Você muito provavelmente não terá o emprego dos sonhos.
E se quiser ganhar dinheiro, estudar não vai ser o suficiente.
Eu duvido que você consiga alcançar suas metas na data estipulada. E é quase impossível que as alcance antes. Talvez nem alcance no fim de tudo.
Provavelmente você irá morrer de algo que lhe fará sofrer, ou algo tosco e sem nexo.
É praticamente impossível que você consiga achar o amor da sua vida.
Caralho, pensa no quanto vão lhe culpar por uma infinidade de coisas que você sequer errou.
Ser inteligente não basta, eu já disse.
É possível que engorde. Que fume. Que beba. Que use drogas. E mesmo que não faça nada disso, é possível que tenha uma vida de merda cheia de doenças.
Se você for infortunado, já nasce preenchido de problemas que lhe acompanharão pelo resto da vida.
Seus pais provavelmente vão se divorciar. E se não se divorciaram ainda, provavelmente só estão juntos por comodismo.
Há uma possibilidade real de que você seja pobre. Talvez já tenha passado fome também.
Se não trabalhar em dois ou três empregos, fazendo bicos, você nunca vai saber o gosto de comidas que fujam do arroz e feijão.
Você vai eventualmente viver 85% do tempo em que está acordado no dia sendo explorado.
Nos outros 15%, pensando na merda que sua vida está.
Se dormir demais, vai ter dor na coluna, provavelmente.
Se dormir de menos, dor de cabeça.
Com algum azar, você vai ser pai ou mãe antes do tempo. Talvez até sem tempo.
Possivelmente pessoas que você ama morrerão antes de você.
De formas sofridas ou toscas, lembra?
O lazer vai ser cada vez mais escasso e menos fará sentido.
Sua velhice será chata, ruim e/ou sofrida.
Muitas pessoas com quem você se importa estão dando a mínima para você.
Você dá a mínima para pessoas que se importam com você, também.
Não existe pote de ouro no fim do arco-íris.
Pessoas reais sofrem todo santo dia.
Se você não faz parte do 1% de pessoas que nasceram ricas, que deram alguma sorte na vida, que escolheram ao acaso um caminho afortunado ou que ganharam em alguma loteria maluca, desculpe falar, mas a vida será uma merda.
E se você conseguir sorrir, agradeça.
Pois isto não é um motivacional.
25/11/2021
Isto não é um motivacional.
25/08/2021
Somas, subtrações e um punhado de esperanças.
18/08/2021
Green Heart.
21/07/2021
Troca Equivalente.
09/06/2021
Revoltagem.
Eu fui um adolescente revoltado. Não confunda com rebelde: revoltado.
Odiava a escola, odiava a prisão que vivia em casa, odiava ter que trabalhar enquanto meus amigos tinham dinheiro de graça e conseguiam tudo o que queriam.
O não ter sempre me foi pesado. Nunca fui de invejar os outros, mas chorava por não conseguir coisas simples.
Mas haviam nuances daquela época que eu hoje recordo com muito carinho. Tipo acordar às 6h pra me arrumar e matar aula pra jogar no fliperama do lado da escola. Salgado a 1 real, ficha a 30 centavos. Eu não era o melhor dos jogadores, mas me divertia vendo os outros jogarem. Eu me alienava um pouquinho.
Quando estava na escola, tinha o famoso pratão de macarrão com salsicha que só eu cheguei a repetir 4 vezes num dia. Aquilo era delicioso e até hoje eu não consegui replicar o que as tias do refeitório faziam.
Trabalhar no mercado era um inferno. Foram dias intensos não ganhando nada, mas conheci garotos com a mesma realidade que a minha, ou até pior. E eu reclamava: Reclamava muito pois odiava aquilo. Odiava ficar em pé o dia inteiro sem receber um real. Odiava mais a maioria das caixas que olhavam pra gente com desprezo. Mas também gostava de sentar do lado de fora e comer uma maçã, as vezes a única coisa que dava pra comer com os parcos trocados que os clientes nos davam.
As vezes passava o fim de semana na casa da minha tia. Na época da internet discada, a partir das 14h você só pagava um pulso. Era maravilhoso navegar o fim de semana inteiro "quase de graça" com o revés de que era uma internet horrorosa. Abria o Orkut, conversava pelo MSN, me apaixonava por rostos que jamais vi. Conhecia músicas que gritavam por mim revoltas que eu não percebia. System, Slipknot, Papa Roach, Korn. Baixava com muito sacrifício algumas músicas e fazia CD's em MP3 pra ouvir no recém-comprado DVD player que à muito sufoco eu poupei pra dar de presente pra minha mãe.
