14/11/2018

Sorriso blasé.

Há algo de fascinante nas experiências que vivemos. Quanto mais aprendemos, mais nos tornamos cascudos, prontos para o próximo round. Temos isso em nós: a capacidade de nos adaptarmos feito camaleões, tornando nossa couraça sentimental (quase filosofal) mais forte. E vamos sorrindo, fingindo existir, fingindo que nem dói, mas como dói não é mesmo? Uma facada aqui, um tapinha ali, três socos seguidos de um gancho de direita e de repente a gente não sabe nem mais quem é.
E não sabemos mesmo.
Pois as porradas nos ensina a sermos duros, inclusive com nós mesmos. E aí cada sorriso se torna mais e mais falso, até que de repente você se torna apenas mais um fantasma na multidão, comprando acenos e fazendo escambo de gentilezas. Um teatro de marionetes onde o mais convincente vence. Virar adulto é tão blasé. E sutilmente a gente sente, até que não sente mais. Pois todo dia que passa, a gente joga uma pá de terra na nossa criança interior. Deveria ser um crime matar crianças assim.

05/11/2018

VIII: A mágica da bicicleta.

Relacionamentos geralmente duram tempo suficiente para lhes ensinar algo. 1 mês, 20 anos. Uma eternidade. Não importa a medida temporal, algum bem valioso você pode tirar do convívio romântico com alguém, mesmo que você não seja, de fato, romântico.
E nossa história não era exatamente romântica, vamos dizer assim. A gente começou a namorar por que eu disse sem querer "eu te amo". E quando eu falo sem querer, é literal. Você havia feito algo engraçado e eu disse essa frase meio que como um "caramba, eu gosto de vc!". Sei lá, você brilhou tanto os olhos, naquela altura a gente já estava juntos a o que, um mês? Curtindo, se divertindo... E eu gostava bastante de você, de verdade mesmo. Faz parte né? A gente as vezes só sente as coisas.
Divertida, engraçada, não dava pra brigar com você, pois sua cara de raiva era engraçada e eu ria. Aliás, sempre lembro do dia que você deu um chute de kung-fu quando me viu fumando, cumprindo a promessa de "se eu te ver fumando, senhor Fujarra, eu vou bater em você!". Foi tão surreal que minha reação foi de apenas rir.
Não tinha muito romance. Era tudo muito honesto, preto no branco, simples e direto. Quando foi pra transar pela primeira vez, a gente simplesmente conversou e fez. Quantos casais fazem isso? Quando aquela garota deu em cima de mim e eu estava bêbado demais para responder à altura, a gente simplesmente conversou e resolveu os problemas. Nem a nossa "música de casal" foi ao acaso, a gente simplesmente escolheu uma música do Jota Quest. E se tem um indício de que esse relacionamento não daria certo mesmo, é perceber que uma música do Jota Quest era a nossa música.
De fato, não deu certo: Viram você com outro na rua, me contaram. Esperavam de mim uma reação muito ruim, mas a verdade é que naquela altura do campeonato, ser passado pra trás não era nem de longe uma dor. Eu nem fiquei surpreso. Você viajou para longe, e quando voltou, terminamos. Nem um mês depois, você estava namorando com um carinha por quem você se apaixonou. Com quem você parecia realmente apaixonada. Com quem andava de mãos dadas. Nós não éramos muito assim, né?
Você, de longe, foi a pessoa mais fácil de perdoar na minha vida. Eu jamais teria raiva de alguém por ser feliz com alguém que a faz mais feliz. Ao associar que talvez ele fosse o tal carinha de quem me alertaram, ficou mais fácil ainda. E a vida seguiu sem nenhum morto nem ferido. Apenas um contrato rasgado e um desejo de boa sorte.
Mas ficaram boas memórias: Você vindo pegar goiaba no meu quintal, a gente jogando The King of Fighters, o quindão que nunca aconteceu e a famosa piada da bicicleta que só eu e você entendemos e damos risada, mesmo que a gente saiba que ela é a pior piada da humanidade.
Ah, mas eu falava sobre aprender algo com os relacionamentos, né? O que você poderia ter me ensinado, ó jovem oriental?
Você me ensinou a não ligar mais.

29/10/2018

28/10/2018.

