05/10/2012

Heroísmo.

Não vou tornar-me herói hoje, depois de uma vida heroica. Nem tampouco criar asas e sair voando, só porque sou legal. Seria mais óbvio eu me espatifar no chão, perder a consciência e viver uma nova vida, o que me parece mais nobre, mas nem tão justo. Você ai, quer sentir mas não pode revelar ao mundo. Quer bancar o senhor do tempo, mas não consegue sequer sentir os minutos perfurando sua carne. Todos esses olhares insensíveis, diabólicos e julgadores, desde os de Lúcifer até os de Deus. Esse presente ausente, sem memórias confiáveis da sua longa jornada até aqui. Quem és tu? Herói? Vilão? Civil?
Eu cortei minhas cordas. Ao menos as que levavam as informações do meu coração para o mundo exterior. Ainda não consegui cortar as de minha alma, mas não é interessante agora, preciso um pouco de consciência. Isolamento é a chave para o meu momento. Diga-me, o que vê? Me descreve maravilhosamente ou me despreza ferrenhamente? Deixe seus pulmões falarem por você, seu coração anda ocupado morrendo neste momento. Feche os olhos, grite para o mundo exterior se vê heroísmo numa patética solução verde em cima da mesa.
De olhos fechados você se aproximou da arma. Em sua têmpora, descansa o cano quente que já disparou 5 vezes contra minha vergonha. Uma última bala que tem consciência, e entende que não é desse jeito que as coisas deveriam acabar, mas você apertou o gatilho e deixou esse sangue verde voar de seu nariz, boca e olhos. Diga-me, o que vê? O mundo ganhou novas cores agora que começou a se matar? Sua queda não representa heroísmo, só fraqueza.
Com paciência de um corpo já sem respiração, diz calmamente que o que vê são cicatrizes expostas no meu rosto. Com mais calma ainda, recolhe o líquido verde e põe num copo. Este descansa agora em cima da mesa. Feliz, fecha os olhos e morre explodindo de felicidade nem tão falsa, por mais que assim soe.
Queria que não fosse tão belo seu rosto, mesmo ao se apagar. Seu cabelo ainda continua tão vivo, embora já se mexa nos ombros de um novo Perseu. Mas mesmo depois de morta em minha corrente sanguínea você consegue deixar de esconder, quer sentir e não pode, quer viver e se mata. Contradição genuína de uma alma que nunca nasceu para ser heróica, e sim para ser apenas feliz. Ignorância era a chave de meu passado, mas eu me matei junto de ti e vi que o câncer não estava entre nós, e sim era apenas eu.

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