31/10/2020

Navegar é Preciso.

Para onde foi aquela pista lisa deslizante? Não sei, nunca mais vi. Ficou num limbo estranho, junto da musa atemporal. Em seu lugar os espaços são agora preenchidos por curvas finas e volumosas de um infinito mar que sempre tenho vontade de me afogar, mesmo que pra isso eu precise me aventurar por esta sinuosa estrada.

Toda sereia é praiana, logo, as retas não combinam com o sal que há de lhe ressecar. Talvez agora você esteja mais apta a seguir o dress-code das formas marinhas, só lhe falta a estrela-do-mar na cabeça e a cauda real balançando por ai. Mas quem precisa de um rabo de peixe quando já tens o melhor bumbum do alto-mar?

Vamos lá, sejamos sinceros aqui: Nunca és feia. Acordando, dormindo, supermorena ou levemente branca, com olhos editados ou com aquela carinha de leve tristeza. Sua beleza é tal como a musa que és: atemporal. Em qualquer momento do dia ainda terás aquele sorriso chiclet's emoldurante. Esta é a sua posição no universo, a de deusa imutável.

Então qual a diferença do seu cabelo de ontem para hoje? Ah, nenhuma! É que agora você tem mais ondas pra eu desejar navegar.

26/10/2020

Musa Rubra.

E cá estou novamente
Diante do mar agoniante
Sufocado nesse ar insalubre
Olhando pr'um espelho brilhante

Afinal, quanto tempo se passou?
Dois, três ou vinte anos?
Já perdi a conta do tempo
Ah, mas que relógios tiranos!

É um globo ocular fascinante
Somados aquela pele quase rubra
Penso no céu nublado novamente
Desejando que enfim me descubra.

Mas afinal, quem és tu?
Não que isso te deixe confusa.
Tu tens total ciência, não é?
Oras, você é a minha musa!

Volto enfim a tocar no tempo.
Deveras confuso, deveras perpendicular.
O tempo passa, passa tudo.
Menos a vontade de te amar.

25/10/2020

Embrace Yourself.

São mais de 3 décadas aqui neste planetinha, balzaquiano convicto. E volta e meia eu ainda me pego tendo que lidar com gente idiota. Sabe, gente que não tem noção das coisas.

Mas nada em absoluto me irrita mais do que as pessoas que acham que eu sou otário.

Pois veja bem, eu sou bicho criado. Se eu parar uns 3 minutinhos pra refletir sobre as coisas, eu acabo tomando as decisões certas, mesmo que eu exploda nestes primeiros 3 minutos. Eu sou racional e eu gosto deste meu lado. Isso foi conquistado por meio de muito suor, sacrifício, trabalho árduo e principalmente, na experiência.

Não é qualquer merda que me derruba. Felizmente.

Só que eu to bem cansado disso, sinceramente. As pessoas falam sobre amizade e esquecem o que isso significa, elas falam sobre te amar e esquecem o que isso significa. Elas acham que estão imunes ao erro e que só os outros erram. Lhes falta autocrítica. Sem ela, você acaba machucando os outros de graça, apenas pelo bel-prazer de não ser "otário". Mas que otário? Sei lá. As pessoas pensam demais nos outros.

Só que pensam pelos motivos errados, saca?

Querer saber se estamos bem, se tá tudo na paz, ligar pra saber como está o seu dia, essas merdas a gente não faz. Eu incluso. Nos falta um pouco mais de empatia já que, no fim, é tudo "meu pirão primeiro, foda-se o outro". Mesmo assim, repito: eu to cansado disso. A sensação de ser descartável, de pensar no tanto de dedicação que a gente pode ter por alguém e depois ver isso relegado a nada por suposições, fofocas, abobrinhas e melões... é bem merda. Ainda mais quando todo mundo envolvido sabe que você vive ao redor disso.

Daí hoje eu tive um estalo. Tac!

Eu vou ser exatamente esse maluco que todo mundo faz questão de dizer que eu sou.

22/10/2020

XV: Cílios.

A gente já se conhecia a muito tempo, né? Coisas da Região dos Lagos. Te via numa festa aqui, num evento ali... a gente nunca foi amigões, mas a gente até que se dava bem. Fiquei com sua amiga, você me apurrinhou pra eu ficar com tua irmã (o que graças a Deus nunca aconteceu), de repente eu fui te ajudar com coisas da sua casa e a gente tava se beijando. Não foi uma história comum.

A gente se gostou muito rápido e isso aconteceu com você me vendo parado no ponto de ônibus. Me mandou oi, tomamos sorvete, conversamos, batemos papo várias vezes. Eu vivia aonde você mora e depois fui morar aonde você queria. A sua casa era muito confortável, mas me faltava algo. Mas é isso, em menos de 1 ano a gente ficou, terminou, voltou e passou a morar juntos. Que???

Eu não era o melhor dos partidos. Eu sei disso. Eu errei com você e talvez eu sinta que pague alguns desses pecados hoje. Fico martelando como as coisas poderiam ter sido diferentes se eu só tivesse demonstrado meus sentimentos sem medo de porra nenhuma. E medo de que, caralho? Porra, eu vivo batendo nessa tecla de "medo de me machucar" e aí eu pego e acabo me machucando mesmo assim. Nem faz sentido, sabe? Seria melhor se eu só caísse de cabeça no seu mundo que eu tanto gostava. Por mais que você nunca tenha acreditado nisso. Eu fui um baita cabaço.

Com certeza hoje você pensa só que eu estava aí por comodismo. Pra comer alguém, pra estar perto do trabalho, da faculdade, de coisas banais. Pior que não, eu gostava de você mas queria me impor, de tão cansado que eu estava de ser boneco capacho dos outros. Tinha que ser do meu jeito, eu não queria fotos, eu não queria registros, eu sabia que iria acabar antes mesmo de começar. Mas como? Sei lá sabe, eu só achava que em algum momento você iria me decepcionar. Daí passei a cagar com tudo de graça. Coisa de retardado.

Claro que você também teve alguma parcela né. Nunca teve muita paciência para lidar com minha ausência e sempre senti certa dificuldade em entender meu mundo, mas mesmo assim era uma ótima companheira e eu tenho certeza que merecia alguém infinitamente melhor do que eu era naquela época. O mais irônico é que se aguentássemos mais 1 ou 2 meses... não, se a gente aguentasse mais uma semana só, provavelmente estaríamos juntos até agora. Talvez até por comodismo de ambos, mas é real. O timing da vida as vezes pode ser meio cruel, mas pode ser necessário também. Entre um ou outro, prefiro acreditar que você está mais feliz hoje. E tá tudo bem.

Depois de tantas pessoas que me fizeram mal e vacilaram comigo, eu tenho certeza que meu "dia de cuzão" foi mesmo com você. Eu não te respeitei, gostava de alguém quando comecei a estar contigo, me sentia fraco, me sentia inútil sendo sustentado por ti e fiquei irritadiço. Perdi toda a autoridade que eu já nunca nem tive e tentei me impor da forma errada. Passei pelos piores momentos da minha vida até hoje ao seu lado e suguei você.

Eu te amava, eu juro. Mas só descobri isso quando acabou.

21/10/2020

Estatística.

Nunca fui muito a favor da ideia de que você se torna responsável pelo aquilo que cativas. Isso é meio que uma muleta sentimental para prender os outros a ti, além de ser uma desculpa fajuta. Nem sempre a gente faz as pessoas se apaixonarem por nós. Nem sempre é recíproco. Merdas acontecem. Ainda assim, empatia é importante e evita que pessoas se machuquem a toa.

Então vamos falar sobre responsabilidade afetiva. É, aquela coisinha que a maior parte das pessoas acha que não precisam se importar, pois "feridas amorosas se fecham". Inclusive, estou aqui achando engraçado que ouvi de um grande ex-amigo que "nessas horas é bom transformar a raiva em putaria ou num novo amor". Imagine só, receber conselhos de quem está com quem você gosta, é o cúmulo da escarrada em cima da sua cabeça.

Mas voltando.

Tem gente que não tem a menor responsabilidade afetiva com os outros. Passam meses te conquistando, entrando na sua vida, no seu domicílio, te fazem a observar enquanto dorme, o fazem dormir pouco pensando em suas crises de ansiedade, enfim. Toda aquela ladainha barata sobre se apaixonar, sabe? Pra no fim, te largar como um pão velho que nem pra torrada serve. E vejam bem, é importante analisar o contexto amor.

O que é amor? Amor é algo que, quando você diz que sente, você assina um contrato de aceitamento. De que está disposto a enfrentar dificuldades pela pessoa. Se ela é pobre, se ela é uma fodida, se ela tem problemas sentimentais inacabados, dificuldades com seu sistema nervoso central, se não tem uma perna, foda-se. Você ultrapassa coisas pequenas em prol disso. Quando digo que amo uma pessoa, eu automaticamente ignoro tudo o que me prendia e aceito ela do jeito que ela é, sem querer mudar um fio de cabelo. Estarei lá disposto a fazer tudo para que dê certo.

Exceto que a pessoa caia fora, do nada, dando desculpas genéricas e culpando confusão mental. Aliás, é moda fazer isso, né?

É difícil esperar algo de alguém jovem. A gente chega numa idade onde começamos a dividir as pessoas entre jovens e adultos. E de jovem eu espero tudo, inclusive fogo no rabo. Mas como afirmei antes, é importante explicar que quando chegamos a falar que amamos alguém, nós aceitamos ela do jeito que ela é. Mesmo com problemas de aceitação, ciúmes, irmãos problemáticos, família estranha, crises aleatórias, caixas de remédio e desconfianças aleatórias. Infelizmente, amor não escolhe caráter, ele escolhe carinho.

Por isso eu sempre vou achar escroto uma pessoa que deliberadamente te faz se apaixonar pra ir embora com outro. E dependendo dos moldes em que isso se constrói, pode beirar a crueldade. É aqui onde eu me ligo que em tantos anos, eu sempre desejei o bem para as pessoas que me fizeram mal. Fiz força pra manter a amizade, independente de tudo. Ficava meses sofrendo quieto fingindo ser forte para não ser chato para ninguém, nem tampouco soar patético.

Só que graças a Deus eu caí na real que isso segue contra os princípios do ser humano. Somos passionais, erramos e as vezes desejamos sim o mal das pessoas. Então me reservo o direito de desejar que você se foda para sempre. Que experimente o que eu estou experimentando. Várias vezes. Que nunca seja feliz. Que acorde e sinta um buraco no seu peito. Que busque sempre algo que você quase vai encontrar, até perceber que não. Que seja enganada. Que seja machucada na alma, no coração. Não há castigo pouco pra quem não tem responsabilidade afetiva.

Isso não significa que você não vá ser feliz. Mas significa que sempre que não for, você vai lembrar de mim. E vai lembrar que você tirou um homem da porra de uma reclusão de sofrimento por outros amores, pra ser a maior babaca de todas.

Parabéns. Você nunca quis estar aqui como estatística. Agora é a pior de todas.

17/10/2020

Meio BoJack Horseman.

BoJack é um cavalo.

E provavelmente o cavalo mais humano do mundo. Ele não corre, ele não é viril, ele não tem nem sequer pau grande. Ele é apenas um cavalo que parece um humano. Seus sentimentos são complicados. Diria até que a mistura de seus sentimentos o torna meio escroto. Babaca.

BoJack é um babaca.

Na maior parte das vezes, ele é o arquiteto de sua própria destruição. Não é capaz de acordar um dia e falar "uau, que dia incrível!". Não, ele é ranzinza, chato, a vida dele provavelmente é cinza. Todas as pessoas felizes ao seu redor são meio idiotas, afinal, não percebem que deveriam estar tristes.

BoJack é solitário.

É uma forma de se ver as coisas, mas ele é. As pessoas que se aproximam dele se machucam. E ele se machuca com quem se aproxima dele. Ele é vítima e culpado ao mesmo tempo, e nada o redime, independente do que ele faça. Nenhuma atitude dele é correta, mesmo que seja mesmo certa.

BoJack é azarado.

E como ele mesmo diz, não é do tipo que ama. Ou você magoa alguém, ou é magoado. Qual seria a graça disso, não é mesmo? E mesmo que ele amasse tudo o que é possível, ainda seria pouco. Suas qualidades se perdem ao vento, mas ele é capaz de ver pontos positivos e ignorar os negativos em seus picos de felicidade.

BoJack é, as vezes, esperançoso.

O problema é que a qualquer sinal de felicidade, tudo vai desmoronar de novo. Nada o fará feliz novamente, pessoas serão machucadas e ele não vai ter controle de nada, pois vai ser novamente um babaca sem ter controle de seus próprios atos.

Eu te entendo, BoJack. Eu te entendo tanto que até dói dentro de mim. É incrível como eu sou capaz de destruir as coisas ao meu redor sem fazer absolutamente nada, só vivendo. Falando uma coisa aqui, tentando resolver uma outra aqui, lutando avidamente para ser, vejam só, feliz. Uma gota de felicidade e de repente tudo desmorona de novo.

Eu só posso agradecer a pessoa que me apresentou a você. Pois além de fazer isso, ela me mostrou que eu posso ser igualzinho a você. E o melhor, ela deve estar rindo até agora disso.

Mas não tem problema. Eu aceito o estigma. Eu sou meio BoJack Horseman mesmo.