10/10/2013

É José.

Os dias nasciam monótonos, as noites caíam frias. Todos os dias eram de sentimentos vazios, e as noites elas se preenchiam com falsas esperanças. Afinal, já era de algum tempo que amor não significava nada.
Nada não por menosprezo, mas sim por medo. E medo de amar é pior do que de morrer.
Aquilo que o levou pra vala, que o deixou doente, que o fez se tornar aquilo que vangloriava-se de não ser. Era um ser que vive pra noite, que experimenta o sabor forte desse coquetel de luxúria e volúpia. Tinha medo também dessa vida, mas menos, bem menos. Preferia acordar entre os pedaços de pizza a estar nos braços de um novo romance, pintado de forma esparramada, quase que torto por obrigação. Não. Não era de amor que ele precisava, era de súplicas. Ele queria a atenção do mundo para a sua pobre desilusão, coitado.
Pobre coitado mesmo, ninguém disse que a vida seria fácil, José.
E não foi.
As dores tomavam cada vez mais conta da sua vida. Físicas e sentimentais, nada mais importava. Dor já era passional. Alguns blefes apareciam, clamavam sua atenção. Ele levantava os olhos por cima do horizonte, mas não enxergava futuros, talvez presentes, mas nunca algo necessário para olhar para trás e ver seu passado se apagar. Ele gostava do estrago, da maldição, da vida imaginária de bad boy, com seus alargadores e seus planos para tatuagens, do seu cigarro mata rato e seu vício invasivo por remédios controlados. Aquilo era vida, era a forma perfeita de se sentir útil num mar de inutilidade, para um bando de inúteis que também sofriam do mesmo mal, o de amores fracassados, e olhe só como a vida une os semelhantes! Pena, muitas vezes também os corrompem.
Por algumas vezes tentou abrir seu coração, sua mente, ou qualquer coisa que o valesse, só pra ver se era possível ser feliz. Era, era possível, mas não o suficiente. Ele não queria um amor pra recordar apenas, ele queria uma felicidade pro canto da boca, pro fio dos cabelos da perna, um amor pra aquecer seus pés e incentivador para a jornada que era curar-se de seus vícios. Um amor para alisar seus cabelos e dizer: Você é o cara. Mas não, ele não era o cara. Era professor, mauricinho, pobre, fraco, forte, estranho, normal. Um mero aprendizado para todas por que passava, um sentimento oco que por vezes era bradado como amor só para não fazer mal a quem era interlocutor nessa história toda.
E José, do alto disso tudo, só observava. Maldito era ele por se auto-amaldiçoar, por querer estar lá, por adorar esse maldito estrago que lhe sorvia todo o bem e só lhe entregava o mal.
Não culpemos José. Ele já estava no fundo do poço que jamais quisestes chegar. Era o homem de uma noite só, a maldição de inúmeras meninas que se apaixonavam e não eram correspondidas. Podre por dentro e por fora também. E sempre sorrindo, ele fingia. Adorava ser a marionete do mundo que se representava muito bem com seus blocos de euforias sodomizadas.
E não havia tempo de brincar de ser feliz. Não havia sequer necessidade. Talvez vontade.
Houve um breve instante em que perseguiu isso. Quis tomar um jeito, se enveredar para o lado certo do que achava certo de verdade. Não bastou, e não por ser pouco, e sim por simplesmente não ser, não querer, não necessitar exatamente do que lhe fora oferecido em bandeja de prata.
Ai se fechou de vez. Morreu pra vida, e para a morte também.
Tomou seu último porre, fez a sua última oração, fumou seu último cigarro e limpou o seu interior. Enfim acordou novamente, agora em um quarto limpo. Bateu a poeira do rosto e decidiu que não se doaria a mais ninguém facilmente, e deu a cara a tapa pra esse Deus que só faz sofrer. E meus amigos, José conseguiu.
O curso das águas o trouxe para o topo do morro, quase morto de medo de dar um pequeno passo para a humanidade, mas um grande passo para um homem. E ele, até ali uma prova viva de fraqueza, se tornara um pedaço forte. Agora, já velho, fodido e cheio de maldições nas costas, enfim aprendia a viver.
E como era correto? Não sabia. Só sentia.
Sua afobação pelo certo quase tirou de suas mãos o presente mais valioso que já havia encontrado. E esse hiato de felicidade na sua vida trouxe pra si a tal liberdade em perceber de fato, que felicidade de verdade era estar amarrado com corda invisível no coração da pessoa amada.
Enfim, uma amada. Sem confissões ou popularidade. Apenas sua amada.
É José, você venceu na vida.

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