24/10/2012

Alice no País da Cocaína.

Alice enganava a todos.
Corria pelos campos verdes e rubros de um reino inexistente, procurando a velha lebre apressada.
Com seu vestidinho azul claro, curto e cheio de babados, encantava aquela multidão que esperava para que ela caísse na toca. O relógio caia do bolso, o tempo estava parado, e um quarto aparecia. Mesas gigantes, portas pequenas, um bolo e uma garrafa. Tudo conspirava contra Alice, que sem saber, só sonhava. Deixava seu imaginário se alimentar de suas bizarrices infinitas.
"Os animais estão falando, fale com eles Alice!"
Não adianta, ela tem medo. Até quer, mas não quer. Não entende, mas viaja. E viajando, fica doente.
O tal sono dos justos, a aberração infinita naquelas lágrimas que quase a afogaram. Tudo para que os animais que eram fruto de sua deturpada alucinação odiassem ela.
Na sua corrida pelo ópio achou o narguilé da lagarta e o cogumelo da sublimação. Depois de tudo, o que é real e o que é surreal nesse mundo infinito de absurdos?
Alice, aonde você vive?
Qual o real propósito de sua estúpida mente?
Seria o narguilé ou o cogumelo que fariam essa Alice demente diminuir suas alucinações?
Seria o sorriso falso de um gato infeliz a única coisa necessária para enganar todo um mundo hostil?
Cheshire é invejado. Some, ri, sorri, aparece. Faz sem crer, mas faz.
Agora, quem quer ser Alice, a louca?
Nem Alice quer ser Alice, muito menos um homem de cartola ou uma lebre deturpada querem ser Alice.
E em seu faz-de-conta infantil, só o título é para crianças. Todas as lições servem para o nosso doentio mundo. Mundo sem asas que, em Alice, voava para dentro de sua cabeça. Voava para longe, em busca de um reino, fosse ele de copas, de espadas, de paus ou afins.
Era essa agonia crescente, essa ilusão sem fim que a atordoava. Quando ela vai parar de olhar pro seu próprio espelho e ver mentiras? Quando vai parar de explodir e se iludir? Quando vai parar de se perguntar?
Ninguém sabia, ninguém entendia. Só Alice entendia.
E onde ela foi parar? Bom, minha Alice está hoje presa na minha cabeça, numa camisa de força, chorando por ter seu destino estrangulado, dissecado e prostituído.
Devastou sua floresta encantada por conta própria, e mesmo sem entender o real motivo de ser plenamente feliz, procurou o inverso. Ai achou, e então desmoronou.
E no mundo real? Ai Alice é só uma garota drogada, infeliz e atordoada. Mesmo que na forma de um homem angustiado, que sem motivos, também estrangulou seu destino.

2 comentários:

  1. Nossa, Marcinho... que forte! Eu adorei o modo como você representou o conto, a mensagem no final. Adorei que a ideia do texto combinou com a narrativa angustiante.

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  2. É um dos meus textos preferidos, amo ele de coração <3

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