Eu fui um adolescente revoltado. Não confunda com rebelde: revoltado.
Odiava a escola, odiava a prisão que vivia em casa, odiava ter que trabalhar enquanto meus amigos tinham dinheiro de graça e conseguiam tudo o que queriam.
O não ter sempre me foi pesado. Nunca fui de invejar os outros, mas chorava por não conseguir coisas simples.
Mas haviam nuances daquela época que eu hoje recordo com muito carinho. Tipo acordar às 6h pra me arrumar e matar aula pra jogar no fliperama do lado da escola. Salgado a 1 real, ficha a 30 centavos. Eu não era o melhor dos jogadores, mas me divertia vendo os outros jogarem. Eu me alienava um pouquinho.
Quando estava na escola, tinha o famoso pratão de macarrão com salsicha que só eu cheguei a repetir 4 vezes num dia. Aquilo era delicioso e até hoje eu não consegui replicar o que as tias do refeitório faziam.
Trabalhar no mercado era um inferno. Foram dias intensos não ganhando nada, mas conheci garotos com a mesma realidade que a minha, ou até pior. E eu reclamava: Reclamava muito pois odiava aquilo. Odiava ficar em pé o dia inteiro sem receber um real. Odiava mais a maioria das caixas que olhavam pra gente com desprezo. Mas também gostava de sentar do lado de fora e comer uma maçã, as vezes a única coisa que dava pra comer com os parcos trocados que os clientes nos davam.
As vezes passava o fim de semana na casa da minha tia. Na época da internet discada, a partir das 14h você só pagava um pulso. Era maravilhoso navegar o fim de semana inteiro "quase de graça" com o revés de que era uma internet horrorosa. Abria o Orkut, conversava pelo MSN, me apaixonava por rostos que jamais vi. Conhecia músicas que gritavam por mim revoltas que eu não percebia. System, Slipknot, Papa Roach, Korn. Baixava com muito sacrifício algumas músicas e fazia CD's em MP3 pra ouvir no recém-comprado DVD player que à muito sufoco eu poupei pra dar de presente pra minha mãe.
Era tão inovador um CD de dados plugado no DVD reproduzindo músicas em MP3. Davam mais de 100 músicas dependendo de como você as compactava. Ficava na sala de casa fazendo air guitar ouvindo Metallica, fingindo que um dia estaria numa banda gritando minhas revoltas para todos ouvirem. A vocação pra cantar eu até tinha, só nunca conheci ninguém que topasse.
Não vamos falar da minha nula vida amorosa. Naquela época o máximo que eu conseguia de reciprocidade era amar a minha mão mesmo. Mas alguns momentos engraçados surgiam de tentativas frustradas.
Lembro da casa que inundava e de como dava trabalho limpar. Mas lembro daquela varanda com rede que muitas vezes me embalou ouvindo Bon Jovi. Do chuveiro que só funcionava num banheiro que ficava fora de casa e que por isso, algumas vezes peguei gripe pelo simples fato de sair de noite após um banho quente.
E nossa, quando eu peguei emprestado um PlayStation? Corria pro mercado municipal atrás de jogos pra comprar. 5 reais cada, me acabava. Descobri já tardiamente os clássicos do PS1, numa época que o PS3 já estava na porta pra sair.
Foi um período meio merda, mas eu sei que tem gente que passou por coisa pior. Ou talvez eu tenha vocação pra ver o bom dos momentos ruins. Talvez o saudosismo não me permita odiar minha história. Ou até mesmo eu só queira cavar e achar bons momentos de um período em que era um adolescente revoltado. Não sei. Mas essa juventude foi muito importante e ela me faz falta.
Muita.
09/06/2021
Revoltagem.
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