Eram três da manhã e eu só pensava em dormir. De um lado para o outro, em todas as posições possíveis, talvez até de cabeça para baixo. Mas não, o sono não vinha e eu decidi me render e passar a noite em claro.
Um copo de leite, um copo de café e um copo de whisky. Todo mundo tem seus rituais estranhos, não é?
Dei três passos e já estava na sala novamente. A preguiça de achar o controle da TV era tanta que me contentei apenas com aquele LM velho que ironicamente estava perto do controle. Agora eu tinha o corujão, uma carteira com três cigarros velhos e um copo já pela metade de whisky paraguaio.
Contei até três e dei uma tragada. Era a primeira tragada em três meses, e tinha um gosto horrível, uma mistura de areia com mofo que quase transformou meus pulmões em saco de pancadas. Mas não bastava, e eu precisava me certificar que parar de fumar havia sido a melhor decisão da minha vida mas após a terceira tragada eu já estava intimamente ligado ao meu velho amor, o único que me entendia, o único que me satisfazia, o único que me completava. E antes que eu terminasse com ele, eu já entrava num dilema sobre o vício, as consequências maléficas, os pulmões dissecados na embalagem do cigarro e... ah, outra tragada.
Era o mesmo sabor pútrido, os mesmos desenhos da fumaça no ar e aquela sensação banal de estar no topo do mundo, ditando as regras e sendo o que eu bem quisesse ser. Até que veio o sol, se esgueirando entre as pequenas brechas da janela na minha sala, me fazendo cair na real que eu havia apagado num sono que não encontrava há meses.
Esse era eu, entregue novamente ao vício, ao sono e a angústia de falhar miseravelmente, perdido novamente naquelas cinzas que em breve, me reduziriam também a cinzas.
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