Sou um daqueles afortunados que lembram bem da infância, de quando tinha 3, 4, 5 anos. Minha memória anda meio merda para algumas coisas, mas as que importam ainda estão aqui, para minha felicidade. Isso me permite lembrar da época que ainda morava no Rio, apesar de ter saído de lá com 6 anos.
Me lembro que era muito comum eu ficar na casa do meu tio nessa época, pois ele morava logo atrás da minha casa. Minha mãe coitada, volta e meia tinha que ir na rua tentar arrumar emprego ou qualquer coisa do tipo, pois a época não era boa. Lembro que não fazia muita coisa por lá, basicamente só ficava mesmo vendo televisão, coisa bem comum pras crianças dos anos 90. Mas eu lembro de uma vez que ele decidiu jogar videogame. Foi lá dentro do quarto dele, pegou uma maleta amarela de madeira e tirou um Atari de dentro. Instalou com cuidado e paciência o aparelho na televisão e encaixou o cartucho. Era um joguinho de nave que você não podia bater nas paredes que ora eram estreitas, ora eram sinuosas. Jogo simples de um console simples. Até que ele falou que eu podia jogar um pouquinho.
Obviamente eu perdi várias vezes, eu era só um garoto. Mas foi um dos primeiros contatos (se não o primeiro) que eu tive com um videogame. Lembro que isso ficou na minha cabeça por anos, volta e meia vinha como uma memória gostosa de se lembrar, apesar de eu nunca saber qual era o nome do raio do jogo.
O tempo passou, mudamos para Araruama e meu tio ficou por lá. Foi morar na casa que antes eu morava. Nessa época era comum eu ir pro Rio passar as férias de julho e as de fim de ano. Eu ficava a maior parte do tempo na casa do meu padrinho, mas volta e meia eu voltava na Abolição e ficava uns dias na casa dele. Era sempre divertido.
Meu tio era um cara reservado, pelo menos o tempo que eu passei com ele me mostrava isso. Um cara comum, de gostos simples, mas sempre bem-humorado. As vezes dava umas broncas na minha prima, mas ela era espivetada mesmo. Lá as vezes a gente jogava uns jogos de mesa, os que mais me vem a cabeça são o cara-a-cara e chispa, um jogo que nem existe mais aqui no Brasil e que por um bom tempo eu tentei achar pra comprar só pela nostalgia.
Virei adolescente e passei a não ir mais para o Rio com frequência. Minha mãe não queria me deixar ir por motivos pessoais dela, eu nem lembro mais quais, então a partir daí passei a ter pouco contato com meus tios, mas menos ainda com ele, já que naturalmente ia menos lá quando era criança. Ainda assim, sempre que estava com ele era divertido. Lembro de uma conversa com ele sobre Elifoot e como ele desenvolveu fórmulas matemáticas pra descobrir um jeito de evoluir os jogadores e ter sucesso rápido no jogo. Eu não podia esperar menos de um cara que era contador! Daí a vida adulta veio, a vovó se foi e ele nunca mais veio nos visitar em Araruama, assim como eu pouco fui para os lados da capital.
Fazia então 6 anos que eu não te via, tio, se não me falham as contas. A última vez foi justamente no enterro da vovó. Não foi nas melhores condições, mas... bom, a vida adulta é uma merda, a gente se afasta das pessoas de uma forma que não gostaríamos. Mas é como é.
Daí descobrimos que o senhor passou desse plano de uma forma bem triste. 65 anos completados a pouco tempo (mais uma vez, se não me falha a memória). O terceiro dos 4 filhos da dona Neuza. Um cara que eu sei que passou por sérios problemas durante a vida e que deu a volta por cima em todos os casos. Um exemplo, de verdade. O cara comum que ninguém é capaz de desgostar.
Hoje quando me olhei no espelho, percebi que meu cabelo é bem parecido com o seu. Dei um sorriso de orgulho, por fazer parte dessa família (as vezes problemática, mas sempre amorosa). E daí decidi pesquisar o nome daquele joguinho de Atari que joguei contigo quando era bem novo.
Fantastic Voyage.
Fica com papai do céu, tio Sérgio.