São 10:30AM. Se aproxima na esquina Catherine. Moça esbelta, 1,72m de pura exuberância. Cabelos negros feito a noite que ela odeia. Transbordando sua jovialidade e simpatia rara, ela adentra na lanchonete. Comida simples, mas suficientemente saborosa para nossa amiga. Trajando um vestidinho retrô de listras vermelhas e brancas, mais parece uma bonequinha dos anos 60 do que uma atual rapariga cool. Senta-se em uma mesa com belos arranjos de flores, delicadas feito sua pele branca. Olha ao redor, e verifica que seus amigos de faculdade estão numa social, sorridentes e despreocupados, virando seus martinis e vodkas. Ela decide por bem não os atrapalhar, ela não estava nos seus melhores dias. Estava tendo pensamentos perturbadores, os quais ela já estava hesitando em controlar. Seu celular toca. Anthony, seu namorado, liga para desmarcar pela terceira vez no mês o compromisso na citada lanchonete. Ela, não se deixando abater, decide continuar ali e deixar seguir aquela manhã ensolarada que lhe cobre o rosto pela vidraça revestida de adesivo fumê. O garçon se aproxima. Um senhor de meia idade, com aparência vistosa e deveras simpático, de uma cordialidade rara hoje em dia.
- Seu pedido está pronto senhora. Seu suco de laranja com uma colher de açúcar, misturado com o próprio canudo, e seu sanduíche de atum com azeitonas pretas e alface crespa. No capricho!
- Mas... eu não havia pedido nada ainda!
- Era exatamente o que a senhora queria, não é?
Perplexa com a exatidão do garçon, ela se indaga: Como alguém poderia saber exatamente o que quero? Por um instante a tarde fica paralizada. Os sorrisos ficam estáticos, a localidade gira. Ela tem um pequeno choque, mas mantém a pose. Eis que o garçon lhe pergunta, com sua cordialidade já citada:
- Posso me sentar, senhora?
- Mas e seu trabalho? Não tem que atender tantas outras mesas?
- Não estou em meu expediente. Lhe atendi pois assim julguei ser necessário.
- Mas sou apenas mais uma nesse restaurante, e você nem me conhece! Além de que não tenho idade para ser sua paquera. Se é isso que pensas...
- Não é o caso senhora, além de que, se fosse, eu lhe diria assim que cheguei. Não tenho qualquer motivo para ser falso comigo mesmo, tampouco com as pessoas que me rodeiam. Aliás, eu lhe atendi pois era o que eu queria, e minha vontade sempre será saciada.
Nesse momento o senhor franze a testa e coça sua sobrancelha. Catherine se indaga, o senhor é tão firme em suas palavras, isso abala sua estrutura interior. Ela não entende direito aonde ele quer chegar, mas decide pagar para ver. Dá uma mordida discreta em seu sanduíche, ato minuciosamente reparado pelos olhos do garçon que nada deixa escapar.
- Morde tão delicadamente que eu seria capaz de dizer que tens medo de parecer esfomeada perto de todos.
- É errado ser educada enquanto se alimenta?
- Não. Errado é se limitar do prazer que matar a fome proporciona.
Ela pensa antes de falar alguma coisa com ele. Dá uma segunda mordida, essa bem mais generosa. Reparando na situação, o garçon sorri e fecha os olhos. Ela repara e também sorri, talvez por agradecimento, talvez por educação. Fato é que o fato de seu namorado ter furado com ela a incomoda, e isso a deixa bastante inquieta.
- Seu namorado não veio não é?
Pasma e com uma dose cavalar de medo, ela esbugalha seus delicados olhos e solta ferozmente:
- Você anda me espionando? O que quer de mim? Eu já lhe disse que não quero nada com homens velhos!
- Já disse uma vez, não irei repetir. (Nesse momento seu semblante fica sério). Para mim é fácil demais saber o que você quer de verdade, o que pensa e o que faz de verdade.
Catherine fica novamente estática. Não entende absolutamente nada do que aquele senhor grisalho lhe diz. O medo penetra seu ser. Sua boca fica um pouco trêmula, feito suas mãos finas.
Quem é você? - Indaga ela.
Sou sua consciência. - Diz com firmeza o garçon.
Agora nada mais fazia sentido. O que aquele senhor estava falando? Ele é louco? O que ele quer? Aonde quer chegar?
