Eram 23:48. O relógio do celular começava a embaçar, mas não era o bloqueio de tela, e sim os olhos implorando para serem fechados. Exausto, o dono daquele corpo tentava avidamente ficar acordado sob a premissa de que aquilo o faria bem, mesmo tendo que acordar as 6 em ponto, como de costume. Sua arma? Um teclado. Velho, empoeirado, recheado de cinzas grotescas de cigarros fumados a meses atrás. Seu combustível? Uma caneca de chá, vermelha, com alguns sinais de velhice e grande carga espiritual contida. Ah, o chá era de maçã. Estava a postos, o assunto estava na cabeça, mas não conseguia escrever (e ele queria escrever, ele precisava regurgitar toda cólera, tristeza, solidão possível). Mas... nah, não era possível. Era só mais um de seus inúmeros bloqueios temporais. Solitário bloqueio.
Envolta de um cenário até digamos sóbrio de seu quarto, a peça com menos luz ali era ele próprio. Sem muitos sentidos para sentir, digamos que nosso anti-herói apenas subexistia num contexto próprio sem muitas explicações para dar. Amava seu próprio umbigo, acariciava seu próprio ego, estava apenas sendo ele mesmo. Mas o sentido pr'aquela vida? Longe de existir.
E foi num motim armado por suas pálpebras, pesadas do sono, que ele piscou. Irritado com seu sono oscilante, decidiu pegar aquela velha carteira de cigarros e acender com seu zippo, dado a tanto por um velho amigo boêmio, um cigarro velho. O gosto do fumo desperta, apesar de cigarros geralmente abaixarem a pressão. E, num soluço inesperado, eis que surge atrás dele uma mulher. Tinha estatura mediana, olhos brilhantes feito a constelação de peixes e cabelos negros feito o espaço no momento da concepção do universo.
É, assim, sem nenhuma explicação.
O rapaz obviamente não esperava visita. Não sabia daonde aquela mulher surgira. Esfregou os olhos, coçou-os repetidamente. Ela continuava ali. Vestida 100% de branco, tal como uma entidade divina. Aquela figura feminina balançava o rosto levemente para os lados, como forma de resposta para aquele desespero do rapaz. Um sorriso de canto da boca para expressar que havia entendido, porém o riso era mais por graça mesmo. Era efêmero, mas real. E depois de se beliscar algumas vezes, se deu conta de que, ok, estava acontecendo. E aí vieram as perguntas.
- Quem é você? Daonde você é? O que faz aqui? Quais suas intenções? É uma ladra?
Não obteve respostas, o que o deixou mais frustrado. No embalo de seu nervosismo, percebera que deixou cair o cigarro no chão. Este por sinal, apagou deixando um enorme rastro de cinzas no assoalho. Pegou então outro cigarro, acendeu em forma de protesto velado e ficou ali, fitando a formosa moça inexistente.
- Eu sou a personificação carnal de sua criatividade.
A tragada engasgou, a tosse foi inevitável. Provavelmente haviam gotas de suor em sua testa, mas ele não saberia dizer se é verdade.
- Espera, como assim de minha criatividade? Está louca? Primeiro você aparece aqui no meu quarto parecendo um pai-de-santo, agora vem com isso? Mas que porra é essa?
Enquanto ele esbravejava um monte de frases que exploravam a incredulidade de sua alma, ela o observava por onde ele andasse. Verificou as portas, estas trancadas. As janelas ainda tinham grade. Não havia sinais de arrombamento. Por fim, decidiu que iria levar na brincadeira aquilo tudo.
- Ok, diga-me então, ó sábia entidade que habita meu ser, o que posso fazer por vossa humilde pessoa?
Franzindo a testa num sinal de total descontentamento, aquele "ser" se aproximou e deu-lhe um tapa (e que tapa!). Ecoou pela casa. Atônito, ele gritou - POR QUÊ???? -
A resposta veio logo em seguida:
- Isso é para você deixar de ser otário.
...
Ele riu. A mente dele aceitara que nada fazia mais sentido. Mas afinal, o que fazia sentido no mundo errático desse rapaz? Nada. Decidiu então ouvir de verdade o que havia por ser dito.
- Estou aqui todas as vezes que senta na frente de seu computador para escrever. Na verdade, estive aqui desde que pegou o seu caderninho da Disney e escreveu seu primeiro poema, lá no jardim de infância. Sempre teve habilidade mais do que suficiente para bordar com as palavras. Porém ultimamente sinto que você anda bucólico demais, triste demais, aborrecido demais. Tudo demais, menos o de menos.
Nosso herói vivia aqui algo que jamais havia vivido, mas também pudera. Não é todo mundo que recebe a visita personificada de algum estado espírito seu. Passou então a olhar para os cantos da sala, a chutar o chão, a morder os lábios. Estava nervoso, mas pensativo. Com medo, mas tranquilo. Se nada mais fazia sentido, então nem seu corpo reagia mais a aquilo tudo.
Ela prosseguiu.
- Estou aqui pois acho que seu talento é desperdiçado. Ou vai querer viver sua vida inteira falando das dores de cotovelo, dos problemas da sua vida? Acorda cara, a vida está logo ali, beijando o seu rabo enquanto o inverso é que deveria estar acontecendo.
Logo após falar, sua fisionomia passou de séria para feliz. E aquele sorriso parecia um pôr do sol de tão bem estruturado.
Respirando de forma ofegante, ele pensou em retrucar, mas as palavras não vinham. Sabia que estava certa. Sabia que há muitos dons seus que estão sendo totalmente desperdiçados apenas por preguiça de reconhecer que é bom neles. Libertando-se das amarras, decidiu perguntar:
- E o que eu devo fazer, afinal? Minha vida é muito sofrida e...
Ao passo que foi interrompido com uma simples resposta:
- Não faça, apenas sinta. Muito, pouco, bastante, em demasia, quase nada, um sopro. Mas sinta. Sinta o vento, a água, o quente e o frio. Sinta a música, a arte, sinta o beijo na sua pele. Sinta o aroma, sinta a queda de cabelos. Sinta dor, sinta ódio, mas sinta amor, sinta felicidade. Sinta o vazio, sinta ele se preencher. Sempre sinta, nunca fuja. É assim que vai saber o que tem que saber, e se é que deve saber o que deve ser dito, afinal, só sabemos o que queremos saber.
Talvez aqui ele tenha chorado um pouco, mas... ele não saberia dizer.
"Obrigado" disse ele.
"Por qual motivo agradece?" ela relutou.
"Por dar sentido a minha existência".
E de repente, o rapaz sumiu do cômodo. Ficara ali somente a menina, caída num sono profundo dentro de seu mágico blog. O que era reservado a partir dali? Só o homem de areia poderá dizer.
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