Era tão inovador um CD de dados plugado no DVD reproduzindo músicas em MP3. Davam mais de 100 músicas dependendo de como você as compactava. Ficava na sala de casa fazendo air guitar ouvindo Metallica, fingindo que um dia estaria numa banda gritando minhas revoltas para todos ouvirem. A vocação pra cantar eu até tinha, só nunca conheci ninguém que topasse.
Não vamos falar da minha nula vida amorosa. Naquela época o máximo que eu conseguia de reciprocidade era amar a minha mão mesmo. Mas alguns momentos engraçados surgiam de tentativas frustradas.
Lembro da casa que inundava e de como dava trabalho limpar. Mas lembro daquela varanda com rede que muitas vezes me embalou ouvindo Bon Jovi. Do chuveiro que só funcionava num banheiro que ficava fora de casa e que por isso, algumas vezes peguei gripe pelo simples fato de sair de noite após um banho quente.
E nossa, quando eu peguei emprestado um PlayStation? Corria pro mercado municipal atrás de jogos pra comprar. 5 reais cada, me acabava. Descobri já tardiamente os clássicos do PS1, numa época que o PS3 já estava na porta pra sair.
Foi um período meio merda, mas eu sei que tem gente que passou por coisa pior. Ou talvez eu tenha vocação pra ver o bom dos momentos ruins. Talvez o saudosismo não me permita odiar minha história. Ou até mesmo eu só queira cavar e achar bons momentos de um período em que era um adolescente revoltado. Não sei. Mas essa juventude foi muito importante e ela me faz falta.
Muita.
21/05/2021
Le Café.
Coador.
Água quente.
Sua boca.
Um ou dois goles.
Café.
Forte, firme.
Conforte.
Conforto.
O aroma do café.
Seu aroma no café.
Sua xícara com café.
Que seja firme como quer.
Que seja forte como é.
Quente.
Úmido como seu beijo.
Intenso pra me despertar.
Le Café.
Me arrepie como quiser.
Mas me dê o prazer.
De uma xícara de café.
16/05/2021
O que eu estou buscando, afinal?
Uma parte em mim está cansada. Estou cansado de me ferrar buscando felicidades que não existem.
Outra parte de mim está farto de magoar e não corresponder boas pessoas.
Eu não sei se estou buscando um padrão impossível de paixão ou se eu deveria me aventurar por comodismo a alguém que me oferece rios e fundos de boas experiências.
Mas eu preciso que algo desperte em meu coração pra eu poder me entregar. Eu perdi totalmente a capacidade de me doar a quem não está minimamente alinhado. Sei lá se isso vai voltar, inclusive. O que eu sei é que eu estou procurando um bom tempo por isso.
E eu ainda não reencontrei.
Eu não sei se é a idade adulta adulta (quando você vira realmente um adulto) ou se é apenas uma fase merda que eu venho passando a alguns anos. Mas é sobre papos, sobre sorrisos, sobre um encaixe... que nem eu sei como encaixa.
Já me moldei demais para me tornar a peça do quebra-cabeça alheio. Acho que mereço o meu par do Adidas agora. Mereço mais do que ser só o sexo dos fins de semana, o cara que você só quer pegar, assim como eu mereço mais do que a cortesia de um carinho em troca de brigas e discussões sem nexo.
E se for impossível achar alguém assim, paciência. É só que eu realmente não consigo mais me relacionar plenamente sem saber que o outro lado é meu espelho da alma.
Já raspei perto algumas vezes. Então não deve ser impossível.
Até lá, eu vou tentando. Ou não.
17/03/2021
A Misteriosa Mulher do Pijama.
Sei lá, cara. Toda vez que eu olho aquela garota ela parece estar usando o mesmo pijama. Sabe qual? É, aqueles com cara de muamba, que tu compra com a tia maneira que anda com o sacolão de roupa pra tirar uma grana no fim do mês.
Mas porra, que mulher gostosa. É por causa do pijama? Claro que não. Mas porra de novo, como casa bem com ela. E vejam bem: quando falo de gostosa, falo do sorriso que ela mete em cada registro com os básicos pijamas confortáveis de algodão com estampas estranhas-que-ninguém-liga. Se bobear, nem ela sabe de que são as estampas daqueles pijamas.
Há anos ela muda tudo: Cabelo em cores e tamanhos variados. Óculos. Muda de emprego. Muda de ofício. Muda a forma de ser e de falar. Muda de opinião e aprende como um camaleão a fazer o que bem lhe entende. Mas o raio do pijama está lá.
É um mistério.
