"Sinto uma respiração quente e fraca batendo em meus ombros. Instintivamente virei minha cabeça para trás, tentando entender o que acontecia. Fui dominado por uma visão catastrófica que passou em minha cabeça numa fração de segundos. Vi o que não devia ver. Balancei a cabeça e enfim: Nada aconteceu."
Em casa, caído e ajoelhado, rezei um pai-nosso pedindo por salvação. Acabava de pecar contra Deus, contra mim mesmo, contra a humanidade. Era fácil eliminar o que estava dando errado, aliás muito divertido. Se não encaixava, simples, eu removia. É essa a graça de ser um padre amaldiçoado.
Do alto do meu apartamento, ouvi uma senhora gritar lá embaixo. Corri pelas escadas enquanto ajeitava meu terno. Uma mulher se retorcia pelo chão com os olhos esbugalhados, queimando em chamas vivas. Seus olhos aliás derretiam. Tirando um crucifixo do paletó recém posto, gritei:
- Leve daqui todos os seus pecados, originais ou os do tipo comprados em lojas de souvenirs.
Nada aconteceu. O calibre do crucifixo não era grande o suficiente hoje.
- Você sabe quem sou eu, o que eu represento? Reflita a minha existência, maldito demônio!
Não havia jeito. Ele não ouvia, não respondia. Eu, um homem respeitado por décadas como o melhor exorcista, estava sendo totalmente ignorado por uma existência profana. Não poderia culpar ninguém também, afinal, vivemos num mundo em que matamos nossos próprios anjos, tornando o imperdoável em cetim creme completamente tolerável.
Havia um dilema ali: Eu tentaria ir até o fim ou deixaria a pobre velha perecer na frente de tantas pessoas assustadas?
E eu acabei por tomar a decisão que qualquer padre exorcista gabaritado e velho tomaria:
Fui até o bar e tomei uma bela dose de whisky, sem gelo.
Foi neste exato momento que senti a respiração em meus ombros. Seria o Diabo em pessoa querendo me levar pro inferno?
Não, hoje não. Ainda não.
A mulher já estava irreconhecível, e quando cheguei perto dela, ela levantou do chão sem flexionar nenhum membro (talvez a vontade-mor do demônio fosse fugir, ou atacar, não sei) e dali parou, prostrada no meio da calçada desgastada. Olhou em meus olhos, com aquelas chamas que em nada lembravam um olhar. Três passos separavam minhas mãos do rosto dela, e esses três passos foram dados para que sorrateiramente eu encaixasse minhas mãos em sua mandíbula. Em seguida, o urro, a dor, o medo. Era o medo de estar confrontando novamente o velho guerreiro, a onça que nunca deveria ter sido cutucada. Já era tarde da noite, as poucas pessoas em volta somadas, não davam o número de janelas com luzes ligadas, com pessoas apurrinhadas com aquela barulheira demoníaca.
Gritei meia dúzia de palavras em latim, como se fosse adiantar algo. Abri minha bíblia de bolso, recitei versos apocalípticos, joguei sal, cuspi em sua cara. Nada.
Nada surtia efeito, mas aquela alma maldita, por algum motivo, sentia medo de mim.
Então, instintivamente, decidi fazer o que acabara de sentir: Prostei-me em seus ombros, senti seu cheiro de enxofre e enfim fiquei cara-a-cara, nariz-a-nariz com ela. Olhei bem lá dentro, mesmo com meus olhos ardendo em brasa. Enxerguei naquela escuridão, um anjo caído rezando por liberdade, pedindo por força divina para o abençoar. Clamando pelo bem dos céus, ou pela destruição dos céus. E era naquela vida, na vida de uma velha destruída, que testaria o poder que lhe libertaria...
Desfoquei de seus olhos, larguei seu rosto. Olhei para os céus e tentei entender qual o real motivo de tanto sofrimento no mundo. Uma única lágrima rolou, caindo diretamente no meu sapato de camurça, surrado.
Enfim, balbuciei uma frase sem nexo:
"O senhor é uma farsa, e a todos faltará.".
E o espírito enfim saiu da mulher.
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