14/09/2012

Faces Ocultas.

Meu novo jogo é acreditar no que ninguém acredita. De longe aonde estou, escuto as palmas. Meu discurso aqui é nobre e aceitável, afinal, sou o típico homem que todos querem ouvir. Na plateia, senhoras e senhores sem faces. Todos idênticos e eufóricos a aplaudir. Aliás, o único som que eles produzem é o de suas palmas irritantes. No mais, esse palco vazio com moscas e eu. A personificação da perfeição num mundo em que ninguém vê, ouve e fala. O intangível inexistente. A escassez de ousadia cria uma população sem graça. A cada "clap" que ouço, sinto náuseas. É assim que vejo o mundo. Um eterno caldeirão de pessoas sem face. E logo eu, aqui no palco, declamando o discurso do bom samaritano. Logo eu, errôneo terráqueo, que mais tem defeitos que qualidades. O poeta sem criatividade. O pianista sem melodia. O desenhista sem papel. Logo eu... aqui no palco! Não entendo mais essas faces ocultas. O mundo parecia aceitável quando lia os livros de outrora, mas tudo que eu vejo hoje, são corpos humanóides sem faces, e ter o mínimo de qualidade no meio deles, te torna o melhor orador de todos os tempos. Não precisamos de novos poetas, pianistas e desenhistas. Precisamos é de novas faces.

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