29/06/2015

O Menino que Vendia Sonhos.

Não precisa ter pressa, podem ficar à vontade.
Irei contar agora para vocês a história de um menino, um menino que sempre fora ambicioso, mas que se perdeu ao ver o céu se contorcer.
Parte dessa história se perdeu no mundo. Páginas foram destruídas, queimadas e rasgadas. Tudo que se sabe é contado em lendas.
Essa é a história do menino que acordou dentro de seus sonhos, e descobriu que podia lançar eles aos outros. Essa é a história do menino que vendia sonhos. Um menino travesso, cheio de vida pulsando nos dedos e nenhuma história própria para contar.
Nasceu de um repolho, sem pai nem mãe. Cresceu sem comer, não se sabe como chegou até ali.
Nas ruas, qualquer papelão era seu cobertor. Aquecia não só seu corpo frágil como seu coração alado.
Tinha fome, mas não de comida. Ele queria saber o que o mundo poderia lhe dar. Fama, sucesso, felicidade, ou apenas a verdade. Sim, nossa criança juvenil tinha grande apreço pela verdade.
E com esse grande apreço, eis que ele correu atrás. Saiu maltrapilho, encontrou uma luz. Viu pessoas bem vestidas, e começou a enxergar as trevas.
Todo mundo precisa de sonhos, dizia ele. Todo mundo precisa de um motivo para viver.
Então, com sua caixinha de engraxate, ele começou a trabalhar e questionar seus clientes. Um por um, lhe entregavam uma moeda pelo trabalho bem feito e outra moeda pelo bom papo.
Em pouco tempo, nossa criança já vendia mais os sonhos do que as pretas engraxadas.
Nosso herói então começou a pensar em medidas para melhorar seu empreendimento. Anotava em papéis tudo o que pensava, o que ouvia e o que lia por ai. Alfabetizado por necessidade, descobriu que todos os dons que lhe foram fornecidos, lhe foram dados por profetismo.
Não era Maomé, João, José nem Jesus. Era só o garoto fedido da camisa marrom velha e engraxate de rodoviária, vendedor de sonhos alheios para quem lhe fosse alheio ao sofrimento estampado.
Já não lhe procuravam mais pelos seus dotes de engraxante. Agora, ele era o incrível vendedor de sonhos. Em sua barraquinha invisível, distribuía os sorrisos que não enxergavam antes. A cada saída de ônibus, ao menos alguém pararia ali para entender a vida e lhe jogar uma moeda.
Sua ideia ganhou grandes contornos no passar do tempo. Nosso menino cresceu, virou uma lenda. Cartomante, mago, profeta... Ninguém sabia dizer, mas para cada sonho vendido, ele dava a certeza de que ele seria realizado. E sempre foi.
Exceto os sonhos dele.
Lembram-se que ele só queria a verdade do mundo? Nunca achou. Em casa de ferreiro, o espeto é de pau.
No final das contas, ele sumiu na névoa da noite mal dormida. Para onde foi? Ninguém sabe.
Uns dizem que ele enlouqueceu, outros que morreu debaixo de uma ponte em Londres. O que eu lhes posso assegurar, é que nada lhe trouxe mais amargor a vida do que prender em seu frágil coração, os nobres sonhos românticos de uma infância passada.

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