23/05/2020

Gozo.

Na calada da noite,
O vento seco do litoral.
Meu casaco de pele é você,
Seu abraço é o meu metal.

Dez mil dias chegam,
E eu quero ser o motivo de seu flerte.
A alma nua, a sua carne,
Nem que pra isso eu te aperte.

Arrepio em seu olhar,
Penetro sem nem pensar.
Quanto mais eu indagar,
Mais eu vou querer te navegar.

No mar do seu céu profundo,
As curvas perfeitas do seu corpo.
A alma densa que me preenche,
Faz do espaço-tempo algo torto.

Assim começa uma nova dança,
De meu eu aventuroso.
Essa foda hipnotizante,
O mais perfeito gozo.

16/05/2020

A Romantização do meu Ovo Esquerdo.

Eu tô desde os 12 na labuta. Apesar de não gostar de romantizar o trabalho infantil, confesso, pra muitos isso não é uma opção. Ou você vai carpir quintal ou você não vai ter caderno pra estudar; ou tu vai pra debaixo do sol entregar panfleto ou tu não vai conhecer nunca o gosto de um açaí; ou tu vai empacotar compra em mercado e ser humilhado o dia inteiro ou tu não vai ter o que comer em casa.
Me incomoda profundamente ver uma penca de gente mal acostumada com pai/mãe/família bancando as coisas e sendo mal agradecido. Já vi minha mãe chorando por não conseguir comprar 1kg de fubá pra gente comer. É o tipo de coisa que tu nunca mais esquece, você guarda na cabeça e leva pra sempre. É o que te faz prometer que tu nunca vai deixar de trabalhar, seja numa puta agência foda pra ganhar 5k por mês ou num birô fodido pra fazer uns trocados e garantir um pacote de feijão.
E te falar: papai e mamãe não são eternos. Uma hora a água vai bater na bunda e cobrar uma posição tua na marra. E não, não é pecado ter apoio e usufruir disso, ô, quem me dera eu tivesse papai pra bater nas minhas costas e falar "ó, tu só vai estudar, meu filho!". Mas papo de quem já viu muita merda na vida: dê valor ao que tem, olhe ao seu redor, apoie quem precisa de apoio e não seja esnobe. Hoje tu come caviar, amanhã tu pode estar comendo merda. Ou nem isso.

13/05/2020

Mantendo a Esperança.

Ele esfregava constantemente as mãos no rosto, sentindo o globo ocular afundar dentro do crânio. Era como um objetivo sagrado para todos os dias de sua existência. Tanto quanto esfregar as mãos na barba. Era como se o seu tato fosse parte vital de sentir o mundo ao seu redor, e mais do que isso, de se sentir e se entender com ser vivo. Uma troca de energias, por assim dizer.
Mas os tempos são outros, é difícil respirar. As vezes, literalmente. Digo, não é como se alguém pudesse ir para a rua e respirar o nobre ar puro e gostoso de um dia levemente ensolarado. O ar não está nada puro. Ou na verdade parece bem mais puro, é apenas uma questão de como enxergar o que a natureza está entregando.
Então esse cara se mantinha em casa, olhando para todos os cantos sem enxergar um feixe de luz que penetrasse por frestas escondidas. Escutando vozes tristes que martelam em suas paredes. As vezes o barulho do aço sendo cortado, as vezes o barulho de rodas que passam pela pista. E até as vezes, nem há som. É só ele.
Vai se dando assim valor a coisas bem miudinhas da vida, tipo prestar atenção no dedo que desloca suavemente quando estalado. Na fumaça cinza que sobe quando acende um cigarro. Na beleza de um vidro tombado que reflete a luz da lâmpada. No quadro que não tem nada escrito. Nas sacolas empilhadas. A vida vai parecendo cada vez mais frágil e ao mesmo tempo mais forte, como se estivéssemos treinando a cabeça para suportar novamente o mundo lá fora, um recall mental.
Manter a esperança em dias sombrios é difícil, eu sei. Mas olhar para dentro de si é mais difícil ainda, então pegue essa oportunidade e faça o seu melhor.

As ironias do destino.

Hoje decidi abrir seu blog. Na verdade eu faço isso as vezes, meio que como uma terapia, sabe? A gente nunca mais se falou, eu sei. Não acho que você me odeie ou algo do tipo, não faz do seu tipo sentir ódio por alguém. Acho que está mais para querer me evitar mesmo. E tá tudo bem, eu respeito isso, mesmo até hoje sentindo falta do convívio e das conversas.
Pra meu deleite haviam 2 textos. Um bonito como de costume, me fez lembrar da doçura com que você vê a vida. O outro me fez congelar por um instante. Me fez achar algo que...

Bah, era só uma besteira da minha cabeça. A gente só vê o que quer. Ainda assim, eu queria te abraçar agora e falar: ele sabe que você o ama.