comprado pelo papai. E está tudo ok, pois estamos comprando este discurso. Ao invés de ajudar quem precisa, a gente gasta energia sendo um poço de desgraça também, é muito mais divertido e quem sabe, a gente não fica doente de verdade, não é mesmo? Mas tomara que sintam pena quando for verdade, pois o "tarde demais" anda cada vez mais recorrente nesse mundinho.
Não é muito difícil encontrar diálogos em que pessoas comparam, disputam e até brigam apenas para reforçar que estão mais desgraçados nesta vida, tipo:
- Tenho que tomar um tarja preta.
- Pelo menos você vai conseguir dormir, diferente de mim.
- Porém vou ter dificuldades de me concentrar.
- É, mas tem o fato de que você não precisa lidar com a morte de alguém.
- Mortes são difíceis, mas já passou pela situação de um avião caindo na sua casa? Poisé né...
E assim se sucede, num acúmulo de desgraças Murphyanas em que o vencedor é o ser mais fudido da conversa, levando para casa como prêmio uma falsa sensação de simpatia por suas dores, que o perdedor acaba sentindo obrigação de demonstrar.
Sociedade doente, cada vez mais próxima de um mundo mais racional, mas ainda sim tão presa a fantasmas, ainda sim tão perdida em seu egoismo. Envoltos de uma aura negativa, num mantra ecoado e repassado para todos em que "quanto mais cedo morrer, melhor". Suicidas em potencial? Talvez. Mas principalmente prostrados na arrogância de se manter na dor simplesmente por que é cool. Se o amigo tem uma depressão real, você pode muito bem inventar uma e sair por aí exibindo ela na cintura, junto de seu smartphone novo comprado pelo papai. E está tudo ok, pois estamos comprando este discurso. Ao invés de ajudar quem precisa, a gente gasta energia sendo um poço de desgraça também, é muito mais divertido e quem sabe, a gente não fica doente de verdade, não é mesmo? Mas tomara que sintam pena quando for verdade, pois o "tarde demais" anda cada vez mais recorrente nesse mundinho.
27/09/2016
A Garota do Blog.
Eram 23:48. O relógio do celular começava a embaçar, mas não era o bloqueio de tela, e sim os olhos implorando para serem fechados. Exausto, o dono daquele corpo tentava avidamente ficar acordado sob a premissa de que aquilo o faria bem, mesmo tendo que acordar as 6 em ponto, como de costume. Sua arma? Um teclado. Velho, empoeirado, recheado de cinzas grotescas de cigarros fumados a meses atrás. Seu combustível? Uma caneca de chá, vermelha, com alguns sinais de velhice e grande carga espiritual contida. Ah, o chá era de maçã. Estava a postos, o assunto estava na cabeça, mas não conseguia escrever (e ele queria escrever, ele precisava regurgitar toda cólera, tristeza, solidão possível). Mas... nah, não era possível. Era só mais um de seus inúmeros bloqueios temporais. Solitário bloqueio.
Envolta de um cenário até digamos sóbrio de seu quarto, a peça com menos luz ali era ele próprio. Sem muitos sentidos para sentir, digamos que nosso anti-herói apenas subexistia num contexto próprio sem muitas explicações para dar. Amava seu próprio umbigo, acariciava seu próprio ego, estava apenas sendo ele mesmo. Mas o sentido pr'aquela vida? Longe de existir.
E foi num motim armado por suas pálpebras, pesadas do sono, que ele piscou. Irritado com seu sono oscilante, decidiu pegar aquela velha carteira de cigarros e acender com seu zippo, dado a tanto por um velho amigo boêmio, um cigarro velho. O gosto do fumo desperta, apesar de cigarros geralmente abaixarem a pressão. E, num soluço inesperado, eis que surge atrás dele uma mulher. Tinha estatura mediana, olhos brilhantes feito a constelação de peixes e cabelos negros feito o espaço no momento da concepção do universo.
É, assim, sem nenhuma explicação.
O rapaz obviamente não esperava visita. Não sabia daonde aquela mulher surgira. Esfregou os olhos, coçou-os repetidamente. Ela continuava ali. Vestida 100% de branco, tal como uma entidade divina. Aquela figura feminina balançava o rosto levemente para os lados, como forma de resposta para aquele desespero do rapaz. Um sorriso de canto da boca para expressar que havia entendido, porém o riso era mais por graça mesmo. Era efêmero, mas real. E depois de se beliscar algumas vezes, se deu conta de que, ok, estava acontecendo. E aí vieram as perguntas.
- Quem é você? Daonde você é? O que faz aqui? Quais suas intenções? É uma ladra?
Não obteve respostas, o que o deixou mais frustrado. No embalo de seu nervosismo, percebera que deixou cair o cigarro no chão. Este por sinal, apagou deixando um enorme rastro de cinzas no assoalho. Pegou então outro cigarro, acendeu em forma de protesto velado e ficou ali, fitando a formosa moça inexistente.
- Eu sou a personificação carnal de sua criatividade.
A tragada engasgou, a tosse foi inevitável. Provavelmente haviam gotas de suor em sua testa, mas ele não saberia dizer se é verdade.
- Espera, como assim de minha criatividade? Está louca? Primeiro você aparece aqui no meu quarto parecendo um pai-de-santo, agora vem com isso? Mas que porra é essa?
Enquanto ele esbravejava um monte de frases que exploravam a incredulidade de sua alma, ela o observava por onde ele andasse. Verificou as portas, estas trancadas. As janelas ainda tinham grade. Não havia sinais de arrombamento. Por fim, decidiu que iria levar na brincadeira aquilo tudo.
- Ok, diga-me então, ó sábia entidade que habita meu ser, o que posso fazer por vossa humilde pessoa?
Franzindo a testa num sinal de total descontentamento, aquele "ser" se aproximou e deu-lhe um tapa (e que tapa!). Ecoou pela casa. Atônito, ele gritou - POR QUÊ???? -
A resposta veio logo em seguida:
- Isso é para você deixar de ser otário.