A tragédia foi consumada. E o povo aplaudiu.
Teve tiro pro alto. Teve fogos. Teve tanque nas ruas.
Teve pessoas batendo continência para a intolerância.
E teve gente que ignorou essa mesma intolerância.
Houve gente que acreditasse por cansaço do que está aí.
E tem também aqueles que querem mesmo mudar isso daí.
Mas há uma parcela de imbecis que só querem brincar.
Se orgulhar.
De votar, como piada, na maior piada que esse país já viu.
Uma piada de mau gosto, cruel, que não liga para meus direitos.
Não liga para os seus direitos.
Ele liga pra bala. Pra agrotóxico. Para Deus. O Deus dele.
Não sabe falar, não sabe agir.
E quem elegeu ele? O povo.
O bravo povo brasileiro, cansado, chateado.
Mas também o povo imbecil, que só quer ver o circo pegar fogo.
Pelos bons costumes.
E pelo respeito à família tradicional brasileira.
Eu digo: Elegemos o primeiro meme como presidente do Brasil.
Que o verdadeiro Deus nos ajude.
Talkey?

19/10/2018

Fotos.

Retratos de uma obsessão, espelhos da intimação.
Falsos profetas estampados em papel brilhoso.
Incríveis imagens que falam sem saber.
Que ditam regras que ninguém consegue entender.

Festas, nascimentos, enterros, amores.
Problemas, notícias, utopias, decepções.
Temas variados que julgam nossa vida.
Momentos de uma fase proibida.

Paleolítica tristeza de nostalgia seca.
Podres poderes que despertam em minh'alma.
Índices elevados de procrastinação.
Um beijo errado, olha que situação!

Eu queria tocar novamente o seu rosto.
Dizer que és minha mulher amada.
Mas as fotos estão ali por mero dissabor.
Pra desencadearem em meu corpo um imenso torpor.

06/10/2018

Daniel na Cova dos Leões.

Eu juro por Deus que não faço ideia do porque topei sair. É diferente de quando a gente se esbarra sem querer, sem saber. Não, dessa vez eu estava totalmente ciente de que eu a encontraria ali, bela em todos os sorrisos. Já faz um bom tempo, mas eu simplesmente nunca vou parar de sentir muito. A gente finge pros outros que está tudo bem, não dá nada não, eu sou adulto. Mas basta você passar pela mesa e cumprimentar a todos menos a mim, nem um oi, pra eu perceber o tamanho do rombo que eu deixei. Claro, não que eu ache que você realmente se importa hoje. Talvez você mal lembre. Talvez você lembre muito. Não importa, qualquer cenário possível é suficientemente sufocante, pois eu realmente fui canalha e até certo ponto, acredito que mereço. Foi então um exercício de masoquismo? Jamais. Acho que eu quis ir pois, apesar de estar no meio de tantos leões, que me olhavam confusos sem entender minha presença, eu precisava ver você bem, feliz, rindo. E foi bom. Te ouvir cantar sempre foi uma dádiva, uma das coisas que eu mais gostei em você e que como muitas coisas, pouco apreciei enquanto dividíamos o mesmo quarto. Mesmo quando tocou Creep, música que eu exaustivamente executei após o fim do nosso túnel, eu permaneci ali, deixando ecoar em meu cérebro todas as notas. Sempre tive esse grave defeito de nunca demonstrar que está doendo, e mesmo sob olhares céticos e risos falsos, eu fui lá pra te ouvir. Afinal de contas, não é como se meus olhos conseguissem te fitar por muito tempo. Pelo menos os ouvidos não conseguem fugir. Após 6 aniversários frustrantes e sofridos, enfim eu comemorei um aniversário decentemente. Pelo menos dessa vez eu escolhi os leões que queria enfrentar.

I never meant to do you wrong.

03/10/2018

VII: Falha.

