Já na tarde da madrugada, já tão próximo do sol quente e fervoroso que iria secar o asfalto gélido. Do alto da rua vinha nosso adorável mendigo. Maltrapilho, com uma capa robusta mas surrada e sapatos em mesmo estado. Em mãos, uma garrafa qualquer, com qualquer líquido que possuísse álcool. Talvez fosse álcool inclusive. Talvez fossem apenas sonhos engarrafados.
Na esquina da perdição ele capotou. Tropeçou nos pés dos drogados e rolou rua abaixo até que as latas de lixo fizessem o barulho de um strike duvidoso. Também pudera, varias latas ficaram de pé, tamanha fraqueza daquele corpo. Sua barriga roncava, era a fome que lhe perturbava. Começavam a vir os pensamentos de outrora à sua cabeça. A mesa farta de sua casa, seus bolsos forrados com seda, confortáveis. Talheres, copos e a louça brilhosa. Nem lembrava mais quando o pai da escuridão o levou, apenas sabia que a rua era seu pertence mais valioso e sua vida era seu caminho mais doloroso.
A esquina clareava, o sol começava a brotar num céu cinzento e esfumaçado. Seu estomago ainda doía, ele queria mais. Talvez o álcool, mas ele se perdera nos sacos de lixo. E não era nem pelo medo de procurar, pois se afundar no lixo não era assustador para ele. Não, na verdade era muito mais do que apenas comer ou beber. Era se completar com alguma coisa. Néctar dos deuses ou alimento do moinho dos ventos, não sabia ao certo, mas ele queria sentir novamente o prazer de se completar.
E já sem saber para aonde olhar, no que focar e o que fazer, já farto de sua vida e com lágrimas que lhe penetravam até as entranhas, eis que surgia ofuscante junto ao sol Tinúviel. Voando cheia de graça, pousou-lhe nos ombros e lhe cochichou uma música. No início, nada daquilo fazia sentido. Depois, as notas eram de fácil entendimento para ele, que assim que as entendeu, se recompôs e entendeu que não era alimento para o corpo muito menos pro espírito que ele precisava, e sim de calma e paz para a sua cabeça surrada. Só com a cabeça no lugar é que nosso adorável mendigo poderia reaprender a sentir fome, a largar o vício e enfim, interpretar a vida como seu pertence mais valioso, e as ruas como o seu caminho mais doloroso.
Enfim partia Tinúviel rumo aos céus, assoviando. Afinal, sorrisos só foram feitos para lábios.
29/08/2013
26/08/2013
Moça do Cabelo Bonito.
Moça do cabelo bonito, você é muito bonita sabia?
Um dia desses fiquei pensando em ti. Ah, sou novo demais para me deixar levar, mas me deixa sonhar?
Eu quero ser feliz, brincar com meu nariz, feito Los Hermanos sem barba.
Me chegar na sua vida, já que a porta tava aberta, parecia até premeditado moça esperta.
Me chegar na sua vida, já que a porta tava aberta, parecia até premeditado moça esperta.
Mas moça do cabelo bonito, você é muito bonita sabia?
Seus olhos, sua ferrugem e essa boca cheia de sorrisos recém-saídos do forno.
Esse seu corpo que chacoalha de forma sexy, com qualquer roupa que lhe cai bem.
Qualquer coisa lhe cai bem. Qualquer você é sexy.
Mas moça do cabelo bonito, você é muito bonita!
Eu sei, eu sei. Não quero avançar as coisas! Com a minha idade, eu só posso pensar em futebol, em estudar e crescer na vida.
Mas uma criança não precisa ter ambições, não precisa de alimento para a cabeça.
Eu quero é saciar meu coração, dar asas a minha imaginação.
É talvez estar no seu colo enquanto sonho sem nenhuma indignação.
Mas moça, você me aguenta no colo?
Talvez seja delicada demais para isso. Você pode me dar a mão então? Ai será problema resolvido!
E moça, não se preocupa, não quero doce antes da janta. Nem jantar eu queria!
Mas fica aqui, brinca comigo, me dá um pouco da sua atenção.
E no final do dia, me leva pra sua cama e me deixe dormir ao seu lado.
Não pense safadeza ôxe! É muito mais que essas saliências!
Eu quero é te ver dormir menina do cabelo bonito.
Quero eu poder te pegar no colo quando crescer.
Mas manter meus sonhos intactos, inalterados.
Já que hoje habita em mim a mais pura criança que já se fez presente.
Criança boba, que sonha contigo todas as noites, todos os dias e as tardes também.
Com o giz de cera ela só sabe imitar em traços estranhos o seu belo corpo esguio e seu cabelo enfeitado.
Então deixe meu achado recuperado te dizer mais uma vez senhora moça?
Moça do cabelo bonito, você é muito bonita, sabia?
Moça do cabelo bonito, você é muito bonita, sabia?
21/08/2013
Divisor de Águas.
Num dia você acorda viciado, comendo de tudo e reclamando da vida. No outro, não pode mais fumar, comer nada que seja prazerosamente bom e acreditando que tudo pode melhorar. Eu sinceramente não entendo o funcionamento da cabeça humana, mas francamente, estou diante da maior provação da minha vida, o momento exato em que, de uma vez por todas, terei que me provar que sou muito mais do que um punhado de carne fraca, que eu posso ser realmente o cara forte que todos acham que sou, menos eu mesmo. Ah, como era estranho acordar sem motivos para acordar, e como é estranho acordar agora querendo prolongar minha qualidade de vida, sendo que antes nem motivo pra viver eu tinha. A única coisa que peço, e peço a mim mesmo, é força. Força não para superar os obstáculos cavernosos de agora, e sim pra aprender com tudo isso.
11/08/2013
Filho, traz o cigarro do pai que tá no quarto, por favor.
Já é de alguns anos que o dia dos pais não significa nada para mim. