05/07/2013
Me Torture.
Ele já não sabia mais quando o luto terminaria. Do alto de suas certezas, ele padecia do maior problema: Medo de viver. Havia experimentado toda a vida que podia, que queria, havia provado todos os lábios que queria provar, realizara todos os desejos sórdidos do capitalismo em doses únicas, porém escassas. E algo lhe faltava. Esse luto improvável, esse medo inconveniente de seguir em frente, mesmo que as possibilidades não fossem únicas, e quase todas boas. Teimava em gritar todos os dias "BOM DIA!" ao mundo, mas o mundo lhe torturava com acontecimentos do cotidiano que não esperava. Um liquidificador quebrado, um pneu furado, um frango queimado. O tempo corria, a vida o apertava, ele queria mais, só que mais querer era mais mentir, e se virasse para cima a sua vida, ela a esmurraria de baixo, e se o tempo passasse e o rosto mudasse, esse rosto só mostraria o que não é real. Se importava, mas não era poupado, e seus sentimentos cada vez mais iam para longe, deixando uma marca profunda e forte em sua alma. E lá, no fundo dessa alma, cada vez mais ele se escondia, querendo entender o porquê de procurarmos e não encontrarmos, e o porquê que quando largamos as coisas de mão, elas acontecem. O seu único desejo, talvez o mais ridículo desejo agora, era o de poder dormir debaixo de uma ponte, sendo torturado mais ainda pela vida, mas podendo procurar novamente a tão sonhada casa para se aconchegar. Não saberá nunca se voltará para debaixo da ponte, ou se nunca a habitará, mas sabe que aonde está, ele só quer mudar. E abrir novamente sua alma para uma nova tortura.
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