Ele esfregava constantemente as mãos no rosto, sentindo o globo ocular afundar dentro do crânio. Era como um objetivo sagrado para todos os dias de sua existência. Tanto quanto esfregar as mãos na barba. Era como se o seu tato fosse parte vital de sentir o mundo ao seu redor, e mais do que isso, de se sentir e se entender com ser vivo. Uma troca de energias, por assim dizer.
Mas os tempos são outros, é difícil respirar. As vezes, literalmente. Digo, não é como se alguém pudesse ir para a rua e respirar o nobre ar puro e gostoso de um dia levemente ensolarado. O ar não está nada puro. Ou na verdade parece bem mais puro, é apenas uma questão de como enxergar o que a natureza está entregando.
Então esse cara se mantinha em casa, olhando para todos os cantos sem enxergar um feixe de luz que penetrasse por frestas escondidas. Escutando vozes tristes que martelam em suas paredes. As vezes o barulho do aço sendo cortado, as vezes o barulho de rodas que passam pela pista. E até as vezes, nem há som. É só ele.
Vai se dando assim valor a coisas bem miudinhas da vida, tipo prestar atenção no dedo que desloca suavemente quando estalado. Na fumaça cinza que sobe quando acende um cigarro. Na beleza de um vidro tombado que reflete a luz da lâmpada. No quadro que não tem nada escrito. Nas sacolas empilhadas. A vida vai parecendo cada vez mais frágil e ao mesmo tempo mais forte, como se estivéssemos treinando a cabeça para suportar novamente o mundo lá fora, um recall mental.
Manter a esperança em dias sombrios é difícil, eu sei. Mas olhar para dentro de si é mais difícil ainda, então pegue essa oportunidade e faça o seu melhor.