11/08/2013

Filho, traz o cigarro do pai que tá no quarto, por favor.

Já é de alguns anos que o dia dos pais não significa nada para mim. Esse ano mesmo, fui pego de surpresa, descobri com postagens nas redes sociais. Fotos dos pais vivos, dos que já se foram, dos heróis e dos que criaram heróis.
Eu tenho todos os motivos do mundo para odiar meu pai. Não deu praticamente nada de pensão para ajudar com meu crescimento. Depois que me mudei para Araruama, ele nunca mais me procurou. Nossas conversas foram limitadas a algumas ligações esporádicas que eu fazia para saber como ele estava. Durante muito tempo, eu sequer soube o que era pai. Minha mãe evitava falar dele, meu irmão não compartilhava o período em que ele esteve em casa e minha família materna não gosta dele, e quando falavam, falavam das suas traições, suas vigarices e seus erros. Dedos apontados na cara de quem você sequer conhece.
Mas eu só o odeio por um motivo em especial.
Aos 13 anos, tive a oportunidade de visitar ele no Rio de Janeiro. Era até então, a terceira vez que eu o veria (isso claro, desconsiderando a infância sem recordações), e a primeira vez em 5 anos, ou seja: Quem era meu pai? Ele era mesmo aquele homem cheio de defeitos que todos falavam? Não sabia se eu o odiava ou se ele era apenas indiferente para mim. Quando cheguei lá, tive um choque. Ele não se parecia em nada com as fotos que eu via dele. Gordo, careca e fumante compulsivo, seu apartamento era rodeado de peças de computador quebradas, cinzeiros abarrotados de cinzas e bombinhas de asma em cada cômodo. Roupas bagunçadas, e ele não tinha muitos móveis, exceto um sofá esburacado e um rack velho, também abarrotado de papéis sem importância. A princípio eu ficaria lá 3 dias. Só que esses 3 dias viraram 3 meses, devido a problemas que minha mãe passava aqui em Araruama. E sabem do que mais? Não houve um único dia naqueles 3 meses em que eu não tenha me divertido. Eu nem precisava de uma TV. Foram partidas de xadrez valendo sanduíches, de Elifoot 98 (jogo qual eu o viciei) e de tantos outros jogos eletrônicos. Histórias engraçadas da época em que ele viveu com minha mãe, com minha avó e com a minha irmã. Era uma outra faceta da minha família, um lado que eu nunca conheceria se eu não tivesse ficado lá tanto tempo. Até tive o convite de morar com ele, para ajudar nos meus estudos, mas eu sempre fui agarrado a minha mãe, por isso, não consegui ficar lá. As vezes me arrependo, as vezes fico feliz que não tenha ficado, mas minha raiva permanece. Meu pai é cheio de defeitos, problemas e doenças. Um cara problemático, e até certo ponto, doido. Mas ele sabia ser um pai de verdade. Dedicava seu pouco tempo pra conversar, esclarecer minhas dúvidas e me incentivava a ser alguém na vida, sem seguir seu exemplo. Confessava seu arrependimento por ter sido um péssimo pai, um péssimo esposo, um péssimo exemplo para um filho que mal conhecia. Minha raiva pai, é que você poderia ter sido meu herói, poderia ter sido uma parte importante de minha vida, um pedaço relevante de minha construção de caráter, mas você optou por se isolar do mundo (não só de seus filhos) a ter que enfrentar seus medos. Consigo imaginar sua reação ao te contar da primeira namorada, dos esporros e da rigidez na criação, assim como com meu irmão, imagino até como teria sido seu incentivo ao meu primeiro emprego. Talvez eu tivesse seguido numa faculdade... Enfim. Tudo que me resta de lembrança de ti são aqueles 3 meses de 2003, as férias mais divertidas da minha vida, e um rancor imenso por você não ter sido o pai que saberia ser. Não pai, não posso dizer que te amo, mas tenho certeza de algo: Você é o melhor pai do mundo que eu jamais tive.

Um comentário:

  1. Nem precisava falar que chorei. Obviamente, chorei. Ficou incrível esse texto. Você é uma pessoa maravilhosa por enxergar as coisas dessa forma. Tinha tudo para fazer disso uma coisa completamente negativa, mas conseguiu dar elogios. Impressionante a capacidade que você tem de ser justo. Você sabe, as pessoas as vezes correm por medo. Não por maldade. ^^

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