Ela ri histéricamente. Aperta o sanduíche que se espreme nas suas mãos já não tão delicadas como a alguns minutos atrás. Seus amigos olham, e acham estranho, mas não se metem, pois a diversão não poderia parar.
Num ato momentâneo e crédulo, ela solta:
- Adivinhe o que eu estou pensando então.
Ele não pensa duas vezes:
- Você já se imaginou na cama com aquele jovem esbelto da mesa 32 umas duas vezes, desde que me sentei. Notou que seu sanduíche está com sabor levemente agridoce e, nesse exato momento, está pensando no quanto é cafona o uniforme que estou trajando.
Ela engasga. Teme estar ficando louca. Começa a tocar o braço do garçon. Toca sua pele morena, e sente os longos pelos negros que ele possui. Se belisca, tenta entender o que é real ali. Nada fazia sentido!
- Escute, eu só vim conversar com você. Quero lhe dizer algumas coisas. Não tenha medo, é raro esse tipo de situação existir. Encare como uma conversa com seu subconsciente.
- Se o que você diz é verdade, então é uma conversa com meu subconsciente de fato.
Os dois riem, sincronizadamente, no mesmo tom e intensidade. O garçon respira, e lhe pergunta:
- Já pensou no quanto você sufoca seus desejos?
- Não. Eu faço isso com frequência?
- Sim. A todo o instante. Muitas pessoas percebem isso.
Ela sabia que era verdade.
- Olhe, não te julgo. A inteligência é o meio que encontramos para dominar nossos instintos mais ferozes.
- Realmente, se eu fizesse tudo que eu já quis...
- Exato. Não é errado sentir vontades que não pode cumprir. Errado é se achar errada por querer eles.
Ele complementa:
- Você ama seu namorado, mas tem desejos com seu amigo ali da outra mesa. Ele, por sua vez, ali é o mais alegre, contente por ter uma vida bem-sucedida não é? Não. Todas as noites chora pela morte de sua ex-noiva, fato que ele nunca quis contar para ninguém. Fazem 10 meses que ele não se relaciona com alguém.
- Que horror! E eu nutrindo desejos por ele e...
- É errado nutrir desejo por alguém que está frustrado pela morte da amada, mas é aceitável querer estando você feliz em seu relacionamento? O choque da notícia lhe fez pensar, mas a verdade é que é quase impossível conciliar o seu desejo sexual com as normas de conduta da civilização. É essa moral que a sufoca. Pensa sempre numa forma de botar em ação aquilo que nunca irá botar.
Já era certo que ele realmente era quem dizia ser, afinal, ninguém poderia falar com tanta exatidão e precisão aquilo que estava dentro de seu âmago. Ele continua:
- Você prega bons costumes, defende milhares de pensamentos que, na verdade, não os cumpriria ou não compartilha realmente. É hipócrita. Mas não se preocupe, todos são.
- Como você pode me chamar de hipócrita assim?
- Tenho autoridade para isso, afinal, eu estou dentro de você.
Ela engoliu a seco.
- Olha, estou confusa. Eu poderia ficar horas pensando sobre isso! Não é legal quando jogam na nossa cara assim, de uma vez, a nossa real personalidade.
- Ninguém está preparado para admitir muitas coisas. O certo é certo para você se assim for. Se for errado, será só para você. O dissernimento entre certo e errado deve ser feito apenas por ti, e mais ninguém. Compreende?
- Sim, isso parece óbvio.
- Mas quase ninguém vive dessa forma. É sempre mais importante manter aparências, preceitos...
- Então você quer dizer que sou suja, nojenta?
- Não. Você é humana e racional, e tal qual não consegue expor totalmente tudo que pensa. Isso até certo ponto é bom.
- Então não é bom expor demais o que penso, mas é errado manter todos os meus desejos dentro de mim?
- O errado é o que você enxerga errado.
Ela olha para trás e vê seus amigos novamente.
- Você queria estar ali, não é?
- Sinceramente, sim.
- Está progredindo, já consegue confessar o que quer de fato.
- Eles parecem felizes.
- Posso te dar a certeza que nenhum ali está totalmente satisfeito com a vida.
- Como sabe?
- Olhe o rapaz ao lado de seu amigo desejado. Ele é gay. Mas não pode dizer isso ao mundo pois seus pais o repreenderiam.
- Jorge é gay? Bem que eu reparei...
- Não se pode esconder uma mentira a todo instante. Uma hora nosso corpo diz o que a boca gostaria de dizer.
