23/02/2018

Prisioneiro na Teia de Aranha.

Cantando, balançando, me debruçando, me debatendo, morrendo.
Desvanecendo.
Perdendo a cabeça, em mil giros incontáveis dentre as bobagens que te disse.
Que jamais te disse.
Tantas palavras perdidas, tanto tempo desperdiçado.
Ainda tão cobiçado.
Ainda tão amaldiçoado.
E mortal como és, o espírito apodrece na corrida pela paz.
Que não se faz. E ficou para trás.
Mas ai eu canto essas dores
Me balanço devagar
E me debruço na janela
Debatendo por dentro
E morrendo por fora.
Uma bolha de sabão onde resido.
Voa para a teia do seu coração.
Coração fechado para balanço,
Fechado para descanso.
Fechado.
E a aranha está lá, a espreita de meus sentimentos angustiantes
Degradantes
Infinitos e importantes
Me desculpe garota
Pois hoje eu vejo
Eu não queria te fazer nenhum mal
E nem dizer as coisas estúpidas que falei
Mas ao agir como um covarde
A porta se fechou.
E a aranha se aproximou.

03/02/2018

IV: Luxo e lixo.

Já havia maioridade aqui, o que não havia era experiência. Havia então um corpo adulto com uma cabeça juvenil, prostrada em confusões passadas e um relativo ódio pela calmaria que nunca existia. Era no fliperama que afundava as minhas mágoas: combos, danças, socos. Havia espaço para tudo lá, desde o rock até o samba raiz, eu não passava um final de semana sem encontrar os nerds prontos para a próxima rodada. Só que no meio dos nerds havia um casaco preto, desses bem chiques de artista, com uma calça estranha e uns cabelos vermelhos muito irados. A magreza chamava atenção não só minha, mas de todos ao redor. Você não parecia fazer parte daquilo. Você nem parecia real, pra começo de conversa. Era neve caindo em meio a carvão. E com sua raridade, vinha a cobiça de todos ao seu redor, mas não a minha. Na real, eu era indiferente: Odiava gente espalhafatosa e mais ainda, odiava as pessoas que circundavam gente assim. O curioso é que os sábados passavam e eu comecei a notar que tal como um ovo, seu interior era completamente diferente do exterior, e se o esteriótipo de fútil e infantil eram inevitáveis, seus gostos e desejos, não. Foi um processo lento, admito. Eu não acreditava muito nas suas palavras pois o trauma ainda estava vivo na minha cabeça, afinal de contas, como confiar em alguém? Já havia maioridade aqui, o que não havia era confiança. Havia então, uma pessoa confusa, amedrontada e em vias de se apaixonar de novo, olha que merda. Pronto, estava feito, eu decidi entrar por aquela porta proibida e dar uma chance para mim mesmo. O ponto de encontro falhou, mas de um ponto ao outro eu corri, corri e te achei. Achei e não soltei naquele dia. E por mais alguns dias, eu não te soltei. Eu continuava a correr, mas era para te ver. Eu corria, pois te queria. Queria com força mesmo. Num dia após alguns meses, fiz uma caixinha cheia de lembrancinhas para você: Um porta-retrato, uma camisa personalizada, CD da sua banda preferida, enfim... Te entreguei num dia chuvoso, morrendo de febre, e só o fiz para te ver feliz. Eu era assim, empolgado, um pouco dramalhão, mas completamente apaixonado, sem pensar no depois. Me sacrificava por sorrisos. E nesse dia, eu só recebi um breve sorriso amarelo, que eu jamais esquecerei.
Alguns dias depois você terminou comigo, dizendo que tinha beijado outro cara.
"Eu sinto muito, eu não queria."
Mais alguns dias depois, você já estava namorando com ele.
"Uma coisa não teve a ver com a outra."
No seu MSN, a foto do cara bonito, bem arrumado, o maior roqueiro do bairro.
"Ele quem me agarrou, eu nem achava ele bonito."

Bom, como eu dizia, já havia maioridade aqui, o que não havia... ah, não havia era sorte mesmo.