...
Ele riu. A mente dele aceitara que nada fazia mais sentido. Mas afinal, o que fazia sentido no mundo errático desse rapaz? Nada. Decidiu então ouvir de verdade o que havia por ser dito.
- Estou aqui todas as vezes que senta na frente de seu computador para escrever. Na verdade, estive aqui desde que pegou o seu caderninho da Disney e escreveu seu primeiro poema, lá no jardim de infância. Sempre teve habilidade mais do que suficiente para bordar com as palavras. Porém ultimamente sinto que você anda bucólico demais, triste demais, aborrecido demais. Tudo demais, menos o de menos.
Nosso herói vivia aqui algo que jamais havia vivido, mas também pudera. Não é todo mundo que recebe a visita personificada de algum estado espírito seu. Passou então a olhar para os cantos da sala, a chutar o chão, a morder os lábios. Estava nervoso, mas pensativo. Com medo, mas tranquilo. Se nada mais fazia sentido, então nem seu corpo reagia mais a aquilo tudo.
Ela prosseguiu.
- Estou aqui pois acho que seu talento é desperdiçado. Ou vai querer viver sua vida inteira falando das dores de cotovelo, dos problemas da sua vida? Acorda cara, a vida está logo ali, beijando o seu rabo enquanto o inverso é que deveria estar acontecendo.
Logo após falar, sua fisionomia passou de séria para feliz. E aquele sorriso parecia um pôr do sol de tão bem estruturado.
Respirando de forma ofegante, ele pensou em retrucar, mas as palavras não vinham. Sabia que estava certa. Sabia que há muitos dons seus que estão sendo totalmente desperdiçados apenas por preguiça de reconhecer que é bom neles. Libertando-se das amarras, decidiu perguntar:
- E o que eu devo fazer, afinal? Minha vida é muito sofrida e...
Ao passo que foi interrompido com uma simples resposta:
- Não faça, apenas sinta. Muito, pouco, bastante, em demasia, quase nada, um sopro. Mas sinta. Sinta o vento, a água, o quente e o frio. Sinta a música, a arte, sinta o beijo na sua pele. Sinta o aroma, sinta a queda de cabelos. Sinta dor, sinta ódio, mas sinta amor, sinta felicidade. Sinta o vazio, sinta ele se preencher. Sempre sinta, nunca fuja. É assim que vai saber o que tem que saber, e se é que deve saber o que deve ser dito, afinal, só sabemos o que queremos saber.
Talvez aqui ele tenha chorado um pouco, mas... ele não saberia dizer.
"Obrigado" disse ele.
"Por qual motivo agradece?" ela relutou.
"Por dar sentido a minha existência".
E de repente, o rapaz sumiu do cômodo. Ficara ali somente a menina, caída num sono profundo dentro de seu mágico blog. O que era reservado a partir dali? Só o homem de areia poderá dizer.
Envolta de um cenário até digamos sóbrio de seu quarto, a peça com menos luz ali era ele próprio. Sem muitos sentidos para sentir, digamos que nosso anti-herói apenas subexistia num contexto próprio sem muitas explicações para dar. Amava seu próprio umbigo, acariciava seu próprio ego, estava apenas sendo ele mesmo. Mas o sentido pr'aquela vida? Longe de existir.
E foi num motim armado por suas pálpebras, pesadas do sono, que ele piscou. Irritado com seu sono oscilante, decidiu pegar aquela velha carteira de cigarros e acender com seu zippo, dado a tanto por um velho amigo boêmio, um cigarro velho. O gosto do fumo desperta, apesar de cigarros geralmente abaixarem a pressão. E, num soluço inesperado, eis que surge atrás dele uma mulher. Tinha estatura mediana, olhos brilhantes feito a constelação de peixes e cabelos negros feito o espaço no momento da concepção do universo.
É, assim, sem nenhuma explicação.
O rapaz obviamente não esperava visita. Não sabia daonde aquela mulher surgira. Esfregou os olhos, coçou-os repetidamente. Ela continuava ali. Vestida 100% de branco, tal como uma entidade divina. Aquela figura feminina balançava o rosto levemente para os lados, como forma de resposta para aquele desespero do rapaz. Um sorriso de canto da boca para expressar que havia entendido, porém o riso era mais por graça mesmo. Era efêmero, mas real. E depois de se beliscar algumas vezes, se deu conta de que, ok, estava acontecendo. E aí vieram as perguntas.
- Quem é você? Daonde você é? O que faz aqui? Quais suas intenções? É uma ladra?
Não obteve respostas, o que o deixou mais frustrado. No embalo de seu nervosismo, percebera que deixou cair o cigarro no chão. Este por sinal, apagou deixando um enorme rastro de cinzas no assoalho. Pegou então outro cigarro, acendeu em forma de protesto velado e ficou ali, fitando a formosa moça inexistente.
- Eu sou a personificação carnal de sua criatividade.
A tragada engasgou, a tosse foi inevitável. Provavelmente haviam gotas de suor em sua testa, mas ele não saberia dizer se é verdade.
- Espera, como assim de minha criatividade? Está louca? Primeiro você aparece aqui no meu quarto parecendo um pai-de-santo, agora vem com isso? Mas que porra é essa?
Enquanto ele esbravejava um monte de frases que exploravam a incredulidade de sua alma, ela o observava por onde ele andasse. Verificou as portas, estas trancadas. As janelas ainda tinham grade. Não havia sinais de arrombamento. Por fim, decidiu que iria levar na brincadeira aquilo tudo.
- Ok, diga-me então, ó sábia entidade que habita meu ser, o que posso fazer por vossa humilde pessoa?
