O senhor sempre me pareceu ocupado. Papéis, planilhas e tudo o mais. Não estava por perto, e em minhas férias era quem eu menos via. Sabe? Eu cresci rodeado das mulheres da família, mesmo quando não estava cá em Araruama. Você, meu padrinho, era quase que uma pessoa à parte naquele universo que eu vivia em férias. Ainda assim, sempre deixando seus legados.
Eu sempre fui o patinho feio da família, né? Pobrinho, coitado. Ia pra sua casa e me deslumbrava: TV a cabo, videogame, computador, idas a shopping. Sempre voltava pra casa com algum brinquedo que ganhava no natal e algumas roupas, usadas ou não. E dormisse onde eu dormisse, sempre era divertido. Por exemplo, se eu gosto de computador, esse legado é seu. Foi na sua casa que eu descobri Elifoot, e isso tem um peso absurdo em grande parte da minha personalidade. Foi na sua casa que eu vi o Fluzão campeão do Carioca com gol do Renato de barriga. Sim, eu lembro! E também lembro do Brasil perdendo a final da Copa de 98. Assistindo naquela TV enorme que você tinha, que depois fui descobrir que era apenas uma TV de 20 polegadas. Sentado no chão, vendo você vibrar. Eu não entendia, mas criança não precisa entender futebol, ele precisa sentir. Foi na sua casa que eu virei Vasco, talvez pra seu desgosto? É, o Fluminense não me seduziu, não deviam ter caído pra Série C!
Besteiras e memórias de criança. E minha mãe não me deixou viver elas por um bom tempo, por causa de algumas birras familiares. Besteira. Hoje sinto falta. Queria ter vivido muito mais delas. Quem sabe eu não tivesse mesmo ido morar aí? Quem sabe eu não seria outra pessoa hoje?
Veja, eu gosto de quem sou, apesar de todos os memes que faço sobre mim mesmo e de dizer que me odeio, mas eu gosto de quem sou. E gosto pois eu sou um pouquinho de cada um que ajudou a moldar meu caráter.
Eu não cresci perto dos homens da família. Mas cada um deles deixou uma marca indelével. Caráter, respeito, educação, justiça. Minha primeira tentativa de faculdade foi contabilidade, e foi por inspiração em você. Oras, não era o curso que eu queria, mas se fosse pra escolher algo, que fosse algo que você pudesse se orgulhar, em algum grau.
Você me ajudou financeiramente por anos e eu nem sabia disso. Se tive material escolar, foi por que você pagava. Mochila, estojo, lápis, canetas... As vezes comida também. As vezes alguma dignidade.
Você era dono de um bigodão invejável. Grisalho desde que me dou por conta de mim mesmo. Um cara com uma puta cara de gente boa! Sentado lá tomando a cervejinha, fumando seu cigarro, uma das primeiras memórias que tenho na vida. Você largou o cigarro a tempo de viver ainda uma bela vida. E esse depoimento seu que ouvi de terceiros mexeu comigo: "eu vivi tudo o que eu quis viver, não me arrependo de nada".
Caralho tio, você era muito foda. Escroto sou eu que pouco desfrutei da sua presença. Da presença dos meus tios. Vocês dois hoje se foram, se juntaram a vovó, que deve estar feliz de ter criado 4 filhos tão diferentes mas, mesmo assim, tão legais. Todos vocês 4 são legais.
Eu não tive pai, tio. Mas eu tive você como padrinho. Eu tive família, que silenciosamente me sustentou ao longo de tantos anos. Definitivamente, você foi um exemplo de adulto, de marido, de pai, de irmão, de filho.
Obrigado pelos pequenos pedaços de você que compartilhou comigo. Seu sobrinho humildemente pede desculpas pela ausência. A vida não foi e não está fácil no lado de cá. Mas saiba que você é parte importante de quem sou.
Te amo tio. Desfrute do paraíso como desfrutou da terra.
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