Paro em frente ao meu velho cinzeiro, hoje vazio.
Analiso minuciosamente cada detalhe. Ele é de bronze, com alto relevo e bastante pesado.
Ele deixava meu cigarro com um gosto diferente, melhor.
Ficava levemente úmido, por causa do calor da brasa, e com isso, o próprio cigarro se molhava.
Nada que impedisse um trago perfeito.
Fiquei analisando por alguns minutos, e acabei lembrando de quando fumava.
Eu me sentindo dono do mundo enquanto morria.
Tão doce o momento de fumar. É poético.
A fumaça pesada saindo de seus pulmões para flagelar minha boca.
Um pouco sempre saía pelo nariz. Era uma sensação incrível de poder vazando de mim. Confiança em pequenas doses.
O problema é que o poder entrava e saia. E no final o cigarro sempre vinha a acabar.
O que me sobrava era um estômago dolorido, refluxos infernais, e um cheiro forte de tabaco impregnado em meus dedos que, confesso, eu amo.
Lembro que eu parecia mais sério ao fumar. Parecia mais homem. Parecia mais forte. Mas, só parecia enquanto eu o fazia.
Era tão momentâneo que me cegava. Repugnante.
Eu estava em profundo desgosto.
Quando decidi largar o vício, achei que seria difícil, que eu imploraria por cigarros, quebraria promessas e pior, gastaria o que nem tenho para me sustentar de novo.
Mas é engraçado, nada disso aconteceu.
Eu sinto repulsa do meu eu antigo. Quando me lembro dos momentos em que eu fumava, vejo um grande ator, camuflando as mazelas da vida e envelhecendo rapidamente, enquanto fumava um Lucky Strike e se embebedava sozinho, chorando por amores inexistentes, criados para satisfazer minhas necessidades de me sentir humano.
Quantas queimaduras, algumas ainda visíveis. Quantos problemas de saúde, alguns ainda vigorosos.
E me fode depreciativamente perceber que, de certa forma, ainda sinto vontade disso.
De ser repulsivo? Eu não sei. Na verdade eu não entendo a mente humana.
Faz falta por quê? Eu adoraria saber.
Mas assim eu sigo, com uma sensação única, e que sinceramente, é um dos meus maiores motivacionais para isso: O de me sentir limpo. Não só da fumaça que me deixava fétido, mas de todo o passado que ele representava para mim.
Adeus meu belo cinzeiro, eu não preciso mais de ti.
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