Franzindo a testa num sinal de total descontentamento, aquele "ser" se aproximou e deu-lhe um tapa (e que tapa!). Ecoou pela casa. Atônito, ele gritou - POR QUÊ???? -
A resposta veio logo em seguida:
- Isso é para você deixar de ser otário.
...
Ele riu. A mente dele aceitara que nada fazia mais sentido. Mas afinal, o que fazia sentido no mundo errático desse rapaz? Nada. Decidiu então ouvir de verdade o que havia por ser dito.
- Estou aqui todas as vezes que senta na frente de seu computador para escrever. Na verdade, estive aqui desde que pegou o seu caderninho da Disney e escreveu seu primeiro poema, lá no jardim de infância. Sempre teve habilidade mais do que suficiente para bordar com as palavras. Porém ultimamente sinto que você anda bucólico demais, triste demais, aborrecido demais. Tudo demais, menos o de menos.
Nosso herói vivia aqui algo que jamais havia vivido, mas também pudera. Não é todo mundo que recebe a visita personificada de algum estado espírito seu. Passou então a olhar para os cantos da sala, a chutar o chão, a morder os lábios. Estava nervoso, mas pensativo. Com medo, mas tranquilo. Se nada mais fazia sentido, então nem seu corpo reagia mais a aquilo tudo.
Ela prosseguiu.
- Estou aqui pois acho que seu talento é desperdiçado. Ou vai querer viver sua vida inteira falando das dores de cotovelo, dos problemas da sua vida? Acorda cara, a vida está logo ali, beijando o seu rabo enquanto o inverso é que deveria estar acontecendo.
Logo após falar, sua fisionomia passou de séria para feliz. E aquele sorriso parecia um pôr do sol de tão bem estruturado.
Respirando de forma ofegante, ele pensou em retrucar, mas as palavras não vinham. Sabia que estava certa. Sabia que há muitos dons seus que estão sendo totalmente desperdiçados apenas por preguiça de reconhecer que é bom neles. Libertando-se das amarras, decidiu perguntar:
- E o que eu devo fazer, afinal? Minha vida é muito sofrida e...
Ao passo que foi interrompido com uma simples resposta:
- Não faça, apenas sinta. Muito, pouco, bastante, em demasia, quase nada, um sopro. Mas sinta. Sinta o vento, a água, o quente e o frio. Sinta a música, a arte, sinta o beijo na sua pele. Sinta o aroma, sinta a queda de cabelos. Sinta dor, sinta ódio, mas sinta amor, sinta felicidade. Sinta o vazio, sinta ele se preencher. Sempre sinta, nunca fuja. É assim que vai saber o que tem que saber, e se é que deve saber o que deve ser dito, afinal, só sabemos o que queremos saber.
Talvez aqui ele tenha chorado um pouco, mas... ele não saberia dizer.
"Obrigado" disse ele.
"Por qual motivo agradece?" ela relutou.
"Por dar sentido a minha existência".
E de repente, o rapaz sumiu do cômodo. Ficara ali somente a menina, caída num sono profundo dentro de seu mágico blog. O que era reservado a partir dali? Só o homem de areia poderá dizer.
12/09/2016
Amores vem e vão.
Amores vem e vão, é da vida, a gente aprende. Porém, grande parte das pessoas costuma focar e/ou apenas se recordar das coisas ruins que aconteceram, dos momentos de merda, dos problemas e das mentiras. Ninguém é perfeito. Eu por exemplo coleciono relacionamentos frustrados, em grande parte deles eu sai machucado mas em alguns eu também fiz minhas merdas e sai como grande culpado. Amores vem e vão, e é das sobras dos caquinhos que caem no chão que você se remonta para sobre-viver uma nova paixão. É assim que funciona. Agora para pra pensar: Será que vale a pena mesmo pegar os piores cacos do chão, ou será que vale a pena pegar aqueles que te lembram como você pode ser uma ótima pessoa com alguém? Será que vale mesmo a pena esquecer dos bons momentos, das brigas idiotas por conta do controle remoto, das receitas imbecis que solam no forno, será mesmo que vale a pena trocar grande parte das boas memórias por rancores? A vida é muito curta para não se aprender com os erros que nos aparecem, e a vida é muito curta para não se perdoar o próximo. Amores vem e vão, mas não se esqueça do maior amor de todos, o próprio. Esse sim, a gente tem que manter intacto até o fim dos tempos.
04/09/2016
Raio Vermelho.
Raio vermelho.
Óculos brancos.
Uma vida solitária.
Tal como outros tantos.
Pequeno nariz.
Olhos fechados.
Um rosto pueril
com inúmeros achados.
Sorriso incandescente
Irradia este ser.
Faltariam dedos para delinear
Quão incrível é descrever.
Qualquer imperfeição
Sumiu de sua vida.
É possível dar meia volta
numa história já tida.
Eloquência arbitrária.
Nunca vi nada igual.
Tendo dito tais palavras
Termino por aqui tais versos.
E cravo com um ponto final
O melhor de dois universos.
Óculos brancos.
Uma vida solitária.
Tal como outros tantos.
Pequeno nariz.
Olhos fechados.
Um rosto pueril
com inúmeros achados.
Sorriso incandescente
Irradia este ser.
Faltariam dedos para delinear
Quão incrível é descrever.
Qualquer imperfeição
Sumiu de sua vida.
É possível dar meia volta
numa história já tida.
Eloquência arbitrária.
Surrealismo irreal.
Nada faz sentido.Nunca vi nada igual.
Tendo dito tais palavras
Termino por aqui tais versos.
E cravo com um ponto final
O melhor de dois universos.
29/08/2016
Ser sem o ser.
Sinto muito por expectativas não correspondidas. Pela dor que causei a todo mundo nessa vida.
Eu sinto muito, de verdade, por todo ódio que alimentei de pessoas que, por fraqueza, me magoaram.
Me arrependo de ter feito coisas horríveis para ótimas pessoas, ao invés de procurar fins mais honestos.
