17/11/2022

Sente.

Tem gente que sente e tem gente que não sente.
Tem gente que finge que sente pra não ter que sentir.
Tem gente que se sente no direito de ignorar o que o outro sente.
Tem gente que nem sente o que há de se sentir.
Tem gente que ao sentir, não sente.
Tem gente que não sentindo, sente demais.
Tem gente que tem a cara de pau de falar que sente.
Tem gente que não sente quando se senta.
Tem gente que sente.
Tem gente que não sente.

Quando você vai parar de fingir que sente?

21/10/2022

Querida solidão.

Querida solidão.
Credito a você meus mais íntimos pensamentos.
Rodeado de pessoas, me sinto sozinho.
Bêbado ou sóbrio, as vezes não há ninguém ali.
Não há nada em que confiar?

Querida solidão.
Lembro de quando não era assim.
Eu não te conhecia, eu não sabia quem era.
Haviam sorrisos, braços e bocas.
A paz que não volta mais.

Querida solidão.
Quando você surgiu?
De onde veio? Pra onde vai?
Ficará comigo pra sempre?
É um casamento sem divisão de bens?

Querida solidão.
Eu não esqueço que jamais me senti feliz.
Mas com você tudo parece mais deslocado.
As vezes sou puxado da escuridão.
Mas as vezes cá está você, solidão.

Querida solidão.
Eu não gosto de você.
Sei que alguns prezam por mim.
E sei que alguns merecem minha confiança.
Uma hora eu te derroto.

Querida solidão.
Na moral, meu pau na sua mão.

27/08/2022

Corpo.

Meus olhos ardem
E não veem
Ou que quer que seja
Que eles não creem.

Meu pulso pulsa
Um imenso rancor
Do mais puro sangue
Que move meu motor.

O cérebro pensa
E maquina sem parar
Pensamentos pútridos
Que só querem voar.

Enfim o coração bombeia
Uma dor insuportável
Sem entender o porque
Eu sou tão amável.


23/08/2022

Cama.

Nunca fui de deixar coisas na minha cama.
Roupas, toalhas, mochilas, bolsas e bolsos.
Sempre gostei dela impecável, com lençol e tudo.
Sem amassos, sem vincos, sem dobras.
Plena a me esperar, pra que eu a bagunce.
Pra que eu a faça minha.
Alguém tem que ser minha, não é mesmo?
Nem que seja a tão desejada cama.
Cama.
Onde deixo meus sonhos viverem.
Meus pesadelos me comerem.
Em sonecas, os mais profundos caldeirões.
E em algumas noites, o abraço da insônia.
Sempre encarei este como um dos meus ambientes mais particulares.
Seja como for, eu estava sempre ali.
Nu. Vestido. Febril. Esfomeado. Deprimido.
É minha zona final, o meu checkpoint.
A volta antes do próximo round.
O meu habitat. Minha zona de conforto.
Abraçado a meus travesseiros.
Sentindo. Desejando.
Tudo no dia seguinte volta a estaca zero.
E zero a vida antes do próximo dia.
Alguns corpos passaram por esse seu corpo.
Esguios, esbeltos e dispersos.
Meu próprio corpo mudou ali.

Nunca fui de deixar coisas na minha cama.
Mas algo mudou.
Você esteve ali comigo.
Eu senti seu cheiro.
Eu possuí seu corpo.
E gostei desse seu gosto.
Agora eu quero ela desarrumada.
Quero suas roupas em cima dela.
E do lado também.
Eu quero você, morena.
No meu habitat.
No meu lugar mais íntimo.
Na minha cama.

18/08/2022

Perdoar é uma dádiva.

Passional.
Meio neanderthal.
Um pouco de etc e tal.

Uau.

Quem imaginaria que dois adultos são capazes de se perdoar?
De lembrarem que não adianta se enganar
De que um dia já foram um par.

Ar.

Obrigado por encontrar a força
Pra pedir perdão, moça.
Vou rimar com poça?

Massa!

Enfim posso aposentar a atriz
Que um dia me fez assoar o nariz
E chorar que nem um chafariz.

Sem mais Bellatrix.

02/08/2022

De novo.

Eu quero beijar sua boca de novo.
Segurar sua cintura, trazer você pra perto e sentir o seu calor.
Respirar o seu cheiro, tatear a sua pele, engolir a sua presença.