Eu estava quebrado, cansado, em conflito comigo mesmo. Não sei se, de fato, existia de fato um fato. Um eu. Eu estava cansado, decepcionado com o rumo que minha vida levava. Não por menos, comecei a tomar uma infinidade de decisões erradas, pautadas no puro foda-se. Jamais pensava no amanhã, em consequências, eu só queria sobreviver a mais um porre e a mais um maço de cigarros, estes os únicos amigos de verdade em meio a uma infinita multidão de rostos conhecidos que teimavam em me acenar. Não lembro bem o que aconteceu, naquela época a minha vida era uma nuvem cinza de informações incontroladas. Veja bem: Eu tinha rancor pra mais de metro em meu coração. Com certeza absoluta eu não estava preparado para estar com alguém, eu queria era estar sozinho. Só que você reapareceu ali, tentando me reconquistar. Oras, mas você havia traído minha confiança antes, não é mesmo? Sim, você tinha. Mas a gente fingia que nada tinha acontecido, afinal de contas a gente só estava se divertindo, não é mesmo? Sim, a gente estava se divertindo. A gente tinha até um trato: Não vamos acelerar as coisas. Não é mesmo?
Não.
Eu sou movido a impulsos, e em grande parte das vezes eu tomo decisões erradas por conta do momento. Nunca liguei para ser assim na verdade, pois aprendi bastante com meus erros. O problema é que eu cometi um grande erro ao te dar esperanças. Você estava ok, era cômodo estar comigo sem compromisso. Então por qual motivo eu quis fazer as coisas ficarem sérias?
Por puro despreparo emocional.
Eu estava quebrado, cansado, em conflito comigo mesmo. E você não estava nem ai. Afinal de contas, geralmente a gente pensa que somos capazes de curar a pessoa amada em 3 dias. E olha, se tem uma coisa que eu tenho certeza é de que você me amava de verdade. O problema é que eu não. E nem tinha a ver com você, já que você era uma pessoa maravilhosa comigo em grande parte do tempo. O problema estava lá no passado: Eu e meus conflitos não me permitiam admitir perdões. Com isso, o nosso segundo round durou pouco tempo, tanto quanto o primeiro. Dessa vez os traumas foram maiores e as feridas mais profundas. Foram eras até um novo perdão de ambos os lados. Foram eras e é surpreendente que ainda tenhamos algum grau de amizade, por mais ínfimo que seja. Você errou em trair meu coração no passado. Eu errei em trair seu coração depois.
Ninguém saiu vencedor no fim das contas.

26/09/2018

Ondulado.

Ondulados, perfeitos e sem nenhuma sincronia. Era belo e contrastava perfeitamente com aquele rosto pueril encaixado num formoso corpo exuberante de mulher. Morena, ela transbordava o amor que eu precisava.
Mas que eu não era dono.
Seus lábios não me beijam, seus braços não me encontram, seu perfeito nariz jamais encosta no meu para brincarmos de pinguim. Mas somos enamorados, desejosos e perfeitos enquanto juntos. Só que não há um nós enquanto houverem tantos eles e elas.
E são muitos indivíduos envolvidos, geralmente.
Há uma certa ironia nisso tudo, vamos ser honestos. Já tivemos muitas chance, mas poucas realmente foram consideradas antes de darmos nossos passos para desistirmos.
Somos então eternos apaixonados?
Provavelmente sim. É igual franzir a testa quando se está com dor de cabeça: Você age instintivamente para tentar solucionar o problema, mas aquilo vai continuar latejando dentro de si. Porém não há aspirina para certos amores.
E sinceramente? Eu descartaria se existisse tal remédio.

18/08/2018

Maldita.

Respire apenas essa fuligem vermelha que paira no ar, pare por um instante e sinta a presença de todos que estão perto de ti. A temperatura quente arde de raiva no mar vermelho deste ódio que emana de todos os seres. Como se fodessemos a noite inteira e suássemos luxúria em pele rubra. Como se nossa tola existência trouxesse paz a almas já condenadas. Besteira!
Agora treine, viva a geração do puro ódio, a geração que bate palmas para a dor e que vangloria a tristeza alheia. Malditos sejam todos aqueles que se opõem ao inexistente ser diferente. Tudo reunindo um nada, uma farsa forjada em nossas mentes decrépitas, a mais pura inveja que arde como chamas que nunca apagam. Inveja, ódio, cólera, dor. Sentimentos vermelhos, sentimentos simplesmente malditos.

Caia na real.

Você quer explodir? Então exploda! Caia no poço, se foda lá.  Mas não foda quem te quer feliz. Não impeça a vida de correr pelo fluxo dela meu camarada. A bagunça é sua, limpe então sua sujeira, cheire esse seu ódio como se fosse um demônio caído. Afinal de contas, brincar de viver é como ser criança cega no meio de crianças que enxergam: Não espere pela piedade delas. Então sinta o inanimado, tema o inexplicável, o louvável nada. Respire fundo e caia na real. Caia em qualquer lugar. E se conseguir remover este sentimento de ti, caia e descanse em paz.