Honestidade, pura e simples que algumas vezes me faltou, infelizmente.
Doeu quando foi comigo, e mais ainda quando fiz a outras pessoas.
Quando falo as pessoas que sou um cara falho, cheio de defeitos e problemático, eu não minto. Eu sou um ser humano irritadiço, cheio das problemáticas. Quase sempre centrado, mas as vezes algum deslize me puxa para o submundo das emoções humanas.
E o mais duro não é arcar com minhas dores. Com o tempo, eu as supero, afinal eu aparentemente nasci pra guerra: Quanto mais apanho, mais aprendo a apanhar. Duro mesmo é arcar com dores que causei. De terceiros. De quintos, sextos e infinitas filas de pessoas. E eu sei o mal que fiz a muitas pessoas.
A estas pessoas, grande parte delas consegui pedir perdão (e geralmente eu consegui conquistar esse perdão). Já alguns, infelizmente, eu nunca conseguirei. A vida tem dessas coisas, quem apanha não esquece.
Mas vida, não esqueça que quem bateu pode também não esquecer.
E eu espero nunca esquecer mesmo. Pois só assim eu vou me tornar um homem melhor.
Por todos os palavrões que eu já proferi, peço desculpas.
Por todo ódio que verbalizei por emoções falsas, peço desculpas.
Por todos os objetos quebrados, peço desculpas.
Por todos os comentários maldosos e difamatórios que fiz, peço desculpas.
E por toda mágoa que ocasionei a todas estas pessoas que passaram pela minha vida, eu peço desculpas.
Eu infelizmente, sou só um ser humano.
Talvez até sem o ser.
Eu sinto muito, de verdade, por todo ódio que alimentei de pessoas que, por fraqueza, me magoaram.
Me arrependo de ter feito coisas horríveis para ótimas pessoas, ao invés de procurar fins mais honestos.
Honestidade, pura e simples que algumas vezes me faltou, infelizmente.
Doeu quando foi comigo, e mais ainda quando fiz a outras pessoas.
Quando falo as pessoas que sou um cara falho, cheio de defeitos e problemático, eu não minto. Eu sou um ser humano irritadiço, cheio das problemáticas. Quase sempre centrado, mas as vezes algum deslize me puxa para o submundo das emoções humanas.
E o mais duro não é arcar com minhas dores. Com o tempo, eu as supero, afinal eu aparentemente nasci pra guerra: Quanto mais apanho, mais aprendo a apanhar. Duro mesmo é arcar com dores que causei. De terceiros. De quintos, sextos e infinitas filas de pessoas. E eu sei o mal que fiz a muitas pessoas.
A estas pessoas, grande parte delas consegui pedir perdão (e geralmente eu consegui conquistar esse perdão). Já alguns, infelizmente, eu nunca conseguirei. A vida tem dessas coisas, quem apanha não esquece.
Mas vida, não esqueça que quem bateu pode também não esquecer.
E eu espero nunca esquecer mesmo. Pois só assim eu vou me tornar um homem melhor.
Por todos os palavrões que eu já proferi, peço desculpas.
Por todo ódio que verbalizei por emoções falsas, peço desculpas.
Por todos os objetos quebrados, peço desculpas.
Por todos os comentários maldosos e difamatórios que fiz, peço desculpas.
E por toda mágoa que ocasionei a todas estas pessoas que passaram pela minha vida, eu peço desculpas.
Eu infelizmente, sou só um ser humano.
Talvez até sem o ser.
17/08/2016
Som da Fúria.
Grita a pleno pulmões sua cólera visceral.
Não escapa pela boca nenhuma gota desse veneno.
Estes lábios roxos, nervosos, pulsantes.
Certos do que é convicto e pleno.
Perde o foco devagar, cortando sua pele.
Estremece suas pálpebras, tamanha é a febre.
Lágrimas secas, invisíveis, insípidas.
Não há mais nada dentro de ti que se quebre.
Entra dentro de seu baú, revira sem parar.
Não acha nada, nem sabe o que procura.
No seu jardim não há mais pétalas, folhas estão secas.
Sua voz embarga, fica cada vez mais obscura.
É nessa fila de erros que descubro sua dor.
Experimento o amargo som da sua fúria.
Deixa a mercê uma alma infeliz
Rodeada da mais pura penúria.
Mas antes do fim, desse estapafúrdio final.
Dei a tua alma o melhor dos meus gritos.
A minha sinfonia de vida, meu ardor mais puro.
Deixei seus nervos, enfim, fritos.
Não escapa pela boca nenhuma gota desse veneno.
Estes lábios roxos, nervosos, pulsantes.
Certos do que é convicto e pleno.
Perde o foco devagar, cortando sua pele.
Estremece suas pálpebras, tamanha é a febre.
Lágrimas secas, invisíveis, insípidas.
Não há mais nada dentro de ti que se quebre.
Entra dentro de seu baú, revira sem parar.
Não acha nada, nem sabe o que procura.
No seu jardim não há mais pétalas, folhas estão secas.
Sua voz embarga, fica cada vez mais obscura.
É nessa fila de erros que descubro sua dor.
Experimento o amargo som da sua fúria.
Deixa a mercê uma alma infeliz
Rodeada da mais pura penúria.
Mas antes do fim, desse estapafúrdio final.
Dei a tua alma o melhor dos meus gritos.
A minha sinfonia de vida, meu ardor mais puro.
Deixei seus nervos, enfim, fritos.
09/08/2016
Estou desativado, desplugado, desconectado. Minha vida ganhou um banho de significados e eu simplesmente me tornei uma outra pessoa desde um mês atrás. Agora só me basta saber se, após meu erro, eu conseguirei novamente ser alguém bom ou se eu vou adentrar o mundo que eu sempre rejeitei: O das pessoas normais.
27/06/2016
Aos vermes, com muito carinho.
