25/02/2016

Vinte e cinco de fevereiro de dois mil e dezesseis.

Sou complexo e não nego. Minha felicidade depende de coisas simples, mas minha tristeza vem em doses homeopáticas e quando se instala, é pior que Baidu. Gostaria de pedir a todos os envolvidos que nunca se culpem por não me entender, até porque nem eu mesmo me entendo, mesmo passado longos anos a fio tentando. É por isso que não me preocupo mais com quem eu sou, o que eu irei fazer em si e com o tempo que vou perder, e por perder quero dizer em qualquer sentido mesmo. Eu só vivo. Vivo para procurar um mundo melhor, sem desigualdade racial, social e religiosa, mas também vivo para procurar um lugarzinho ao sol. Casa, carro, uma tv, sei lá. Quero ser eu mesmo, e esse sou eu. Já tentei ser os outros, tipo imitar a roupa do amigo skatista ou comprar a jaqueta de couro do amigo headbanger. Particularmente hoje, eu sou capaz de usar uma bermuda de surf com uma camisa do Slipknot. Pois é isso que eu sou.

Um cara estranho, talvez?

E isso também significa que, por mais que eu queira, ninguém consegue botar sela em mim. Não consigo dormir em paz, meu estômago revira. Aliás, árdua guerra eu travo com este órgão, que vive me atazanando de tempos em tempos. Se eu pudesse eu arrancava ele, mas viver sem comer é um saco (escrotal, devo acrescentar). Não sou um cara de muitos dons, e na verdade, eu sequer pratico o que sei. Devo estar na escala mediana em tudo que eu faço, e pra mim, tá tudo bem. Eu nunca quis ser famoso, importante, e até lido bem com esse fardo. Mas já quis ser ator. E também cozinheiro, lixeiro, radiologista, professor de história e bem... agora quero ser publicitário. Tomara que dure esse "agora quero". Eu estou mais para um grito visceral que ninguém ouve do que para um ditado popular que vira rodapé de foto no Facebook.

Sei lá, mil tretas.

Observem que eu não estou falando aqui porque quero soluções para os meus problemas ou que eu esteja afim de expor minha vida. Na verdade, só estou dissertando sobre como eu me enxergo, e como quase não enxergo nada, parece que depois de muito tempo, só me sobra divagar. Mas é o que tem para hoje. Nós podemos enganar tudo, menos duas coisas: A morte e a nós mesmos. Só que como eu nunca me importei com as duas coisas, então acho que eu largo na frente para viver em paz comigo mesmo.

Mas eu bem que podia perder essa barriguinha.

Resumo da ópera: Faço de tempos em tempos uma avaliação. Penso: O que o Marcio de 14 anos pensaria me vendo hoje? A resposta depende do meu humor, mas num geral, acredito até que ele estaria orgulhoso hoje, mesmo muito longe do objetivo que eu pintei para mim. O mal da minha geração é... calma, qual é a minha geração?

Y ou Z?

Eu sou um pouco dos dois. E isso significa ficar decepcionado a toa. Sabe, quando você olha a grama do vizinho e ela é mais verde que a sua? Então, isso se chama "Desejar o que não se pode ter". Pelo menos sem trabalho árduo. Meu pessimismo é uma merda, e inclusive não faz sentido. Como pode eu, que me aceito como sou, ficar decepcionado mesmo assim? Acho que na verdade, eu queria ajudar mais os outros, ter mais disposição para saciar os anseios de todos que me rodeiam, poder retribuir com requintes de benevolência tudo o que vem para mim. Se sofro, não é por mim, é pelos outros.

Então... E ai?

E aí que nada sei. Só vou continuar seguindo o meu coração.

06/02/2016

Arrepios Opostos.

Haviam dois corpos naquele local. Um era tímido, aparentemente frágil, banhado pela luz da lua. O outro era atirado, decidido, mas no fim, também tão tímido quanto o outro. As idas e vindas não faziam sentido, era óbvio que queriam se colidir. Mas a teimosia em tentar impedir o inevitável é algo que atormenta a todos os seres humanos. Um breve vacilo num momento relaxado e de repente, os dois corpos entraram em êxtase. Um beijo quente numa noite quente onde tudo mais que os via era a bela lua de uma primavera já esquecida. As mãos que não se aquietavam, os pés que se reviravam, os olhos... ah os olhos. Eles não paravam quietos naquelas pálpebras fechadas. Mas eles se aquietaram, por fim, para se abrirem e verem que aquele breve momento durou por mais tempo do que devia. A colisão dos corpos prontos para o sexo que não existiu. O tesão fora a mil, mas abaixou como com um balde de água fria. Mas aquelas sensações, aquela situação diferente, ela pode ser sentida até hoje. Basta fechar os mesmos olhos e esperar pelo arrepio na pele que virá com o momento.