Eu quero beijar sua boca de novo.
Sentir o seu corpo quente e o pulsar do seu peito.
Lamber cada parte de você de todas as formas que quiser.

Eu quero beijar sua boca de novo.
Desejando desbravar esse mar de curvas que seu corpo faz.
Pecando a cada instante como um erro que eu quero amar errar.

Eu quero beijar sua boca de novo.
E te degustar enquanto rebola na minha cara.
Nua, livre e leve só pra mim.

Eu quero beijar sua boca de novo.
E te fazer minha.

31/03/2022

Lua Cheia.

Efemeridade.
A lua cheia é um evento tão bonito, tão único, tão singelo, tão... tão!
E mesmo assim poucas vezes a admiramos como ela merece. Mas por quê?
Vida atribulada, problemas na caixoleta, cansaço, tristeza, parece que a gente precisa casar nosso tempo com o da lua para ter um "encontro perfeito". E o que é esse encontro perfeito?
Sei lá.
Eu não via a lua cheia a pelo menos uns bons 5 anos. Ou pelo menos não reparava no esplendor dela dizendo "ei humano, me olhe!".
Logo eu, que já fiz das caminhadas ao pôr-do-sol uma rotina pra recobrar a felicidade, de repente me vi estagnado, sem tanto fazer o que sempre amei: Reparar nos pequenos detalhes.
A lua cheia é só uma desculpa para escrever sobre isso: Como que perdemos cada dia mais nossas identidades e viramos massa.
A cada decepção, um pedacinho de nós vai embora, e quando nos damos conta, viramos apenas um adulto chato, boring mesmo, daqueles que quando você tinha 14 anos diria "nossa eu nunca vou ser assim, meu quarto vai ter vários posters das bandas que eu gosto, um monte de action figures expostas nas paredes e um grande banner do Vasco no meio de tudo".
Não tem nada disso, tem glamour nenhum. A gente passa a achar que tudo isso é piegas, coisa de adolescente. Perdemos muito quando envelhecemos.

Voltemos à lua. Ela fica cheia todo mês pra abraçar o mar e, mesmo assim, a gente pouco liga para ela. Contas vencidas à pagar, grita nosso cérebro, teimando em parar por um instante que seja para voltar a ser um humano.
Mas enfim, estou dando voltas e voltas para dizer que a 2 semanas atrás eu admirei essa magnífica lua. Eu estava sentado no bar na beira da lagoa, local muito bonito inclusive. Tomei alguns chopps, conversei, brinquei, ri. Ri de mim mesmo, ri dos outros, me alegrei como fazia tempo que não o fazia. Eu vivi, depois de mais de 2 anos de pandemia me surrando. Surras de todos os tipos. Me tornei quase o homem das cavernas e perdi muita coisa. Perdi pessoas, perdi sentimentos, perdi alegrias, perdi a mim mesmo.
Ali, naquele lugarzinho besta, eu estava me reencontrando. Percebendo que eu não preciso de migalhas, eu preciso de mim mesmo.
E no fim desse dia a lua apareceu. Belíssima e efêmera, e por isso comecei o texto falando da efemeridade. Não durou nem 1 hora essa imponência, mas foi muito bem aproveitada. Sentei com minha última caneca de chopp, a olhei e senti até um pouco meus olhos marejarem, e não era a maresia, era um sentimento de nostalgia. Não de um momento que eu vivi, mas de uma vida que eu já tive. Eu me senti mais humano, mais terreno, mais espiritual, sei lá. Eu poderia ficar horas tentando explicar esses sentimentos, mas o que eu tenho para explicar? Foi sinérgico (talvez isso explique).
A questão é que quando eu olhei a lua eu pensei em algo. Eu sorri, achei que era impossível, mas eu não lembrava mais o que era ver a lua tão bonita, não é mesmo?
E agora eu acho que é possível.

27/02/2022

Estar preso em vários passados é estar prisioneiro do tempo, que passa, passa mas nunca passa.
E os pesos nas pernas, a falta de ímpeto para lutar, tudo perde a graça.
Cinza, feio, velho.
Nada mais faz sentido e cada dia mais tudo perde o sentido.
Nem sei mais o que eu tô fazendo aqui.
Mas ainda tô.

12/02/2022

Cravado na eternidade.

São anos a fio
Dessa escrota maldição
Seu maldito rosto
Cravado em meu coração.

