04/05/2017

Tinta seca.

Pinta a borda da página, sulca o coração.
Treme na base, firma a caneta, espirra tinta para todos os lados.
Feito tatuagem, marca a página, marca minha vida.
Marca passo, aos passos, esnobe ao meu sentimento mais vil.
Tal como a tâmara rara, foge de mim. Não te acho.
Na verdade acho, presa em corda dilacerando carne.
Minha carne, podre carne. A tal da carne.
Acho a perdição nas fotos que não são comigo.
Só acho mas nada encontro. E que encontro? Não acontece.
Jamais acontecerá.
Tenho dó de mim, se eu fosse eu mesmo, desistiria.
Mas como eu não sou eu e sim mim mesmo, estou aqui.
Estou ai também, é ressonante.
É retumbante, ó brado colossal. Bate boca mas não nega.
Escorre sal mas lhe falta o líquido. Cadê a lágrima?
Não sei, secou, se foi. Morreu no seu peito, no meu peito.
E o que lhe envolve em conforto em carinho, seja lá o que for.
É bonito, quase sinto transbordar essa felicidade em mim também.
Só não estou ali, retratado nas curvas negras da minha caneta.
Cadê as bordas? O vetor sumiu, não use Photoshop.
Crise da meia idade, da minha idade, da nossa idade.
Mas pensa que não sei? Acha que me enganas?
Ama a mim como ama a ti mesma. Tem faca e o queijo na mão.
Mas você prefere goiabada, não é mesmo?
Fica aí o questionamento.

01/05/2017

Praia.

"Imagine que você caiu do céu, sem explicação alguma. Ultrapassou nuvens, cruzou o ar, rasgou a pele com aquela corrente fria que aquecia seu coração. A adrenalina a mil. Quanto mais caía, mais distante ficava do chão. Os pelos do corpo se ouriçavam, você entra em completo torpor. Olhos fechados. Apesar da iminente queda, você está feliz."