O que diria um morto a seus entes queridos? O que falaria uma pessoa baleada a seu assassino? Talvez teríamos muitas revelações, um monte de crimes solucionados, imaginem só quantas declarações de amor seriam feitas. Cada morto um novo Brás Cubas, prontos para escreverem suas próprias biografias. Será que os mortos se comunicam em espírito? Ou será que eles entram em contato por carne podre, defunta e despida em seus esqueletos? Boa pergunta. A vida sempre foi uma linha tênue entre a inexistência e a morte, talvez o único ponto relevante da existência do planeta, o que torna tudo tão mais despretensioso ou até importante. Não saberia dizer. O que compreendo é que exploramos o mundo sem explorarmos o nosso próprio planeta, e cada cabeça um novo planeta, então seriam zilhões de planetas já habitados no sistema solar chamado terra, então imagine quantos planetas nessa galáxia particular da sociedade deixaram de ser habitados não por falta de combustível para a nave, ou por falta de tecnologia suficiente, mas sim apenas por falta de curiosidade ou excesso de obstáculos terrenos. Terrenos? Nah, obstáculos impostos por nós mesmos, na ânsia de sermos aquilo que jamais seremos, vivendo vidas que não são nossas, beijando bocas que jamais deveriam ser encostadas. Ah, quisera eu poder viver novamente para cometer os mesmos erros. Sim, eu já estou morto, e só quem me ouve são estes nobres vermes que se alimentam de mim, regurgitando os pedaços da minha vida.
17/05/2016
Agende-se
Qual a sua prioridade?
Carro, casa, um grande amor?
Talvez um suspiro da padaria?
Talvez não mais sentir dor?
Que tal enumerar sua vida?
Sabe como fazer isso?
Tente olhar pelo escopo, ok?
Será que eu te atiço?
Vamos lá, pegue um papel.
Pautado, opaline, qualquer um.
Caneta em mãos! vamos escreva!
Do que não pode abrir mão de jeito nenhum?
Vai, não é tão difícil começar
Você só precisa de um incentivo
Que tal um caminhão de descanso?
Parece um bom aperitivo.
Foco é a única coisa que precisa agora.
Saiba que o mundo é cruel, ele não vai parar.
Se você for engolido pela selva de pedra.
Ela não terá dó, só irá mastigar e mastigar.
Então priorize-se, vista-se.
Use essa organização a seu favor.
Mentalize suas energias, canalize-se.
E não deixe nunca medo virar pavor.
Carro, casa, um grande amor?
Talvez um suspiro da padaria?
Talvez não mais sentir dor?
Que tal enumerar sua vida?
Sabe como fazer isso?
Tente olhar pelo escopo, ok?
Será que eu te atiço?
Vamos lá, pegue um papel.
Pautado, opaline, qualquer um.
Caneta em mãos! vamos escreva!
Do que não pode abrir mão de jeito nenhum?
Vai, não é tão difícil começar
Você só precisa de um incentivo
Que tal um caminhão de descanso?
Parece um bom aperitivo.
Foco é a única coisa que precisa agora.
Saiba que o mundo é cruel, ele não vai parar.
Se você for engolido pela selva de pedra.
Ela não terá dó, só irá mastigar e mastigar.
Então priorize-se, vista-se.
Use essa organização a seu favor.
Mentalize suas energias, canalize-se.
E não deixe nunca medo virar pavor.
Boneca Narcoléptica.
Boneca de pano, visitante dos sonhos. Quem és, tão branca feito porcelana, com lábios de estopa e olhos de botão? Responda ao mundo seu viés de vida, o viés de sua bainha. Explica-te a ti mesmo como fazes para pular de nave em nave feito algodão-doce em chamas, explica-me como faz para visitar Morfeu a cada nau a deriva. Narcoléptica inveterada, toma banho de orvalho na relva verde musgo que gruda em tua sorte, tão forte. Assume seus riscos, desenha tua tribo, não nasceu no planeta vigente, mas sabe que deténs a chave da porta da frente. Não obstante, não se abstenha. Com seu punho celeste, dite moda as nossas cabeças, não corrompa o véu branco que cai do céu, que cobre seu corpo banhado da noite dos impuros, dos puros e dos passageiros da vida. Boneca transitória, malemolente, indecifrável. Acenda o seu cigarro e conte sua história, sua vida, mas não me deixe despertar, pois em sua guarda, todo sonho visitado ganhou um motivo a mais para ser sonhado. E nem pense em acordar também, narcoléptica, já que nem sempre o ódio vem de uma origem perfeita, e seu último suspiro pode ser muito bem a respiração de uma nova vida.
15/03/2016
Enxergar.
O que é o vazio, senão uma grande parcela de sentimentos ruins inacabados, de motivos inexistentes para desistências que não existem, de gostos que nunca foram degustados, sentidos no alto da língua. Uma grande junção inacabada de atos divididos em um roteiro falho sem atores definidos, mas que um por um, aparecem do nada. São sentidos aguçados eliminados pelo golpe do destino, destino esse inevitável, implacável. O vazio existencial, impreenchível. É a vida e morte do show da sobrevivência. Pontos disformes no espaço temporal, pedaços insignificantes na vida de alguém. Almas recicláveis na vastidão do triste mundo que desponta no nascer do sol. O tempo volta, o tempo vai, mas que tempo volta se nenhum tempo chega? E chega dessa síndrome viajada, aperte sua brasa. Abra seus olhos, veja o que acontece: O mundo mudou. Você só precisava enxergar.
Fósforo
Amargo como o café de um copo sujo feito numa fábrica velha que estava a venda cinco anos atrás por um proprietário velho, quase morto, que tinha grande amargor em sua fala. Ele dizia para os netos que a vida era igual um fósforo: Curta, com um leve momento de luz, depois uma brasa, e no fim só sobravam as cinzas. E as cinzas do velho foram jogadas no mar Cáspio próximo as redondezas de Baku, que fica no Azerbaijão, país incrustado entre a Ásia e Europa. Continentes do planeta Terra, que lembra o marrom da terra e por fim, nada lembra as cinzas velhas de um velho que morreu de velhice.Velhice problemática por vários vazios existenciais, mas que existência um homem assim desempenha no mundo?