Amanhecer.

Não passava das cinco da manhã. O sol, preguiçoso, formava uma linha única no horizonte, banhando com riscos de dourado, laranja e vermelho, toda uma selva de pedra com a qual o par de olhos igualmente fugazes ainda tentava se acostumar. Ela gostava de acordar cedo, observar o mundo despertar segundo a segundo enquanto o abismo fechava abaixo dos pés chatos que tanto odiava.
Aquela calmaria matutina era o único pedacinho de sua terra natal que conseguia encontrar na grande capital, além dele, é claro. Aliás, mais uma vez, a noite em claro materializava-se nas olheiras profundas da garota. Ou devia dizer mulher? Bom, essa ainda era a pergunta que tentava responder a si mesma. De qualquer forma, não importava, a culpa seria dele.

Brigaram e como brigaram. O cartão atrasou porque ela não sabia aonde tinha enfiado o boleto, o gato fugiu porque ele esqueceu a porta aberta, o encanador não tinha ido ao andar deles de novo para ver o problema da água quente e tudo porque ela não deixou o pedido na portaria. Ela queria ter um filho, ele tinha medo de ser pai tão cedo. E depois se amaram. Um sentimento tão grande e profundo que parecia pequeno para as paredes fracas do apartamento de apenas três cômodos. Todavia, não sufocava, não emergia, permanecia fluindo como o vento, perdido nas curvas dela, no sorriso dele.

- Acordada a essa hora?

No susto, o corpinho quase despencou pelo janelão da sala. Ainda com a expressão amassada e linhas do travesseiro atravessando o rosto e o peito, ele estava ali, parado a olhar para ela, o braço apoiado acima da cabeça, na coluna que dividia cozinha e balcão do sofá e do resto, uma caneca de café quente na outra e o mesmo sorriso de moleque que a encantava em todas as vezes.

- Acho que não dormi.

Sorrindo, virou-se para ele, os cotovelos encaixados no peitoril de mármore. Era assim que sabia que o encantava: Apenas uma camisa de flanela abotoada de forma errada e qualquer roupa íntima que fosse fácil de tirar.

- Minha intenção era te cansar e não te entediar até a morte a ponto de tirar seu sono.
- Ainda dá tempo.
- Mas eu tenho que trabalhar.
- Como se você precisasse de mais do que dez minutos.

Absolutamente desafiado, ele balançou a cabeça de um lado a outro, mantendo aquele rasgo nos lábios que indicavam perigo, bem puxado para a direita. Nessas horas, se lembrava do passado e de todas as coisas ditas e não ditas, viajou nas pernas que se esbarravam uma na outra, nas mechas escuras caindo sobre o tecido ralo de sua própria camisa velha, na renda que escapava entre os botões e suspirou:

- Acho que meu chefe não vai ligar se eu me atrasar por meia ou uma hora...

Espelho.

Bato a porta do lado direito da vida, enquanto você escuta o barulho no outro canto da sala, num lugar aberto, o lado esquerdo da vida. Quando você saiu para caminhar, eu senti a brisa suave do outono passado, o aroma delicado de folhas secas destruindo as pequenas veias de minhas narinas. E enquanto eu escovava os dentes, você sentia o sabor estranho de menta espumada, de um jeito tão forte, que era como se existissem vários tridents na boca. Não, ninguém está maluco aqui, isso é apenas empatia. Sua mente está comigo, e eu uso ela como quiser, assim como você molda o meu corpo a seu bel-prazer. Assim foi, durante todo o dia, a tarde, a noite. Se um usasse um perfume, o outro sentia o cheiro. Se o outro tomasse banho, sentia a mão ensaboada do outro a lhe deslizar o corpo, e quando o frio bateu, os corpos inanimados padeciam, mas os corações teimavam em se aquecer. Até que num aneurisma temporal, eis que nossos personagens estranhos decidiram olhar no espelho.
Se viram. Sorriram. E dormiram.