O dia acorda cedo por aqui. Você escuta de longe o barulho do mar. De dentro de uma casinha de madeira e palha, o cheiro de café inebria sua mente. Lava o rosto, escova os dentes, pronto para mais um mergulho de sol nesse escaldante nevoeiro de sal que a água está. Você vive aqui, esse é seu paraíso astral, porém vive sozinho. Já fazem muitos anos que não vê uma única alma nessa praia, e poderia resumir suas interações sociais aos donos da venda onde todo dia, leva seus peixes em troca de mantimentos básicos de sobrevivência (e não é como se precisasse de muito não é mesmo?).
Está tudo preparado? Vamos pescar então.
Um grande salto seguido de um mergulho impecável e você já pegou 2 peixes, um em cada mão. De dentro do mar, só vai jogando os que você pega na cestinha a beira-mar. Hoje o dia está particularmente agradável, o sol está escaldante mas há um certo prazer no vento, como se dançasse. A maresia nunca foi tão convidativa.
Sua habilidade em brincar na água é tão apta que poderiam jurar que você tem guelras, mas é só a necessidade da vida que criou o monstro marinho. No passado, fora um grande homem de terno e gravata vendendo sonhos para grandes empresas. Largou tudo pois não aguentava viver em selva de pedra. Sufocava a mente, sufocava o coração. E ainda existe coração?
Ao sair do mar, carregando sua cestinha trançada com folha de bananeira, avista lá ao longe do horizonte uma pessoa deitada próxima ao mar. Não parece exatamente banho de sol, está mais para um corpo estendido próximo a morte. Apesar da aversão para com seres humanos, o simples fato de haver um corpo ali maculando a praia revirava seus olhos. Jogou então os peixes no chão e correu ao encontro daquele ser. Ao chegar lá, era uma mulher, praticamente nua, sem nenhum arranhão mas totalmente desacordada.
De dentro de sua cabana, o cheiro do café já velho e repassado entrava pelas narinas da jovem moça. Seus cabelos cacheados ainda estavam úmidos. A pele dela era branca de tanto sal. Seria ela uma sereia?
Ao acordar, ela não sabia quem era. Nenhum vestígio do passado estava ali, nem nome ela lembrava. Você meio inquieto, porém mantendo a serenidade e a seriedade, questiona coisas a moça em vão. Era uma batalha perdida. Então decidiu voltar ao mar para terminar de pegar seu ganha pão diário, enquanto a moça ficava ali. Por entre a janelinha quadrada, ela me via ir para o encontro do mar. Minhas habilidades a fascinavam, via os olhos dela brilharem mesmo aquela distância. Era como se ela encarasse aquilo como espetáculo, não como sobrevivência, o que sempre fora para mim.
De lá, parti para a vendinha próxima da cidade. Troquei os peixes por um punhado de legumes e rumei para casa certo de que uma sopa animaria os neurônios da intrusa praiana. Ao chegar, a ingenuidade no olhar dela me comovia. Enquanto cozinhava, ela me pediu para que escolhesse um nome para ela. Prometi que pensaria em algo significante, mas que enquanto não sabia o que pensar, a chamaria apenas de sereia, dada as circunstâncias que a levaram até ali.
Comemos, conversamos sem sucesso sobre ela, contei a ela sobre minha vida monótona. Arrumei o tapete no chão e dormi ali mesmo.
No dia seguinte, ela veio comigo até o mar para me ver de perto. E no outro também. E nos dias que se passaram também. Ela me acompanhava, nós conversávamos, ela sorria e eu não entendia nada, apenas observava e tentava, sem sucesso, descobrir quem era ela. Ensinei ela a pescar, a cozinhar, a trançar cestos. Mas a criatura só me ensinou uma coisa: a me apaixonar. Em dado momento, não me importava mais com o passado dela, assim como não ligava mais para seus motivos para estar ali. Só ficava grato e orava aos deuses agradecendo a graça de sua presença ali. Aquela altura, com certeza ela já era meu ser humano preferido.
Um belo dia dormi e durante a noite acordei com ela em cima de meu corpo. A luz da lua batia em sua pele morena que iluminava o quarto. Seu rosto era pura penumbra, mas sentia você sorrir. Aqueles corpos feitos de água fluíam feito correnteza, se encontravam feito dois rios, caiam feito cachoeira. A verdade é que não daria para descrever quão insano foi essa sensação, mesmo que eu usasse todas as poesias do mundo, mesmo que usasse todas as linguagens figurativas, palavrões. Nada definiria o prazer daquele gozo compartilhado. Aquele rosto suado que compartilhava paixão, eu só sentia felicidade, nada mais.
No dia seguinte, ainda embriagado de sono, procurei por ela em todos os cantos. Corri pela praia, entrei no mar, não encontrava você. A simples ideia de te perder era insana. Fiquei nervoso, assustado, com medo. Ao voltar para a cabana, encontrei um bilhete em papel de pão com a seguinte escrita:

"Imagine que você caiu do céu, sem explicação alguma. Ultrapassou nuvens, cruzou o ar, rasgou a pele com aquela corrente fria que aquecia seu coração. A adrenalina a mil. Quanto mais caía, mais distante ficava do chão. Os pelos do corpo se ouriçavam, você entra em completo torpor. Olhos fechados. Apesar da iminente queda, você está feliz. Foi o que aquela noite de ontem significou para mim. Eu te amo, mesmo sem saber o que significa amar. Eu te quero, mesmo sem saber o que significa querer. É possível que eu apenas reaja aos elétrons, prótons e nêutrons de seu corpo, mesmo sem entender de física. Há uma certa beleza nisso tudo, mas eu descobri quem eu sou, de onde eu vim... Na verdade, eu descobri a algum tempo tudo isso, mas eu não podia deixar você. Eu não podia deixar a sua vida sem te dar como presente esse amor protótipo em caixinha de veludo. E ah, obrigado pelos peixes!

Sua Sereia"

Ao virar o papel, havia algo escrito atrás:

PS: Olhe para trás.

Ao se virar, enxergou ela sorrindo, plena em seu ser. Mas era tarde demais, ele já havia acordado do seu faz-de-conta.