VI: Wrong.

Como que nos conhecemos? Eu juro, é uma incógnita na minha cabeça. Não foi amor à primeira vista, mal sei de onde você saiu, você era naquela época menos que uma conhecida. Eu era do grupo dos garotos que acabaram de se tornar adultos, e você fazia parte das garotas que acabaram de se tornar adolescentes. Falando assim, soa muito errado hoje em dia, mas naquela época, eu acho que o segundo grupo era mais adulto que o primeiro. E bom, eu era amigo dos seus amigos e vice-versa, então a gente se viu algumas vezes... ah, não vou ficar tentando lembrar como nos conhecemos não. O que eu lembro de verdade é que você ficava com meu amigo e eu, bem. Eu era afim da sua amiga  e ela não me dava a menor bola. E mais uma vez, eu não lembro como foi que chegamos ao ponto em que "ah beleza vamos nos beijar aqui rapidão". Mas quando chegamos a esse ponto, ai sim eu passei a gravar os nossos momentos, os nossos beijos, nossas escapadas. Mas vale lembrar: eu ainda era o garoto de 19 anos e você a garota de 14 anos. E seu pai, bem. Ele pensava que nem eu penso hoje em dia: quem esse garoto pensa que é pra namorar a minha filha menor de idade? Bom, não havia nem conversa com o cara né, ele simplesmente não queria a gente juntos. Não queria me conhecer, não queria conversar pra ver que eu era um garoto trabalhador, que não tinha coragem nem de passar a mão na bunda da filha dele por respeito a ela, que sustentava a casa sozinho. Eu queria ter falado com ele, eu achei que eu poderia argumentar mas né, não rolou. E aí aquele nosso breve momento de namoro em que nos vimos provavelmente umas 6 vezes durante o tempo que durou, acabou, afinal de contas namorar escondido parece muito gostoso na ficção, mas é uma bosta na vida real. E bem, não sei se isso foi um ingrediente a mais, mas eu senti como se fosse uma facada no meu peito. Bom, pra começo de conversa, esse blog só existe por conta daquela época, já que eu queria falar aqui da minha enorme frustração ao ter te perdido. Tudo que eu queria é que a gente voltasse, eu sonhava (de verdade) com o dia em que a gente iria estar juntos, com seus pais me aceitando e rindo da época em que isso tudo aconteceu. Dormia agarrado com o travesseiro chorando, via você em todos os lugares, evitava passar na frente do colégio onde você trabalhava, que para meu infortúnio ficava na rua de trás da loja onde eu trabalhava. Foram várias as vezes que te vi passar ali na frente. Foram várias as vezes que te vi na padaria comendo besteiras. Foram várias as vezes que te vi e te desejei.

Pois bem.

Seis meses se passaram desde que terminamos, e durante esse tempo você tentava me convencer de que gostava de mim, mas que a gente devia se esquecer já que era muito errado, e não foi raro passarmos às madrugadas conversando pelo celular discutindo sobre isso. Cara, só de lembrar esse período que ficamos separados, eu lembro do total desespero e angústia que eu sentia. Era sufocante, e quando eu sabia que você tinha ficado com outro cara eu ficava mais inconsolável ainda. "Ó vida, porquê fazes isso comigo?".

Mas teve uma segunda chance.

