Bato a porta do lado direito da vida, enquanto você escuta o barulho no outro canto da sala, num lugar aberto, o lado esquerdo da vida. Quando você saiu para caminhar, eu senti a brisa suave do outono passado, o aroma delicado de folhas secas destruindo as pequenas veias de minhas narinas. E enquanto eu escovava os dentes, você sentia o sabor estranho de menta espumada, de um jeito tão forte, que era como se existissem vários tridents na boca. Não, ninguém está maluco aqui, isso é apenas empatia. Sua mente está comigo, e eu uso ela como quiser, assim como você molda o meu corpo a seu bel-prazer. Assim foi, durante todo o dia, a tarde, a noite. Se um usasse um perfume, o outro sentia o cheiro. Se o outro tomasse banho, sentia a mão ensaboada do outro a lhe deslizar o corpo, e quando o frio bateu, os corpos inanimados padeciam, mas os corações teimavam em se aquecer. Até que num aneurisma temporal, eis que nossos personagens estranhos decidiram olhar no espelho.
Se viram. Sorriram. E dormiram.
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