28/05/2018

Na Cara.

Uma noite qualquer.
Mas as sirenes soavam.
O ar estava pesado, era estranho.
Mas não era altitude, era greve.
Era falta de comida.
Era falta de vida na rua.
Com pouco dinheiro sorri.
Peguei minha lotada e segui.
Ao chegar na rua de casa, desci.
O carro marrom também desceu.
Virou a direita, eu fui reto.
Por algum motivo ele deu a volta.
Eu segui.
Ele me fechou.
Eu segui.
E um homem saiu do carro marrom.
Seu rosto era metálico, brilhava e podia me matar.
Era reluzente.
Eu parei.
Ele só queria o celular, tinha pressa.
Eu entreguei.
Sem uma única alteração no coração.
- Não olhe para trás, ele disse.
Eu já não iria olhar mesmo.
- Se olhar a placa você morre.
Grande merda.
Voltei a seguir meu caminho.
Sem celular.
Sem emoção.
Sem medo.
Sem nada.
O que diabos minha vida se tornou?
Que tipo de monstro me dominou?
Sei lá.
Só sei que segui.

02/05/2018

Fotografias.

Eram mais de 22h. Ela pelava em febre, uma febre inexplicável. Não havia saído na chuva, nem deitado na frente do ventilador após um banho quente, nem tampouco qualquer outra coisa que permeia o folclore para explicar uma gripe ou algo assim. Além do mais, não parecia uma febre comum: Via-se em seus olhos pequenos surtos de delírio, um gosto amargo em sua boca seria a única coisa que explicaria aquele olhar. Mas ele estava lá, mesmo decidido a dar um fim em tudo, ele queria estar lá com ela, pois não é como se não a amasse. Na verdade ele a amava tanto, que queria ir embora pra não ser mais um estorvo na vida dela.
Mas não havia o que se considerar aqui: Afinal de contas ambos se amavam. Os rostos inchados se espelhavam, era apenas claro e escuridão que definia seus belos contornos tristes. Lágrimas espalhavam-se por todo o quarto: Havia lenços, camisas e braços molhados, mãos lubrificadas com tanto líquido salgado que a qualquer momento, poderiam ressecar. Ela era tão linda, tão bela e exuberante, mas simplesmente não dava certo. "Por quê eu fiz isso?" ele se perguntava. Mas não haviam perguntas, lembra-se? Era apenas uma definição feia, e como toda decisão difícil, era difícil de ser concretizada. Ele tentou, ele teimou, ele suplicou aos deuses que tivesse forças para explicar o inexplicável.
Amor. Como explicar este sentimento único e louco que nos faz querer desistir da pessoa amada por saber que vai atrapalhar ela? Como explicar essa loucura única de querer estar de corpo e alma com alguém? Não se explica, se consuma. E se consome. E se deixa consumir. E você é consumido. E você cai. Cai, sem forças para explicar que você ama, e isso é loucura, pura e sórdida do destino, aprontar tamanha canalhice com alguém tão acostumado a sofrer.
Foi uma noite longa, a febre teimava em não baixar, mas durante a manhã ela cessou. Era difícil olhar para aquele rostinho e não fraquejar, mas você tem que aguentar, ser sangue frio num momento como esse. Você ficou aqui pois queria apenas ajudar, não é porque a ama.
Quem você quer enganar? Você a ama, você a quer...
Não! É o correto partir.

Mas na altura de seus olhos, haviam porta-retratos com fotos do casal do ano. Eles eram lindos, tinham um sorriso belo e vontade de viver para sempre juntos. Uma pena que "sempre" é um conceito tão efêmero.