A mesma existência sua, que lê aqui. E se você não prestar atenção no mundo ao seu redor, sua linha do tempo se resumirá a um palito de fósforo. Aproveite a viagem, ela é de graça.
A mesma existência sua, que lê aqui. E se você não prestar atenção no mundo ao seu redor, sua linha do tempo se resumirá a um palito de fósforo. Aproveite a viagem, ela é de graça.
Calor-rei
A tarde apenas começou
Fúlgida como o sol que desponta
Um calor devastador
Que deixa sua alma tonta.
Quase tolero esse clima
Mas é impossível gostar do quente
A única forma realmente boa de calor
É a de um corpo ainda latente.
Nessa situação vil
Penso até em subornar o sol
Mas como comprar o Astro-rei
Se não se pesca-o com linha e anzol?
Admito minha derrota infeliz
Por agora, não lutarei contra essa natureza
Afinal, não me resta muito
Além de admirar vossa realeza.
Mas não pensem que estou conformado
Derrota é diferente de adaptação
Não me inquieto, procurá-lo-ei derrotar
Até minar meu inábil coração.
Fúlgida como o sol que desponta
Um calor devastador
Que deixa sua alma tonta.
Quase tolero esse clima
Mas é impossível gostar do quente
A única forma realmente boa de calor
É a de um corpo ainda latente.
Nessa situação vil
Penso até em subornar o sol
Mas como comprar o Astro-rei
Se não se pesca-o com linha e anzol?
Admito minha derrota infeliz
Por agora, não lutarei contra essa natureza
Afinal, não me resta muito
Além de admirar vossa realeza.
Mas não pensem que estou conformado
Derrota é diferente de adaptação
Não me inquieto, procurá-lo-ei derrotar
Até minar meu inábil coração.
12/03/2016
Internet.
Ligo o PC.
Voam palavras. Voam sorrisos e também piadas.
Pego um café.
Acendo aquele cigarro.
Voam frases. Voam corpos dançando.
O café acaba.
O cigarro apaga.
Voam luzes. Voam desenhos e também emoções.
Está tarde, eu deveria dormir?
Mas são só 3:00 da manhã.
Voam fotos. De família e nudes também.
Acendo mais um cigarro.
Apago as luzes.
Voam músicas. E também videoclipes.
Danço um pouco.
Canto um muito.
Voam saberes. Voam dúvidas.
Penso em muitas coisas.
Não penso em nada.
Voam piadas. Voam nadas.
Nadas.
Tudos.
Desligo o PC.
Mas a internet está ali, na palma da mão.
Encosto a cabeça no travesseiro.
Voam conversas. Voam jogos.
Eu não durmo.
Eu quero mais.
Mas o que mais pode voar?
Voa tudo.
E nada mais se absorve.
Voam palavras. Voam sorrisos e também piadas.
Pego um café.
Acendo aquele cigarro.
Voam frases. Voam corpos dançando.
O café acaba.
O cigarro apaga.
Voam luzes. Voam desenhos e também emoções.
Está tarde, eu deveria dormir?
Mas são só 3:00 da manhã.
Voam fotos. De família e nudes também.
Acendo mais um cigarro.
Apago as luzes.
Voam músicas. E também videoclipes.
Danço um pouco.
Canto um muito.
Voam saberes. Voam dúvidas.
Penso em muitas coisas.
Não penso em nada.
Voam piadas. Voam nadas.
Nadas.
Tudos.
Desligo o PC.
Mas a internet está ali, na palma da mão.
Encosto a cabeça no travesseiro.
Voam conversas. Voam jogos.
Eu não durmo.
Eu quero mais.
Mas o que mais pode voar?
Voa tudo.
E nada mais se absorve.
25/02/2016
Vinte e cinco de fevereiro de dois mil e dezesseis.
Sou complexo e não nego. Minha felicidade depende de coisas simples, mas minha tristeza vem em doses homeopáticas e quando se instala, é pior que Baidu. Gostaria de pedir a todos os envolvidos que nunca se culpem por não me entender, até porque nem eu mesmo me entendo, mesmo passado longos anos a fio tentando. É por isso que não me preocupo mais com quem eu sou, o que eu irei fazer em si e com o tempo que vou perder, e por perder quero dizer em qualquer sentido mesmo. Eu só vivo. Vivo para procurar um mundo melhor, sem desigualdade racial, social e religiosa, mas também vivo para procurar um lugarzinho ao sol. Casa, carro, uma tv, sei lá. Quero ser eu mesmo, e esse sou eu. Já tentei ser os outros, tipo imitar a roupa do amigo skatista ou comprar a jaqueta de couro do amigo headbanger. Particularmente hoje, eu sou capaz de usar uma bermuda de surf com uma camisa do Slipknot. Pois é isso que eu sou.
Um cara estranho, talvez?
E isso também significa que, por mais que eu queira, ninguém consegue botar sela em mim. Não consigo dormir em paz, meu estômago revira. Aliás, árdua guerra eu travo com este órgão, que vive me atazanando de tempos em tempos. Se eu pudesse eu arrancava ele, mas viver sem comer é um saco (escrotal, devo acrescentar). Não sou um cara de muitos dons, e na verdade, eu sequer pratico o que sei. Devo estar na escala mediana em tudo que eu faço, e pra mim, tá tudo bem. Eu nunca quis ser famoso, importante, e até lido bem com esse fardo. Mas já quis ser ator. E também cozinheiro, lixeiro, radiologista, professor de história e bem... agora quero ser publicitário. Tomara que dure esse "agora quero". Eu estou mais para um grito visceral que ninguém ouve do que para um ditado popular que vira rodapé de foto no Facebook.
