A visão era simples, mas era complicado para minhas mãozinhas construir as opiniões que eu já tinha.
Tinha meus bonecos que, eu adorava botar para brigarem entre si. No fundo, eles sempre iam para o mesmo balde de brinquedos. Eles eram uma família, e provavelmente tinham muito mais do que eu poderia ter.
Vivia para advogar a favor de meus direitos, mas ninguém queria me ouvir, eu acabava me tornando réu de meu próprio processo, e me mantinha em cárcere mental, querendo ou não, sufocando nas correntes de minha infância inexistente.
Me alimentava de sonhos. Mas comi eles demasiadamente, tanto que mal lembro deles.
Desde cedo aprendi que o papai noel não existia. Nunca ganhei o que quis, e não me tornei mimado por isso, pois era igualmente bom receber meias ou roupas, já que ganhar presentes era algo raro. Pelo menos eu vestia com gosto. Comia com gosto.
Na minha infância eu fui magrinho e gordinho. Dependia da época do ano. Aquela sensação nonsense de fim de ano, e eu nem sabia o que significava nonsense.
Eu era solitário, e como costumavam frisar para mim, eu nunca precisaria de amigos. Eles não servem para nada. Eu aceitava e acatava já que, minhas mãozinhas eram pequenas demais para formar opiniões.
Eu era um em um. Mas nada em poeira. Se soprasse eu sumiria, e nada haveria acontecido ali.
E assim aprendi a ser invisível. Mais que meus pobres bonecos de 1,99.
Num primeiro instante eu adorava minha vida. Eram muitas horas dentro de casa, mas a hora de ir pra escola era divertido, era o único momento em que eu podia ser humilhado fora de casa, era bom, eu me sentia num filme americano sofrendo bullying e isso me tornava importante. Me tornava gente.
Escória, mas alguém.
Eu até queria reagir, mas admito, minhas mãozinhas eram pequenas demais para revidar e impor meus sonhos.
E minha infância se esvaia, sem atenção dos adultos que eu tanto amava, e sem os amigos que eu não tinha. Adorava a pobreza da forma como ela vinha para mim, principalmente por ser tão bem moldada, para que eu me conformasse com ela. Eu perdia bastante tempo ingerindo esse ideal, e por muito tempo foi meu maior banquete inclusive.
Era divertido brincar com bola murcha. Era divertido ter bicicleta e não poder sair com ela.
Era muito bom ver o mundo pela janela.
Com bastante esforço, lembro de algumas traquinagens que fui capaz... Ah, eu nunca fui travesso.
Brincava com meus bonecos e me tornava um boneco.
Desde cedo, fortes vocações geográficas, incessável desejo pela leitura, e medo astronômico de desbravar o mundo.
O mundo começava a partir da porta metálica da minha casinha.
Demorei anos para atravessar ela.
E quando o fiz, constatei: Eu era jovem demais para morrer.
Mas talvez fosse tarde demais pra voltar atrás com minha infância. Afinal, eu acabava de fazer 18 anos.
Minha infância foi levada de mim. Percebi: Eu fingia ser feliz enquanto era estuprado mentalmente pelo conformismo.
Foi divertido enquanto durou. Mas me perdoem adultos que eu tanto amava, pois minhas mãos já são grandes o suficiente para agarrar o mundo.
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