E eu agarrei aquela chance com unhas, dentes, braços... eu agarrei com o corpo todo. Aí inauguramos a segunda parte da nossa história: um ano mais velhos, os mesmos problemas e novas soluções. Começamos a nos ver de madrugada, escapando dos holofotes que as pessoas jogaram em cima de nós. Consumamos amor, consumamos felicidade mesmo com rostos tremendo de frio. Naquela época eu enxergava aquilo não só como uma segunda chance, eu enxergava aquilo como a última chance. Cada beijo uma despedida, cada abraço um novo reencontro. Meus olhos brilhavam quando contava de você para os amigos, eu tinha real orgulho de estar com alguém que eu amava de verdade, a ponto de sentir ciúmes, o único relacionamento onde eu realmente senti ciúmes. Ciúmes. A gente brigava, mas só brigava por não sermos um casal normal. A gente chorava, mas só por ser impossível conversarmos pessoalmente que nem pessoas normais. Foi muito difícil: O nível de dificuldade para ficarmos juntos era contraponto para justificar o nível de amor que sentíamos. Mas vale lembrar: Você tinha 15 anos e eu 20. E de repente você simplesmente aloprou. Sei lá se foi por conta das amizades ou se foi apenas por eu ser um pé no saco, mas a verdade é que você passou a fazer um monte de merda: fumar, beber, ficava junta de uma galera estranha demais. E foi no momento onde você começou a ter liberdade para sair, quando vislumbrei que a gente poderia ficar juntos como um casal mais normal, aconteceu algo muito legal: Fizemos seis meses de namoro, você foi para uma festa, fez todo tipo de besteira possível lá e eu, mesmo com raiva, tentei só conversar contigo para te falar que você estava seguindo um caminho errado. Logo eu, o santo imaculado certo de tudo. Você se emputeceu por nada e terminou comigo sem nenhum aviso prévio. Foi tipo "Terminamos tá? Não me procure mais, beijos."

E eu sofri. Mas sofri foi muito.

Durante anos (!) eu sofri. Primeiro pelo término, segundo por você logo após começar a namorar um cara moreno, bonito e forte, surfistinha playboy. Esse o seu pai deixava você ver e namorar. E você era cruel, não é mesmo? Tipo quando falou dos detalhes sórdidos das suas transas com ele para meu melhor amigo, só porque sabia que eu estava do lado dele lendo pelo MSN. Ou quando inventou aquela besteira de que eu estava te encarando na praça e fez a cabeça do seu então namorado vir me peitar querendo briga. Cara, eu sofri, eu sofri tanto que eu passei relacionamentos pensando em ti, sem achar em outros corpos o que achei contigo, sem equalizar com ninguém aquilo que tínhamos nivelado, e o pior é que aquele sentimento que me confortava enquanto juntos me sufocava enquanto separados, potencializado pela sua total falta de senso comigo, me maltratando à toa.

Foram quase quatro anos sofrendo por você.

E de repente, um dia você me procura lá no Facebook pra dizer que terminou com o cara. Disse que se arrependia das coisas que fez comigo, que sabia que tinha errado e que era jovem demais na época. Disse que havia sofrido também com nosso término e que tudo aquilo foi um teatro para algo maior. E que teatro foi esse? Simples. Na noite da festa você me traiu, não teve coragem de me contar e achou que seria melhor simplesmente me fazer te odiar. Bom, o tiro saiu pela culatra, né? Além de não te esquecer, eu não sentia qualquer raiva de ti, pelo contrário, sofria mais e mais por gostar de você. Mas foi naquele instante, naquele momento em que você confessou seus crimes que o espelho se quebrou na minha frente e o encanto se foi. Afinal, você provou para mim que eu era apenas um amor de verão, um carinha que você gostou por um tempo, mas que preferiu curtir sua jovialidade ao invés de ficar presa a um cara velho.

E sabe de uma coisa? Você estava certíssima.

Eu me sinto meio Tom numa vida em que você foi meio Summer, onde eu não percebi que eu era só uma bucha de canhão num universo muito maior que era o seu desenvolvimento como pessoa. Eu não duvido que você tenha gostado de mim, mas tenho certeza absoluta que foram sentimentos muito diferentes, o meu e o seu. Saber a verdade destroçou de vez meu coração, mas fez nascer um novo eu. Logo eu, que me afundei em um mar de vícios após nossa separação, passei a enfim encarar o mundo de uma nova forma. Me cobrei por ter sido ingênuo, me cobrei por ter sido infantil durante todo o tempo que passou, mas é fato: eu é quem não quis enxergar o que eu era pra ti.

E hoje?

Bom, hoje eu sei que você foi o meu primeiro amor verdadeiro. Doeu, feriu, mas também me fez genuinamente feliz. Só sou gratidão a isso. Mas tanto eu quanto você quem lê esse texto devem concordar com uma coisa: Foi muito errado tudo isso.