O mesmo sorriso
Queimando em seus lábios
Despertando em mim
Os mais intensos distúrbios.

Me deixando chapado
Nesse intenso torpor
Desejando seu corpo nu
Sem ninguém para se opor.

É a última semana
De uma intensa vida
Deixo aqui gravado então:
Você foi a minha escolhida.

02/01/2022

Década.

Eram 18h em ponto quando eu a avistei saltando daquele ônibus caindo aos pedaços. Um logotipo enorme que brilhava no chassi da condução não mentia. Não que aquilo fosse importante.

- Desculpa o atraso, é sempre uma porcaria pegar ônibus para cá.
- Tudo bem, eu também tenho dificuldade de vir pra cá. Pelo menos é o melhor ponto para nós dois nos encontrarmos, né? Senão nunca aconteceria.
- É verdade...

Ela deu uma risada gostosa depois de falar isso, e tudo o que eu sentia era vontade de beijar aquela boca maravilhosamente desenhada e esculpida pelos deuses mais sacanas do olimpo. Apolo e Atena se esbarrando criaram você? Que coisa mais poética.

- Vamos então? Para onde você vai me levar?
- Não faço ideia, eu nem conheço muito a cidade. Você conhece?
- Hahaha eu conheço um pouco mais que você, bobinho. Vamos comer alguma coisa.

Você me pegou pelas mãos tal como uma mãe preocupada em atravessar o filho na pista. Não era com a mesma intenção, mas a sensação de proteção era a mesma, e eu sabia que ela de certa forma, realmente se importava comigo. Mas ao me atravessar para o outro lado, não soltou minha mão. Pelo contrário, eu diria que a apertou para que eu não lhe escapasse por entre os dedos.

- Calma mãinha, eu não vou fugir!
- Você foge de mim a quase uma década, acha mesmo que eu vou deixar você ir agora?
- Nem deve!

Mais risos despreocupados que emanavam no meio daquela rua velha e suja, meio que iluminando uma paisagem cinza e opaca. Como um cintilante de felicidade que corrói a podridão da velha cidade de propósito.

Logo que me dei por conta, estava tomando um café quente com ela. Eu não cansava de olhar aquela boca dela, me perguntando quanto mais eu deveria esperar para beijá-la. Não sou adepto dos romances de cinema nem tampouco dos contos literários, então estava perdido no timing perfeito.

- Pode ser agora.

Eu engasguei. Ela estava lendo minha mente?

- Agora o que? - Falei com a mão meio trêmula de ansiedade.
- Agora bobo, pode começar a falar da sua vida!

Olhei no fundo dos olhos dela e me acalmei novamente. Falar sobre minha vida? Minha vida era dela e ela nem sabia.

- Ah, você já sabe dela.
- Sei mesmo? Eu te conheço a anos mas nunca conseguimos conversar pessoalmente o suficiente para que eu soubesse de tudo o que quero saber sobre você.
- Eu sou meio caladão, né?
- Eu diria que meio idiota. Não calma, não no mal sentido, mas você é muito bobão, né?
- Um pouco, talvez...
- Talvez? Você até agora não tomou nem a iniciativa de beijar o amor da sua vida, e eu já estou na sua frente a mais de uma hora.

Eu realmente engasguei com o café.

- Eu estava esperando o momento perfeito.
- O momento perfeito foi a 10 anos atrás. Você está atrasado a pelo menos uma década, não acha?
- Botando dessa forma realmente...
- Hahahah eu estou brincando com você. Ou será que não? Você sempre parece tenso demais, para de pensar e só fala o que pensa.
- Mas o que eu penso você sabe.
- O que eu sei? Eu não sei de nada, você não fala sobre nada.
- Você sabe que eu te amo dentro dessa carcaça velha a anos.

Ela ficou me encarando com um certo ar de dúvida.

- Ah, disso eu já sei. Eu quero dizer... sobre outras coisas.
- Que coisas?
- Ah cara, porquê você me ama? Não é uma pergunta mais interessante?

Agora foi a minha vez de virar a cabeça como um cachorro que não entende do que o dono fala.

- Sério, tantos anos e a gente nunca nem deu um beijo sequer. A gente existe no subconsciente um do outro mas... porquê você me ama?
- Acho que você é o meu constructo ideal. Tipo a mulher perfeita.
- Tá, mas de perfeita eu não tenho nada e você mesmo sabe disso.
- Eu sei. Deixa eu reformular.
- Ok, estou esperando.

