18/06/2013

Chiclet's

Era um rosto pálido que brotava nas memórias. Talvez fruto de um programa de edição de imagens muito bem usado, ou talvez apenas a palidez de sofrimentos passados, mas estava lá ela. Linda e esbelta, com seus cabelos negros e roupas casuais, pronta para o próximo round. Pronta para que alguém tomasse o assalto para si, esperando tal como se esperasse um ônibus muito atrasado. Estava ela, com olhos vívidos, talvez a única figura realmente animadora naquele rosto tão surrado pelas bagagens da vida, e não era como se ela aparentasse ter 50 anos. Não não, ela era linda e, provavelmente, não haveria de se retocar nada ali, mas ainda sim, havia algo de errado. Uma morena de papo ávido, cheia de informações úteis misturadas com a futilidade doce do dia-a-dia que não cabe a ninguém julgar. Não era possível enxergar o seu sorriso, mas em minha mente ele se apresentava lindamente, como se fossem vários tabletes de chiclet's, um ao lado do outro, sincronizados e brancos, tal como deveriam ser. Ela implorava pelo meu perdão, sendo que não havia o que se perdoar. E queria minha mão para lhe massagear o ego maltratado. Era noite e ela talvez quisesse o dia, só que o dia custava a lhe aparecer. Dia que nunca apareceu, afinal. Como num toque de recolher, a sirene soou, e ela bateu em retirada. Levou consigo as memórias póstumas de algo que nunca aconteceu. Era agora eu a lhe adicionar bagagem extra, talvez apenas uma camisa surrada a mais em sua mala, mas lá estava eu, misturado junto dos arpões, da máscara de mergulho e da calçada de pedrinhas que eu nunca conheci. Talvez em outra dimensão, num dejávù perdido por ai, eu estivesse agora a lhe apresentar um mundo totalmente diferente. Mas, por ter optado pelo aleatório, hoje tudo que levo dela é o sorriso de chiclet's que eu nunca vi.

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