Sei lá, mil tretas.
Observem que eu não estou falando aqui porque quero soluções para os meus problemas ou que eu esteja afim de expor minha vida. Na verdade, só estou dissertando sobre como eu me enxergo, e como quase não enxergo nada, parece que depois de muito tempo, só me sobra divagar. Mas é o que tem para hoje. Nós podemos enganar tudo, menos duas coisas: A morte e a nós mesmos. Só que como eu nunca me importei com as duas coisas, então acho que eu largo na frente para viver em paz comigo mesmo.
Mas eu bem que podia perder essa barriguinha.
Resumo da ópera: Faço de tempos em tempos uma avaliação. Penso: O que o Marcio de 14 anos pensaria me vendo hoje? A resposta depende do meu humor, mas num geral, acredito até que ele estaria orgulhoso hoje, mesmo muito longe do objetivo que eu pintei para mim. O mal da minha geração é... calma, qual é a minha geração?
Y ou Z?
Eu sou um pouco dos dois. E isso significa ficar decepcionado a toa. Sabe, quando você olha a grama do vizinho e ela é mais verde que a sua? Então, isso se chama "Desejar o que não se pode ter". Pelo menos sem trabalho árduo. Meu pessimismo é uma merda, e inclusive não faz sentido. Como pode eu, que me aceito como sou, ficar decepcionado mesmo assim? Acho que na verdade, eu queria ajudar mais os outros, ter mais disposição para saciar os anseios de todos que me rodeiam, poder retribuir com requintes de benevolência tudo o que vem para mim. Se sofro, não é por mim, é pelos outros.
Então... E ai?
E aí que nada sei. Só vou continuar seguindo o meu coração.
Um cara estranho, talvez?
E isso também significa que, por mais que eu queira, ninguém consegue botar sela em mim. Não consigo dormir em paz, meu estômago revira. Aliás, árdua guerra eu travo com este órgão, que vive me atazanando de tempos em tempos. Se eu pudesse eu arrancava ele, mas viver sem comer é um saco (escrotal, devo acrescentar). Não sou um cara de muitos dons, e na verdade, eu sequer pratico o que sei. Devo estar na escala mediana em tudo que eu faço, e pra mim, tá tudo bem. Eu nunca quis ser famoso, importante, e até lido bem com esse fardo. Mas já quis ser ator. E também cozinheiro, lixeiro, radiologista, professor de história e bem... agora quero ser publicitário. Tomara que dure esse "agora quero". Eu estou mais para um grito visceral que ninguém ouve do que para um ditado popular que vira rodapé de foto no Facebook.
Sei lá, mil tretas.
Observem que eu não estou falando aqui porque quero soluções para os meus problemas ou que eu esteja afim de expor minha vida. Na verdade, só estou dissertando sobre como eu me enxergo, e como quase não enxergo nada, parece que depois de muito tempo, só me sobra divagar. Mas é o que tem para hoje. Nós podemos enganar tudo, menos duas coisas: A morte e a nós mesmos. Só que como eu nunca me importei com as duas coisas, então acho que eu largo na frente para viver em paz comigo mesmo.
Mas eu bem que podia perder essa barriguinha.
Resumo da ópera: Faço de tempos em tempos uma avaliação. Penso: O que o Marcio de 14 anos pensaria me vendo hoje? A resposta depende do meu humor, mas num geral, acredito até que ele estaria orgulhoso hoje, mesmo muito longe do objetivo que eu pintei para mim. O mal da minha geração é... calma, qual é a minha geração?
Y ou Z?
Eu sou um pouco dos dois. E isso significa ficar decepcionado a toa. Sabe, quando você olha a grama do vizinho e ela é mais verde que a sua? Então, isso se chama "Desejar o que não se pode ter". Pelo menos sem trabalho árduo. Meu pessimismo é uma merda, e inclusive não faz sentido. Como pode eu, que me aceito como sou, ficar decepcionado mesmo assim? Acho que na verdade, eu queria ajudar mais os outros, ter mais disposição para saciar os anseios de todos que me rodeiam, poder retribuir com requintes de benevolência tudo o que vem para mim. Se sofro, não é por mim, é pelos outros.
Então... E ai?
E aí que nada sei. Só vou continuar seguindo o meu coração.
06/02/2016
Arrepios Opostos.
Haviam dois corpos naquele local. Um era tímido, aparentemente frágil, banhado pela luz da lua. O outro era atirado, decidido, mas no fim, também tão tímido quanto o outro. As idas e vindas não faziam sentido, era óbvio que queriam se colidir. Mas a teimosia em tentar impedir o inevitável é algo que atormenta a todos os seres humanos. Um breve vacilo num momento relaxado e de repente, os dois corpos entraram em êxtase. Um beijo quente numa noite quente onde tudo mais que os via era a bela lua de uma primavera já esquecida. As mãos que não se aquietavam, os pés que se reviravam, os olhos... ah os olhos. Eles não paravam quietos naquelas pálpebras fechadas. Mas eles se aquietaram, por fim, para se abrirem e verem que aquele breve momento durou por mais tempo do que devia. A colisão dos corpos prontos para o sexo que não existiu. O tesão fora a mil, mas abaixou como com um balde de água fria. Mas aquelas sensações, aquela situação diferente, ela pode ser sentida até hoje. Basta fechar os mesmos olhos e esperar pelo arrepio na pele que virá com o momento.
Amanhecer.
Não passava das cinco da manhã. O sol, preguiçoso, formava uma linha única no horizonte, banhando com riscos de dourado, laranja e vermelho, toda uma selva de pedra com a qual o par de olhos igualmente fugazes ainda tentava se acostumar. Ela gostava de acordar cedo, observar o mundo despertar segundo a segundo enquanto o abismo fechava abaixo dos pés chatos que tanto odiava.
