22/06/2013

O Aparador de Pipas.

Joãozinho era um garoto muito serelepe. Corria e brincava todos os dias apos a escola pelos becos da favela. De cima de sua laje, via lá embaixo um mundo totalmente diferente do que presenciava lá em cima. Não sentia inveja dos que estavam lá embaixo, mas se indagava pelos motivos para não se misturarem. De segunda a sexta, a velha camisa branca desbotada do colégio municipal dava espaço a um peito nu cheio de cicatrizes visíveis. O céu era seu limite, e sim, falo literalmente. Do alto de seu imponente império, empinava as vezes sua pipa de estimação. Tinha ciumes dela. Era a sua velha pipa do Flamengo, com rabiola de fitas pretas e vermelhas, que sua mãe havia ajudado a confeccionar. O muleque era bom. Com cerol na linha, sempre cortava os "meninos ricos" do mundo lá de baixo, e volta e meia aparava uma infinidade de pipas. Como disse, era só as vezes que sua pipa dava o ar da graça pelos céus do Rio de Janeiro. Havia uma história por trás dela: Sua mãe havia morrido dias depois de ajudar ele a fazer sua pipa, e Joãozinho, ainda com seus 7 anos, nunca mais esqueceria do último gesto de ternura que sua mãe lhe proporcionou antes de partir. Era como se aquela pipa tivesse sido enviada dos céus, e levantar ela era o máximo que podia fazer para chegar o mais próximo da sua mãe. Em dias normais, ele empinaria qualquer uma das pipas que sempre aparava, mas quando a saudade doía, lá estava a pipa do Flamengo, imponente, e todos nas ruas próximas sabiam: Joãozinho pintou na área. Naquele amor pela mãe, não deixava sua pipa por nada, e com toda a sua habilidade, já se passava muito tempo desde que ninguém vencia ele. Toda remendada, cada vez mais maltratada pelo tempo, ele se orgulhava mais do durex colando o papel do que da cicatriz no peito de quando se rasgou no vergalhão pra correr atrás de pipa. Mas não dava pra atrasar o tempo. Ele sabia que não podia guardar a pipa para sempre, pois pipas foram feitas para ficar no céu, assim como sabia que, eventualmente ela partiria. E sua invencibilidade acabou. Ele assistiu calmamente sua pipa partir sozinha, sem que nenhum dos seus inimigos ricos do mundo exterior tivessem tido algo a ver. Era apenas o destino. Derrotado pelo destino. Sua bela pipa voava para bem longe, rumo a sabe Deus pra onde. Será que voava rumo a terra proibida? Ou talvez para a lagoa lá próxima? Um valão? A casa do vizinho de rua? Nunca soube. Com uma lágrima no rosto aparada pelo vento, Joãozinho disse adeus. Demorou para se acostumar, mas Joãozinho aprendeu a viver sem elas. Sem sua mãe, e sem sua pipa. Essa nunca foi uma história sobre o menino pobre do morro e suas mazelas oriundas dos problemas sociais, nem tampouco da mãe que morreu vítima da AIDS. É apenas uma lição simples que Joãozinho aprendeu desde cedo: A vida continua.

4 comentários:

  1. Joãozinho logo vai ver que haverá outras pessoas, outros rostos, outros tipos de carinho e muitas outras pipas pra empinar e soltar no céu. De fato, a vida continua.

    Que texto lindo. *-*

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  2. É difícil escrever um comentário para esse texto. Você já sabe que eu adorei e eu nem precisaria dizer. Então, não vou elogiar o texto. Vou elogiar você, por ter essa sensibilidade tão preciosa, de poder ver a simplicidade da vida com tanto carinho. E por poder transformar uma história triste em uma lição que nos faz sentir melhores. Obrigada pelo texto.

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  3. hehhehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehehe

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