02/03/2019

IX: Existe amor em SP.

Lembra que a nossa primeira conversa tinha a ver com bicicleta? Duvido. Você nunca foi muito boa em guardar detalhes pequenos. Não que isso seja um defeito seu. Talvez seja defeito meu guardar demais certas coisas na cabeça. Bom, depende. Você acabou mostrando algumas vezes para mim (principalmente depois) que lembrava de certos detalhes com riqueza de informações. E isso vale muito.
Lembra da primeira vez que eu disse que te amava? Tocava Everlong. Foi por meio de um celular digital, que eu comprei pra gente conversar. Aliás, amava aquele celular: Foi o último que eu tive antes de ter essas geringonças de Smartphone. E foi com ele que eu fui pela primeira vez para São Paulo, enganando minha mãe e a todos falando que ia passar uns dias em Petrópolis. Cara, eu tirei coragem sei lá daonde pra te ver.
Na verdade eu sei exatamente daonde eu tirei essa coragem.
Lembra como foi o primeiro beijo que demos? No ponto de ônibus, o tempo tava meio estranho no dia, eu tava cansado, afinal, eu era um ávido fumante que pela primeira vez estava numa cidade com atmosfera tão pesada. É tão bobo falar isso quanto foi eu correndo e dançando com as placas, para te explicar que eu era bobo. E como eu era bobo.
Até certo ponto, ingênuo.
Ingênuo de achar que você não queria ficar comigo. E de repente bam: A gente se beijou. E olha, sempre foi muito difícil beijar alguém pela primeira vez e realmente gostar do beijo. Não sei se toda a história envolvida me fez relevar algumas dificuldades, mas a real é que foi um ótimo primeiro beijo. Eu lembro exatamente do momento, da cor das paredes, da escola próxima ao ponto, e do ônibus que pegamos.
Lembra como foi a nossa primeira vez? Num quarto levemente escurecido, com cortinas vermelhas que davam um tom único ao ambiente. Você ficou por cima de mim, e tempos depois descobri que você detestava ficar por cima. Tão tímida, a gente meio que transou por puro instinto de desejo. E isso é legal. E você tinha tanto medo do que eu pensaria por estarmos transando pela primeira vez, achando que eu te julgaria. Ora bolas, eu nunca menti meus sentimentos para ti. Com tudo envolvido ali, mais o medo de não te ver tão cedo, se eu saísse da cidade cinza sem sentir seu corpo eu acho que surtaria.
Sua família me tratou tão legal, lembra? Foi quase que amor mútuo: Eu gostei deles de cara, e eles pareciam empolgados comigo. Zé Carioca é disparado o apelido mais legal que alguém já me botou. Sua vó tímida por eu abraçar ela e dar 2 beijos na bochecha. Acho que nem todo paulistano tá preparado pra esse calor louco de carioca. E olha que eu era bem menos carioca do que muito carioca por ai.
Peguei metrô, conheci um parque, bebi catuaba, vivemos momentos intensos pois a gente sempre achava que o próximo momento seria o último. Com câmera na mão, batemos várias fotos e registramos diversos sorrisos. Era claro como você estava felizinha. Foram poucas vezes na vida que eu realmente acreditei que o lado oposto da história estava tão feliz quanto eu.
Lembra como foi a minha partida para casa? Foi triste. A incerteza, era foda pois eu era bem fodido na época de dinheiro, e tudo o que eu pensava era "não vai ter uma próxima vez". E eu quis fazer valer todo o investimento empregado para que fosse único e especial.
Mas pra minha felicidade, você veio na semana seguinte aqui, para conhecer o tão famoso calor carioca. E nos vimos mais algumas vezes, sempre com a intensidade de não saber quando seria a última vez que nos veríamos.
E houveram brigas. Houveram desentendimentos. Apelidos fofos e ríspidas brigas por horas no telefone. Teve sexo virtual e carinho casual. Houve muita paz e muito arrependimento. Tudo em sua devida intensidade e em tons que eu duvido que você duvide. Você me ensinou tanto, mas tanto, que é até curioso que uma pessoa que morava a mais de 500km de mim pudesse ter sido mais importante do que tantas outras que moraram a metros de distância. E assim foi por meses, até que realmente um dia, um momento foi a última vez. E daí foi eu quem passei a lembrar muito bem. Sorte minha que você se tornou uma amiga incrível, uma das pouquíssimas pessoas com quem eu pude contar em diversos momentos da minha vida desde então. E toda essa história de amor ficou registrada em mim como um incrível ensinamento, algo que me mudou profundamente e me fez um homem mais forte. Pela primeira vez, eu encarei um relacionamento passado como bom, por mais turbulento e difícil que tivesse sido. A ti, eu devo bem mais do que lembranças, eu te devo eterna gratidão, assim como te devo uma valsa de cavalos-marinhos.
Com tudo isso dito, fica uma grande certeza: Existe sim amor em SP. E foda-se quem acha que não.

Desisto.

Eu já desisti tantas vezes das coisas, que nem sei mais contar. Tem gente que gosta de romantizar a persistência, a força de vontade, pessoas que tornam loucuras atos genuínos e heroicos. Eu não me encaixo nesse padrão. Veja bem: há casos onde isso pode ser aplicado, acredito que todos nós temos o direito de lutar pelo que acreditamos que seja nosso. Mas há momentos onde a nossa cabeça simplesmente dói dia e noite, e tudo o que queremos é a mais profunda paz. É nisso que reside a minha teoria de que aceitar uma derrota em resignação não é sair derrotado, e sim, sair com algum aprendizado. Nossas relações são bem mais complexas do que meros filmes hollywoodianos que nos empurram goela abaixo, tentando criar um senso deturpado na gente. Mas basta você parar para refletir que verá que mesmo nas histórias mais credíveis possíveis, você não vai estar sendo 100% retratado. É bonito, muito bacana ver histórias de superação, mas nem sempre isso vai se aplicar a nós. E tá tudo bem, sabe? Nem todo mundo é Newton, que sentou debaixo de uma árvore e viu uma maçã cair, pra entender o que era a teoria da gravidade, ou Thomas Edison, que tentou mais de 700 vezes até descobrir como fazer uma lâmpada. Você pode ser um gênio, mas você pode ser uma pessoa normal também, com problemas e anseios de pessoas normais, e é seu direito chegar em casa e ficar consternado por não conseguir pagar a conta de luz para acender essa tal lâmpada que Edison inventou. Amanhã é um novo dia, uma nova luta chegará, não deixe que os outros falem o que você deve fazer. Desistir de conquistar a pessoa amada, de insistir numa faculdade que você não quer, aceitar que não é capaz agora de realizar um trabalho complexo. Desistir as vezes é a melhor forma de fazer algo. E talvez aprender a ser alguém melhor.