- Faz sentido.
- Aquela menina ao lado, de corsete preto.
- Nicolle! Ela é bem fofa, nunca entendi como gosta de ficar em ambientes de bebedeira.
- Ela já quis transar com Jorge. E você. Juntos.
(Espanto) - Eu jurava que ela era livre de pensamentos assim!
- Todos tem desejos e até impulsos sexuais, as vezes complexos demais para a sociedade.
- Estranho seria se ela não gostasse de sexo.
- Pois é, a curiosidade sexual é equiparável à sede de conhecimento. Mas continuando, vê o rapaz de óculos fundo?
- Matheus.
- Ele é o mais normal dali. É religioso, frequenta a igreja toda a semana e tem uma namorada simpática. Ele já pensou em matá-la exatamente 392 vezes.
- Não parece tão assustador.
- Claro, você já quis fazer o mesmo com seu namorado.
Parecia cada vez mais fácil lidar com aquilo tudo. Passaram-se 10 minutos apenas, mas o garçon parecia ser um conhecido de anos para ela. Catherine já sorria enquanto ele lhe falava os desejos mais sórdidos de todos naquela lanchonete. O mundo estava ganhando um novo significado, era engraçado perceber os desejos sórdidos de uma geração inteira.
- Seria muito mais fácil se os humanos decidissem viver uma reta contínua. Se voltássem as condições primitivas, seríam mais felizes. Mas teimam em viver numa parábola, e esquecem que ela tem um fim. Realmente, todos são falsos moralistas. Crer mais na moral do que no amor. Ter mais normas e menos piedade. Viver esteriotipado num mar infindo de baboseiras inventadas. Hipocrisia. Mas em certa dosagem, necessária para viverem inertes, sedados em prol de uma harmônica vida.
- É repugnante viver afundado em mentiras.
- Sim, principalmente quando as pessoas a sua volta percebem isso.
- Não estou entendendo.
- Seu namorado, ele te deu um bolo pois queria que pensasse na sua vida. Ele não sabe como te ajudar, mas, não quer desistir de você, então está lhe dando espaço para se ajeitar.
- Como posso culpar ele a todo instante de meus problemas, e ele querer tanto meu bem?
- Ninguém está 100% ciente de tudo o que os outros pensam. Não se culpe.
- Fico um pouco transtornada com isso, sempre quis o bem dele, eu o amo!
- Quando se ama, você se torna forte, principalmente quando para de pensar no quanto você ama, e percebe o quanto é amada. Segurança gera confiança, que gera força, que gera incentivo.
Os olhos dela ficam marejados, mas ela não chora. Parece que ela constatava que a vida tinha mais significados do que parecia.
- Nem toda vontade foi feita para ser suprida. Mas nem todas foram feitas para serem reprimidas. Apenas viva, e não se preocupe com motivos, apenas com escolhas. E faça as que lhe convir, ok?
- Ok.
- Só existem duas maneiras de ser feliz na vida: Ser idiota ou se fazer do mesmo.
- Parece simples.
- É mais difícil do que imagina.
- Será mesmo?
- Você nunca conseguiu nenhum dos dois.
- A mente humana é estranha.
- Repudiar as outras mentes por conflitarem com seus ideais é mais estranho ainda.
- Trágico.
- Talvez vocês melhorem um dia.
- Confia tanto em nós?
- Um dia vocês foram assim.
- Afinal, você é minha consciência mesmo?
- Na verdade sou a consciência coletiva, por isso compreendo todos. E estou aqui desde sempre, por isso falo com tanta precisão as coisas.
Ele se levanta, bate poeira de seu avental surrado. Ela fita-o. O restaurante ecoava sonoras risadas falsas. Catherine parecia identificar agora a verdade por detrás de rostos sorridentes. Ela seria capaz de chorar, ao ver aqueles sorrisos. Ela volta seu olhar a ele.
- Você já vai embora?
- Já. Já cumpri meu papel hoje.
- E qual era?
- De te mostrar que o falso é em grande parte, a verdade de cabeça para baixo.
- E achas que eu vou mudar assim, do nada?
- Não. Tens em mãos a reta e a parábola a seguir. Tenho certeza que irá escolher o melhor método.
Ele sai pelas portas dos fundos. Ela, sai de cabeça erguida pela porta da frente. O mundo recomeçava a partir dali.
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