Em meio a ataques de aneurisma e surtos de psicodelismo, estava lá o real motivo para tanto espasmo: Ódio. Não sabia como se implantara ali, nem tampouco se iria embora, mas era real, e tal como real, lhe deixava marcas salientes na pele. Nunca havia experimentado desta nova faceta (até porque, ele nunca a quis expor), e algo lhe dizia que agora era permanente, tal como a navalhada de um estilete na mesa de madeira. Lixe, pinte, nivele. Ela sumirá, mas sumirá grande parte da mesa também.
Nas ruas cinzentas de Libertine City, ele era só mais um anjo caído, rezando a desgraça de seus fiéis seguidores. No colo, nada de ombro amigo. No céu, não havia mais refúgio, muito menos no inferno. Tampava então os ouvidos e ouvia o som oco de sua cabeça, e a mesma explodia. Uma breve olhada na poça d'agua e bom, era apenas uma sensação passageira, a cabeça ainda estava lá, para seu total descaso.
A alguns anos atrás uma bela jovem lhe chamou a atenção. Charmosa por ser, indiferente a olhos nus. Seu estilo não parecia nada anormal, suas botas também eram bem simples. Talvez o mexer dos cabelos, ou o sorriso? Não. Ela era definitivamente normal. Sorriso normal, imperfeito. O céu da sua boca resplandecia mais do que o estrelado lá do alto. Avante e adiante, seguiu então a lhe seguir. Com olhos marejados, definhava sem nem saber para onde as cinzas o levava. Um altar? Um caixão? Uma sesta de fim de tarde?
Assim se seguiram os anos. Ela envelheceu, as rugas lhe marcaram, os filhos apareceram e seu corpo padeceu. Não ascendeu aos céus, não foi vendida ao Diabo. Tudo que lhe restava eram ossos num caixão, e um buquê matinal, sempre trazido pelo seu amante espiritual. Anjo? Criatura? Criador? Nada sabia sobre si mesmo. Um espírito leviano? Ahh... como um ser não sabe daonde veio?
Frustrações inacabadas, talvez sem volta, sem porta dos fundos nem atalho. Apenas era. Um capote no ar, uma queda ao chão. O som forte de sua queda acordava multidões caídas em eterno sono, sem escapatória para ninguém. A sua força agora era a de dez mil homens furiosos, loucos ensandecidos por sexo repreendido e destruidores por ser. Ser, talvez não ser. Era a questão afinal?
A questão era que ninguém o via, e se quisesse dar cabo de si mesmo, seria inútil. No geral, seu dissabor não caracterizava qualquer dano moral, tampouco cerebral. Tudo que lhe restava eram horas e horas de pura nostalgia, pelo que nunca viveu, pelo que nunca saboreou. Aqueles olhos negros, sedentos por uma nova vida, um novo sorriso, ele nunca alcançou. E numa última tentativa frustrada, ascendeu aos céus à procura de respostas, a procura de alguém que lhe dissesse o que fazer. Ingênuo... Extinguiu sua existência já na camada de ozônio. Anjos nunca foram resistentes ao calor de um corpo, como seriam capazes de aguentar os raios de um sol? Mas afinal, ele era mesmo anjo?
Era. O anjo dela. E a cinética que era máxima, acabou variando, e aqueles dois corpos inexistentes, acabaram criando uma história que nunca existiu.
Impecável. Parabéns (f)
ResponderExcluirEra o anjo dela... Claro, e porque não?
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