É como se ela quisesse que as pessoas adivinhassem em que ano estão. Seria 2010? 2020? 2030? Certeza que daqui a 10 anos o mesmo vestuário para nanar estará lá. Delineando delicadamente uma volúpia que quase nem lhe cabe.
E é nesses gostos, tal como as tais músicas velhas que acompanham a donzela que o espectador se perde. E se reencontra as vezes. Coisas simples que a vida proporciona.
Continue assim, misteriosa mulher do pijama.
16/03/2021
Fantastic Voyage.
Sou um daqueles afortunados que lembram bem da infância, de quando tinha 3, 4, 5 anos. Minha memória anda meio merda para algumas coisas, mas as que importam ainda estão aqui, para minha felicidade. Isso me permite lembrar da época que ainda morava no Rio, apesar de ter saído de lá com 6 anos.
Me lembro que era muito comum eu ficar na casa do meu tio nessa época, pois ele morava logo atrás da minha casa. Minha mãe coitada, volta e meia tinha que ir na rua tentar arrumar emprego ou qualquer coisa do tipo, pois a época não era boa. Lembro que não fazia muita coisa por lá, basicamente só ficava mesmo vendo televisão, coisa bem comum pras crianças dos anos 90. Mas eu lembro de uma vez que ele decidiu jogar videogame. Foi lá dentro do quarto dele, pegou uma maleta amarela de madeira e tirou um Atari de dentro. Instalou com cuidado e paciência o aparelho na televisão e encaixou o cartucho. Era um joguinho de nave que você não podia bater nas paredes que ora eram estreitas, ora eram sinuosas. Jogo simples de um console simples. Até que ele falou que eu podia jogar um pouquinho.
Obviamente eu perdi várias vezes, eu era só um garoto. Mas foi um dos primeiros contatos (se não o primeiro) que eu tive com um videogame. Lembro que isso ficou na minha cabeça por anos, volta e meia vinha como uma memória gostosa de se lembrar, apesar de eu nunca saber qual era o nome do raio do jogo.
O tempo passou, mudamos para Araruama e meu tio ficou por lá. Foi morar na casa que antes eu morava. Nessa época era comum eu ir pro Rio passar as férias de julho e as de fim de ano. Eu ficava a maior parte do tempo na casa do meu padrinho, mas volta e meia eu voltava na Abolição e ficava uns dias na casa dele. Era sempre divertido.
Meu tio era um cara reservado, pelo menos o tempo que eu passei com ele me mostrava isso. Um cara comum, de gostos simples, mas sempre bem-humorado. As vezes dava umas broncas na minha prima, mas ela era espivetada mesmo. Lá as vezes a gente jogava uns jogos de mesa, os que mais me vem a cabeça são o cara-a-cara e chispa, um jogo que nem existe mais aqui no Brasil e que por um bom tempo eu tentei achar pra comprar só pela nostalgia.
Virei adolescente e passei a não ir mais para o Rio com frequência. Minha mãe não queria me deixar ir por motivos pessoais dela, eu nem lembro mais quais, então a partir daí passei a ter pouco contato com meus tios, mas menos ainda com ele, já que naturalmente ia menos lá quando era criança. Ainda assim, sempre que estava com ele era divertido. Lembro de uma conversa com ele sobre Elifoot e como ele desenvolveu fórmulas matemáticas pra descobrir um jeito de evoluir os jogadores e ter sucesso rápido no jogo. Eu não podia esperar menos de um cara que era contador! Daí a vida adulta veio, a vovó se foi e ele nunca mais veio nos visitar em Araruama, assim como eu pouco fui para os lados da capital.
Fazia então 6 anos que eu não te via, tio, se não me falham as contas. A última vez foi justamente no enterro da vovó. Não foi nas melhores condições, mas... bom, a vida adulta é uma merda, a gente se afasta das pessoas de uma forma que não gostaríamos. Mas é como é.
Daí descobrimos que o senhor passou desse plano de uma forma bem triste. 65 anos completados a pouco tempo (mais uma vez, se não me falha a memória). O terceiro dos 4 filhos da dona Neuza. Um cara que eu sei que passou por sérios problemas durante a vida e que deu a volta por cima em todos os casos. Um exemplo, de verdade. O cara comum que ninguém é capaz de desgostar.
Hoje quando me olhei no espelho, percebi que meu cabelo é bem parecido com o seu. Dei um sorriso de orgulho, por fazer parte dessa família (as vezes problemática, mas sempre amorosa). E daí decidi pesquisar o nome daquele joguinho de Atari que joguei contigo quando era bem novo.
Fantastic Voyage.
Fica com papai do céu, tio Sérgio.