26/03/2014

Tarde no Parque.

Bocejo da tarde, me aguarde, dia que arde.
Olhos lacrimejantes, brilho de diamante, senhor almirante de escada rolante. Vamos adiante. 
Levantando sem ânimo, procurando meu sinônimo, ó Deus magnânimo.
Procuro no horizonte, aquela que me confronte e me desmonte feito um rinoceronte debaixo da ponte.
Ó céus, o que trazes para mim? Um belo par de mocassim ou um saquinho de amendoim? Talvez um sim.
Faço sinal para o ônibus, que parecia fugir de urubus e seus vindouros tabus feitos de alcaçuz.
Procuro um banco com pichações, pois acho graça das provocações sem provações, sem precauções.
Não demorou muito e peguei no sono, sonhando ser um epígono que viaja atrás de seu ronrono. Mas não me apaixono.
E depois de passarem dois pontos, olho para todos aqueles rostos e esqueço de todos os boatos. De todos os atos.
Caminho de volta até meu destino, maldito cretino que quase consome meu desejo vespertino.
No parque eu chego, querendo um aconchego que sirva de descarrego para meu ego. Só consigo o desapego.
Então só me resta a tristeza da incerteza do amor que de mim só sai na afoiteza.

16/03/2014

Em Arco-íris.

Como eu fui terminar onde comecei?
O gato comeu sua língua?
Sua linha está desfeita, não tire seus olhos da bola novamente.

Eu não entendo onde foi que eu errei.
Estou cheio de buracos.
Eu não tenho ideia do que estou falando.
Eu estou preso nesse corpo e não consigo sair.
Todas as mentiras rodam ao redor do meu rosto
E se tem alguém mais para ver
Eu estou vivo! Eu previa que isso ia acontecer.

Agora que você encontrou, se foi.
Agora que você sente, não irá.
Você vai sair pra fora dos trilhos.

Eu seria louco em não seguir.
Seguir suas instruções.
Seus olhos, eles se voltam para mim.
Eu sigo para a borda da terra, e diminuo.

Você é tudo que eu preciso.
Eu estou no meio da sua foto.
Deitado nas folhas.

Acorde, acorde, saia da cama.
Amanheceu de novo, anoiteceu de novo, amanheceu de novo.
Eu te amo, mas suficiente, é suficiente.
Uma última parada, não tem um motivo real.

Leve-me com você.
Dedicado a todos vocês, todos os seres humanos.

Não quero ser seu amigo, quero ser seu amante.
Não importa como isso acaba, como isso começa.
Esqueça seu castelo de cartas que eu cuidarei do meu.

E assim que você pega na minha mão.
Assim que você anota o meu numero.
As paredes se derretem
e o seu sorriso de gato de Alice
Desfoca tudo ao seu redor.
Antes de você fugir de mim.
Antes de você se perder no barulho.
Vem e deixa rolar.

Quando eu estiver aos portões do céu,
isto estará em minha fita.
É para os dias bons, e eu tenho tudo aqui.
Não importa o que acontecerá agora,
eu não terei medo.
Pois hoje sei que terei tido
o dia mais perfeito que já vi.

11/03/2014

De volta as raízes.

Não conseguia adormecer como deveria, mas eu precisava dormir. E eu precisava muito dormir, pois ao meu lado estava você. Te ver quando abro os olhos é um presente que sequer imaginei que existiria. Olhar para aquele rostinho pueril, liberto e sonhador se tornava fantástico. Queria partilhar de cada instante acordado para te fitar, mas no fim, dormir e despertar ao seu lado era a forma perfeita de lhe dizer o quanto era aconchegante estar ali. E quando você despertou sorrindo, com aquele ar feliz que infectava todo o quarto com felicidade instantânea, eu congelei num sorriso igualmente contagiante, pois ali presenciava o seu sentimento, tão puro e tão igual ao meu.

Seria antiquado te dizer que sinto sua falta?

Pois é, sinto. A cada rosa que olhava enquanto andava pela rua, pensava em ti. E mesmo com essa dorzinha forte que se chama saudade apertando meu coração, eu andava feliz em direção a minha casa, pois cedo ou tarde eu veria você novamente. E novamente lhe daria mais um pedaço de mim, uma parte única de um grande corpo quebrado pelo tempo, que não conseguira ser consertado antes por nada. Me importo muito com seu esmero, essa sua qualidade de dar a minha pessoa um grande sorriso.

Eu sinto algo que não consigo explicar.

E não explicarei nunca. Você não explicará nunca. Mas sentiremos todos os dias que despertarmos juntos na mesma cama, ou no mesmo chão, talvez dentro do armário. Enquanto olharmos pro lado e vermos o travesseiro vazio, o aperto voltará. Mas isso só trará a certeza de que um conquistou do outro algo tão forte, que não será mais uma questão de dar de volta. Na realidade, penso em rever você, e te entregar mais um pedaço, talvez o que você mais merece, mas que teimosamente demorei por medo de me machucar.

Devo te entregar o motivo que me faz sentir falta de ti?

Não é necessário, já és dona.

07/03/2014

O Sonhador.

Acordou e tropeçou. Entrou de cabeça numa nuvem flutuante. Almofadada, caiu de cara. Levantou e se espatifou em chão frio. Caminhou e caiu novamente. Tropeçou num céu sem fim. Caiu novamente, em queda livre. Bateu de cara na água e morreu. E daí acordou. Estava na cabeça do Cristo Redentor. Chutou um balde e mergulhou na água que caía. Caiu mais uma vez, e cairia infinitas vezes ainda, até acordar novamente. Olhou para os lados e não viu nada anormal. Foi ao banheiro escovar os dentes e eles haviam sumido. Um berro que o deixou surdo, que fez seus olhos derreterem. Derreteu até o ralo, e saiu no chuveiro. Tomou banho dele mesmo. Olhou pro alto e o chuveiro sumiu. Estava vestido de fraque no meio de uma multidão enfurecida. Assim que deu o primeiro passo, ficou de ponta-cabeça. Andava no meio dos prédios de Nova York, como se o asfalto não existisse mais. E quando o King Kong o avistou, ele acordou e estava voando. Voando num pato de borracha, numa bolacha com racha. Caiu e escorregou na graxa e caiu em desgraça. Viu uma faca penetrar no seu nariz, e se afogou com o próprio sangue. Morreu e acordou de novo. Daí teve um ataque cardíaco e morreu de vez. Até acordar e ir trabalhar. E trabalhou até a morte, sem nunca sonhar.