26/06/2018

Eu me programei a vida inteira pra que não doesse.
Mas é uma merda ter coração, ser gente.
Mesmo pra quem nunca foi gente pra gente.
Vá na paz, pai.
Ou quem quer que você tenha sido pra mim.

28/05/2018

Na Cara.

Uma noite qualquer.
Mas as sirenes soavam.
O ar estava pesado, era estranho.
Mas não era altitude, era greve.
Era falta de comida.
Era falta de vida na rua.
Com pouco dinheiro sorri.
Peguei minha lotada e segui.
Ao chegar na rua de casa, desci.
O carro marrom também desceu.
Virou a direita, eu fui reto.
Por algum motivo ele deu a volta.
Eu segui.
Ele me fechou.
Eu segui.
E um homem saiu do carro marrom.
Seu rosto era metálico, brilhava e podia me matar.
Era reluzente.
Eu parei.
Ele só queria o celular, tinha pressa.
Eu entreguei.
Sem uma única alteração no coração.
- Não olhe para trás, ele disse.
Eu já não iria olhar mesmo.
- Se olhar a placa você morre.
Grande merda.
Voltei a seguir meu caminho.
Sem celular.
Sem emoção.
Sem medo.
Sem nada.
O que diabos minha vida se tornou?
Que tipo de monstro me dominou?
Sei lá.
Só sei que segui.

02/05/2018

Fotografias.

Eram mais de 22h. Ela pelava em febre, uma febre inexplicável. Não havia saído na chuva, nem deitado na frente do ventilador após um banho quente, nem tampouco qualquer outra coisa que permeia o folclore para explicar uma gripe ou algo assim. Além do mais, não parecia uma febre comum: Via-se em seus olhos pequenos surtos de delírio, um gosto amargo em sua boca seria a única coisa que explicaria aquele olhar. Mas ele estava lá, mesmo decidido a dar um fim em tudo, ele queria estar lá com ela, pois não é como se não a amasse. Na verdade ele a amava tanto, que queria ir embora pra não ser mais um estorvo na vida dela.
Mas não havia o que se considerar aqui: Afinal de contas ambos se amavam. Os rostos inchados se espelhavam, era apenas claro e escuridão que definia seus belos contornos tristes. Lágrimas espalhavam-se por todo o quarto: Havia lenços, camisas e braços molhados, mãos lubrificadas com tanto líquido salgado que a qualquer momento, poderiam ressecar. Ela era tão linda, tão bela e exuberante, mas simplesmente não dava certo. "Por quê eu fiz isso?" ele se perguntava. Mas não haviam perguntas, lembra-se? Era apenas uma definição feia, e como toda decisão difícil, era difícil de ser concretizada. Ele tentou, ele teimou, ele suplicou aos deuses que tivesse forças para explicar o inexplicável.
Amor. Como explicar este sentimento único e louco que nos faz querer desistir da pessoa amada por saber que vai atrapalhar ela? Como explicar essa loucura única de querer estar de corpo e alma com alguém? Não se explica, se consuma. E se consome. E se deixa consumir. E você é consumido. E você cai. Cai, sem forças para explicar que você ama, e isso é loucura, pura e sórdida do destino, aprontar tamanha canalhice com alguém tão acostumado a sofrer.
Foi uma noite longa, a febre teimava em não baixar, mas durante a manhã ela cessou. Era difícil olhar para aquele rostinho e não fraquejar, mas você tem que aguentar, ser sangue frio num momento como esse. Você ficou aqui pois queria apenas ajudar, não é porque a ama.
Quem você quer enganar? Você a ama, você a quer...
Não! É o correto partir.

Mas na altura de seus olhos, haviam porta-retratos com fotos do casal do ano. Eles eram lindos, tinham um sorriso belo e vontade de viver para sempre juntos. Uma pena que "sempre" é um conceito tão efêmero.

07/04/2018

Viciado em se fazer mal.

Acólito da tristeza, servo da aspirina.
Um nobre ato de boa ventura engolido com água morna.
No céu da boca um universo infinito de sobremesas.
Um universo infinito de facas sobre a mesa.
E sobre a mesa nossas sobremesas.

Há quem diga que o acaso acerta nos erros.
Mas o que são erros, arautos do infortúnio?
Que erros? Elucido a mente neste caso.
Parábolas queimadas na fogueira amanhã
Hoje sobrou pizza na geladeira.

