E provavelmente você veio de outro mundo, porque nada do que diz parece fazer sentido.
Você é tão estranha, que quando entra na passarela, não é música que se ouve, e sim barulhos eletrônicos, zipzaps voando para todos os lados, parece que estática toma conta do lugar. Mas não dura muito e a música já volta a tocar. A questão é: Sério que alguém consegue prestar atenção em alguma música com você lá?
Remexe seus ombros de uma forma engraçada, tal como uma lagarta se liberta do casulo. Sua bunda requebra eloquentemente, descobrindo novas formas de vida na pista de dança. O ambiente é fechado, mas todos avistam o céu, sentem a brisa do mar e cheiram aquele aroma refrescante de orvalho na floresta. Não, não é sobre drogas que me refiro, e sim desse seu poder oculto de trazer vida aos ambientes mais inóspitos do planeta.
Com seu olhar sereno, ajeita os óculos e lança aquele laço giratório em todos ali presentes. Ainda toca alguma música no recinto? Ninguém sabe dizer, só que todos dançam, hipnotizados. Essa sua beleza exótica, em nada lembra os artistas da famigerada Hollywood. Na verdade, sua beleza é tão humana que parece extraterrestre. Contornos normais, curvas acentuadas, defeitos existentes, mas imperceptíveis ao olho nu da espécie-mor que transita em vaga existência térrea.
Sua boca não se move, exceto quando passa a língua pelos lábios. Acredito que toda vez que faz isso, várias fadas no mundo morrem. E se der na telha de botar a mão na cintura e apontar para alguma direção, ai acredito que todas as fadas morrem. O mais engraçado é que seu erotismo é tão cruel mas tão singelo, que nenhum homem tem coragem de lhe abordar, mas todos provavelmente desejaram estar em sua cama no final de sua apresentação.
Sua roupa era simples, mas reluzia sob os holofotes fluorescentes daquela espelunca que fedia até você entrar, e agora cheira a paz. Paz no meio do caos, um local outrora habitado por copos velhos e voadores de whisky e que agora é lar de bonitos copos de cuba libre. Mas ela não precisa disso para ficar embriagada. Ela DEIXA os outros embriagados, e é isso que a diverte. Ali, anos parecem dias, e todos ao redor desse astro-rei envelhecem, menos a própria, pois se alimenta da sua própria luz.
E talvez, cansada de agraciar a vida dos presentes com aquele espetáculo estranho que desenhou em papel crepom, ela começa a deixar o local. Rodeado de curiosos, ela simplesmente some no meio da multidão. O ambiente escurece novamente. O cheiro volta a ser pútrido. A felicidade some do lugar. E no fundo, o jukebox cospe fora aquele LP antigo do The Cure que ninguém reparara que tocava para, logo após, começar a tocar aquela velha merda do Metallica. E se copos, garrafas e suores misturados de sangue voltam a voar pelo local, pelo menos todos ali presentes sabem que, no fundo, a garota perfeita nunca pertenceu aquele lugar, mas aquele lugar jamais seria o mesmo sem aquela garota perfeita, extraterrestre mas simplesmente, humana.
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