Aquela calmaria matutina era o único pedacinho de sua terra natal que conseguia encontrar na grande capital, além dele, é claro. Aliás, mais uma vez, a noite em claro materializava-se nas olheiras profundas da garota. Ou devia dizer mulher? Bom, essa ainda era a pergunta que tentava responder a si mesma. De qualquer forma, não importava, a culpa seria dele.
Brigaram e como brigaram. O cartão atrasou porque ela não sabia aonde tinha enfiado o boleto, o gato fugiu porque ele esqueceu a porta aberta, o encanador não tinha ido ao andar deles de novo para ver o problema da água quente e tudo porque ela não deixou o pedido na portaria. Ela queria ter um filho, ele tinha medo de ser pai tão cedo. E depois se amaram. Um sentimento tão grande e profundo que parecia pequeno para as paredes fracas do apartamento de apenas três cômodos. Todavia, não sufocava, não emergia, permanecia fluindo como o vento, perdido nas curvas dela, no sorriso dele.
- Acordada a essa hora?
No susto, o corpinho quase despencou pelo janelão da sala. Ainda com a expressão amassada e linhas do travesseiro atravessando o rosto e o peito, ele estava ali, parado a olhar para ela, o braço apoiado acima da cabeça, na coluna que dividia cozinha e balcão do sofá e do resto, uma caneca de café quente na outra e o mesmo sorriso de moleque que a encantava em todas as vezes.
- Acho que não dormi.
Sorrindo, virou-se para ele, os cotovelos encaixados no peitoril de mármore. Era assim que sabia que o encantava: Apenas uma camisa de flanela abotoada de forma errada e qualquer roupa íntima que fosse fácil de tirar.
- Minha intenção era te cansar e não te entediar até a morte a ponto de tirar seu sono.
- Ainda dá tempo.
- Mas eu tenho que trabalhar.
- Como se você precisasse de mais do que dez minutos.
Absolutamente desafiado, ele balançou a cabeça de um lado a outro, mantendo aquele rasgo nos lábios que indicavam perigo, bem puxado para a direita. Nessas horas, se lembrava do passado e de todas as coisas ditas e não ditas, viajou nas pernas que se esbarravam uma na outra, nas mechas escuras caindo sobre o tecido ralo de sua própria camisa velha, na renda que escapava entre os botões e suspirou:
- Acho que meu chefe não vai ligar se eu me atrasar por meia ou uma hora...
Aquela calmaria matutina era o único pedacinho de sua terra natal que conseguia encontrar na grande capital, além dele, é claro. Aliás, mais uma vez, a noite em claro materializava-se nas olheiras profundas da garota. Ou devia dizer mulher? Bom, essa ainda era a pergunta que tentava responder a si mesma. De qualquer forma, não importava, a culpa seria dele.
Brigaram e como brigaram. O cartão atrasou porque ela não sabia aonde tinha enfiado o boleto, o gato fugiu porque ele esqueceu a porta aberta, o encanador não tinha ido ao andar deles de novo para ver o problema da água quente e tudo porque ela não deixou o pedido na portaria. Ela queria ter um filho, ele tinha medo de ser pai tão cedo. E depois se amaram. Um sentimento tão grande e profundo que parecia pequeno para as paredes fracas do apartamento de apenas três cômodos. Todavia, não sufocava, não emergia, permanecia fluindo como o vento, perdido nas curvas dela, no sorriso dele.
- Acordada a essa hora?
No susto, o corpinho quase despencou pelo janelão da sala. Ainda com a expressão amassada e linhas do travesseiro atravessando o rosto e o peito, ele estava ali, parado a olhar para ela, o braço apoiado acima da cabeça, na coluna que dividia cozinha e balcão do sofá e do resto, uma caneca de café quente na outra e o mesmo sorriso de moleque que a encantava em todas as vezes.
- Acho que não dormi.
Sorrindo, virou-se para ele, os cotovelos encaixados no peitoril de mármore. Era assim que sabia que o encantava: Apenas uma camisa de flanela abotoada de forma errada e qualquer roupa íntima que fosse fácil de tirar.
- Minha intenção era te cansar e não te entediar até a morte a ponto de tirar seu sono.
- Ainda dá tempo.
- Mas eu tenho que trabalhar.
- Como se você precisasse de mais do que dez minutos.
Absolutamente desafiado, ele balançou a cabeça de um lado a outro, mantendo aquele rasgo nos lábios que indicavam perigo, bem puxado para a direita. Nessas horas, se lembrava do passado e de todas as coisas ditas e não ditas, viajou nas pernas que se esbarravam uma na outra, nas mechas escuras caindo sobre o tecido ralo de sua própria camisa velha, na renda que escapava entre os botões e suspirou:
- Acho que meu chefe não vai ligar se eu me atrasar por meia ou uma hora...
Espelho.
Bato a porta do lado direito da vida, enquanto você escuta o barulho no outro canto da sala, num lugar aberto, o lado esquerdo da vida. Quando você saiu para caminhar, eu senti a brisa suave do outono passado, o aroma delicado de folhas secas destruindo as pequenas veias de minhas narinas. E enquanto eu escovava os dentes, você sentia o sabor estranho de menta espumada, de um jeito tão forte, que era como se existissem vários tridents na boca. Não, ninguém está maluco aqui, isso é apenas empatia. Sua mente está comigo, e eu uso ela como quiser, assim como você molda o meu corpo a seu bel-prazer. Assim foi, durante todo o dia, a tarde, a noite. Se um usasse um perfume, o outro sentia o cheiro. Se o outro tomasse banho, sentia a mão ensaboada do outro a lhe deslizar o corpo, e quando o frio bateu, os corpos inanimados padeciam, mas os corações teimavam em se aquecer. Até que num aneurisma temporal, eis que nossos personagens estranhos decidiram olhar no espelho.
Se viram. Sorriram. E dormiram.
Se viram. Sorriram. E dormiram.
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