Mas afinal de contas, qual o limite do humor?
O que faz mal para garganta, isso está na TV?
A publicidade mente, talvez acende.
Ascende para a luz orgânica.
Alface hidropônica tem agrotóxicos, fique alerta.

Estou no limite da insanidade.
Em versos errados, escrevo uma história de amor.
Viciado em se fazer mal, eu estou um caco.
Não vejo a hora de entregar meu TCC
E ser diplomado para viver a vida adulta em paz.

14/03/2018

V: Lapso.

Um instante. Um momento. Uma tentativa frustrada e uma amizade perdida. É o que descreve nossa rápida história, menina do mar. O curioso aqui é que tudo começou dentro de uma lan house, lugar onde várias pessoas que seriam muito mais importantes para mim no futuro trabalhavam. É quase um dejavú me transportar para aquelas memórias e lembrar que estive tão perto de várias felicidades que viria a ter. Mas hoje a história não é sobre o depois, é sobre o antes. E você foi um grande passo atrás tentando dar um passo a frente, não concorda? Não sei. Talvez você nem lembre que tenhamos nos apaixonado, talvez você nem tenha se apaixonado, afinal de contas que amigo fala do nada que quer namorar contigo? Sem pedir um beijo, mandar uma carta, falar alguma coisa. Foi na lata: Vamos namorar? E você aceitou, a maior surpresa da minha vida até então! Como pode né, a minha melhor amiga agora namorada.
Poisé, um mês depois fomos cada um pra um lado, você mal olhou pra minha cara desde então, e só sobraram rusgas, boatos mentirosos e falsas acusações. É curioso notar que desde essa época as pessoas já inventavam umas histórias muito loucas sobre mim e sobre minha vida, ainda bem que Deus é top e tudo se solucionou.
Não sem perder sua amizade, mas a vida tem dessas coisas não é mesmo? Só sei que, se pudesse, eu continuaria apenas dançando pump contigo, indo a lan house usar o MSN e jogando Resident Evil 4 narrando pro outro por áudio. Foi tão efêmero, quase um instante, mas apesar da afobação eu guardo pra sempre a nossa amizade abrupta.

Meu Próprio Filme de Terror.

Lágrima feia, teima em cair. Teima em brotar. Teima teima sem parar.
Cai do céu, ao som do mar. Não sabe aonde chegar.

Não tem tristeza sóbria, nem felicidade coerente. É apenas a alma se lavando.
Soprando ventos de gentileza e angústia também. Soprando e andando.

Perfeita equalização de todos os sons que aqui já se fizeram presentes.
O uníssono que transmite o beijo alegre a todos que estão ausentes.

Platão não saberia descrever essa filosofia de vida.
Há boatos de que é vã entender sem ser sentida.

Ó mendiga vida que não faz sentido. Tristeza alegre, felicidade inconstante.
Abraços acalentados e foras açucarados. Eternidade presa num instante.

Mas me vê mais um copo ai, parceiro, hoje é o casamento do meu amor.
Meses que não a vejo, nem sei com quem vai casar. Meu pior filme de terror.

23/02/2018

Prisioneiro na Teia de Aranha.

Cantando, balançando, me debruçando, me debatendo, morrendo.
Desvanecendo.
Perdendo a cabeça, em mil giros incontáveis dentre as bobagens que te disse.
Que jamais te disse.
Tantas palavras perdidas, tanto tempo desperdiçado.
Ainda tão cobiçado.
Ainda tão amaldiçoado.
E mortal como és, o espírito apodrece na corrida pela paz.
Que não se faz. E ficou para trás.
Mas ai eu canto essas dores
Me balanço devagar
E me debruço na janela
Debatendo por dentro
E morrendo por fora.
Uma bolha de sabão onde resido.
Voa para a teia do seu coração.
Coração fechado para balanço,
Fechado para descanso.
Fechado.
E a aranha está lá, a espreita de meus sentimentos angustiantes
Degradantes
Infinitos e importantes
Me desculpe garota
Pois hoje eu vejo
Eu não queria te fazer nenhum mal
E nem dizer as coisas estúpidas que falei
Mas ao agir como um covarde
A porta se fechou.
E a aranha se aproximou.

03/02/2018

IV: Luxo e lixo.