Ela pegou a xícara dela com as duas mãos e levou ela até a boca enquanto me fitava sem nenhum pudor.

- Eu conheço você inteiramente e sei de todos os seus defeitos, e é por eles que eu me apaixonei.
- Hã?
- É muito fácil a gente se apaixonar pelas qualidades dos outros. Veja, eu sei que você é amorosa, inteligente, bonita e engraçada. São qualidades muito gostosas. Mas você é ciumenta, impulsiva, piegas e estranha.
- Estranha? Mas que diabo você quer dizer com isso?
- Ah, eu conheci você quando você era emo, fala sério! Isso é estranho!
- Hahahaha para de besteira... ok, eu concordo com você.
- Viu só?
- E você gosta disso?
- Eu gosto de tudo em você. Seria tão fácil amar o seu lado bom, mas são as nuances dos seus defeitos que lhe fazem perfeita para mim.
- E porquê acha isso?
- Porque essa sua loucura contida combina com a minha.

Eu peguei um pão de queijo e comecei a mastigar de forma estranha.

- Isso está borrachudo demais.
- É, eu não gostei do pão daqui não. Quer ir para outro lugar?
- Ah, ok.

Ela se emudeceu por um tempo, basicamente só reagindo a meus estímulos verbais. Parecia pensativa com o que eu falei, mas não o suficiente para parecer de fato incomodada. Apenas pensativa, franzindo aquela testa maravilhosa.

- Olha como aqui é bonito! Eu acho esse local maravilhoso para pensar.
- Realmente é muito bonito, tão bonito quanto seu sorriso de Tridents.
- Eu ainda me lembro de quando você falou isso a primeira vez, sabia?
- Me espantaria se n...

Fui subitamente pego por um beijo totalmente aleatório.

- não soubesse...
- Desculpa, mas você é muito lento, se eu não te beijasse eu acho que a gente iria embora sem você saber se minha boca tem gosto de chiclete mesmo hahahahaha
- Eu... deixa eu ver se tem gosto mesmo, não de pra perceber na primeira vez.

Nos beijamos de forma bem intensa da segunda vez, como se o tempo passasse nas nossas cabeças e nos chamasse de grandes idiotas por termos esperado uma eternidade para tomarmos essa iniciativa. E quanto mais eu a beijava, mais eu percebia que realmente fui feito para aquela mulher, em todos os sentidos: carne, osso, espírito, mente, tudo. Tudo meu era dela e ela sabia disso.

- Garoto, calma, a gente está na rua. É noite mas tem gente passando por aqui.
- Mas eu nem fiz nada!
- E essa mão na minha bunda é o que?

Ela pegou minha mão e tirou da bunda dela.

- Desculpa hahahaha

Rapidamente, ela pegou a mesma mão e botou de novo na bunda dela.

- Agora sim.
- Mas tá do mesmo jeito que estava antes.
- Shhh, eu estou certa!

Ficamos ali, como dois adolescentes que se esfregam de tesão sem saber direito ainda o que é sexo. Parecíamos dois iniciantes presos num torpor de sandices. Como dois apaixonados que se reencontram após anos sem saber de verdade o que era estar com alguém de quem realmente gosta.

- Sente o meu coração. Tá no mesmo ritmo do seu!

Ela sorria de uma forma tão gostosa...

- Eu te amo, garota.
- Eu também te amo, seu idiota. Não me deixa ir embora.

Naquele instante, eu percebi que eu teria que ir embora, eventualmente, e aquilo me deixou triste. Não por que seria impossível vê-la de novo, mas por que eu sentia medo de que tudo aquilo fosse apenas uma construção idealística da minha perversa mente.

- Você realmente é idiota e vai me deixar ir embora, né?
- Eu não quero que você vá, não agora. Não agora, depois de tudo que passamos...

Ela me olhou calmamente, pegou minhas mãos e disse:

- Eu não estou aqui, mas poderia estar. Eu não estou na sua frente, mas sempre estive dentro de você. Eu não estou sequer lhe tocando, mas sempre lhe tocarei. Eu sou sua dona e você é meu dono.

E então mais uma vez eu acordei. Sem você. Mas por acaso, mais uma vez também, eu sabia que tinha você. Só não sabia como.