Já na tarde da madrugada, já tão próximo do sol quente e fervoroso que iria secar o asfalto gélido. Do alto da rua vinha nosso adorável mendigo. Maltrapilho, com uma capa robusta mas surrada e sapatos em mesmo estado. Em mãos, uma garrafa qualquer, com qualquer líquido que possuísse álcool. Talvez fosse álcool inclusive. Talvez fossem apenas sonhos engarrafados.
Na esquina da perdição ele capotou. Tropeçou nos pés dos drogados e rolou rua abaixo até que as latas de lixo fizessem o barulho de um strike duvidoso. Também pudera, varias latas ficaram de pé, tamanha fraqueza daquele corpo. Sua barriga roncava, era a fome que lhe perturbava. Começavam a vir os pensamentos de outrora à sua cabeça. A mesa farta de sua casa, seus bolsos forrados com seda, confortáveis. Talheres, copos e a louça brilhosa. Nem lembrava mais quando o pai da escuridão o levou, apenas sabia que a rua era seu pertence mais valioso e sua vida era seu caminho mais doloroso.
A esquina clareava, o sol começava a brotar num céu cinzento e esfumaçado. Seu estomago ainda doía, ele queria mais. Talvez o álcool, mas ele se perdera nos sacos de lixo. E não era nem pelo medo de procurar, pois se afundar no lixo não era assustador para ele. Não, na verdade era muito mais do que apenas comer ou beber. Era se completar com alguma coisa. Néctar dos deuses ou alimento do moinho dos ventos, não sabia ao certo, mas ele queria sentir novamente o prazer de se completar.
E já sem saber para aonde olhar, no que focar e o que fazer, já farto de sua vida e com lágrimas que lhe penetravam até as entranhas, eis que surgia ofuscante junto ao sol Tinúviel. Voando cheia de graça, pousou-lhe nos ombros e lhe cochichou uma música. No início, nada daquilo fazia sentido. Depois, as notas eram de fácil entendimento para ele, que assim que as entendeu, se recompôs e entendeu que não era alimento para o corpo muito menos pro espírito que ele precisava, e sim de calma e paz para a sua cabeça surrada. Só com a cabeça no lugar é que nosso adorável mendigo poderia reaprender a sentir fome, a largar o vício e enfim, interpretar a vida como seu pertence mais valioso, e as ruas como o seu caminho mais doloroso.
Enfim partia Tinúviel rumo aos céus, assoviando. Afinal, sorrisos só foram feitos para lábios.
Perfeito! Completamente! Estou apaixonada por esse texto!
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