Já havia maioridade aqui, o que não havia era experiência. Havia então um corpo adulto com uma cabeça juvenil, prostrada em confusões passadas e um relativo ódio pela calmaria que nunca existia. Era no fliperama que afundava as minhas mágoas: combos, danças, socos. Havia espaço para tudo lá, desde o rock até o samba raiz, eu não passava um final de semana sem encontrar os nerds prontos para a próxima rodada. Só que no meio dos nerds havia um casaco preto, desses bem chiques de artista, com uma calça estranha e uns cabelos vermelhos muito irados. A magreza chamava atenção não só minha, mas de todos ao redor. Você não parecia fazer parte daquilo. Você nem parecia real, pra começo de conversa. Era neve caindo em meio a carvão. E com sua raridade, vinha a cobiça de todos ao seu redor, mas não a minha. Na real, eu era indiferente: Odiava gente espalhafatosa e mais ainda, odiava as pessoas que circundavam gente assim. O curioso é que os sábados passavam e eu comecei a notar que tal como um ovo, seu interior era completamente diferente do exterior, e se o esteriótipo de fútil e infantil eram inevitáveis, seus gostos e desejos, não. Foi um processo lento, admito. Eu não acreditava muito nas suas palavras pois o trauma ainda estava vivo na minha cabeça, afinal de contas, como confiar em alguém? Já havia maioridade aqui, o que não havia era confiança. Havia então, uma pessoa confusa, amedrontada e em vias de se apaixonar de novo, olha que merda. Pronto, estava feito, eu decidi entrar por aquela porta proibida e dar uma chance para mim mesmo. O ponto de encontro falhou, mas de um ponto ao outro eu corri, corri e te achei. Achei e não soltei naquele dia. E por mais alguns dias, eu não te soltei. Eu continuava a correr, mas era para te ver. Eu corria, pois te queria. Queria com força mesmo. Num dia após alguns meses, fiz uma caixinha cheia de lembrancinhas para você: Um porta-retrato, uma camisa personalizada, CD da sua banda preferida, enfim... Te entreguei num dia chuvoso, morrendo de febre, e só o fiz para te ver feliz. Eu era assim, empolgado, um pouco dramalhão, mas completamente apaixonado, sem pensar no depois. Me sacrificava por sorrisos. E nesse dia, eu só recebi um breve sorriso amarelo, que eu jamais esquecerei.
Alguns dias depois você terminou comigo, dizendo que tinha beijado outro cara.
"Eu sinto muito, eu não queria."
Mais alguns dias depois, você já estava namorando com ele.
"Uma coisa não teve a ver com a outra."
No seu MSN, a foto do cara bonito, bem arrumado, o maior roqueiro do bairro.
"Ele quem me agarrou, eu nem achava ele bonito."

Bom, como eu dizia, já havia maioridade aqui, o que não havia... ah, não havia era sorte mesmo.

17/01/2018

Equilíbrio distante.

Tão inconstante quanto ferir o céu com faca velha é tentar atingir as nuvens com mãos nuas. É não fazer sentido nenhum ao olhar os bancos de madeira envernizados e não ver ninguém sentado neles. Há beleza no caos. Há beleza na felicidade também. Há beleza em todos os lugares, mesmo que tudo seja feio, afinal, a feiura tem sua beleza. E como é feio sentir raiva, não é mesmo? Ter esse sentimento aprisionado em peito fraco e explodir como fruta podre em cesto de cetim. Sujar as mesmas mãos nuas com sangue falso, talvez anilina vermelha. E seus olhos esbugalham, sua cara enrijece, sua boca treme. É o fim do início e o início de um novo fim, meus camaradas. Mas onde está o marco zero disso tudo? Está na boca do povo, que brada sem retumbância mentiras inexistentes? Ou será que a vida é um grande palco e a cortina são os problemas? Um nariz constipado é problemático, mas ainda sim é um nariz. Dentes careados ainda são dentes. Há beleza em tudo, e tudo é um grande nada. E o que é vida então, senão um grande conglomerado de incertezas, sentimentos inacabados e culpas estarrecidas, não é mesmo? Na busca por um equilíbrio distante, você aprende que nem tudo é como deve ser, nem mesmo a felicidade. O que temos além dos problemas são as soluções, e a solução de tudo é você mesmo, não os outros. Essa é a grande paz.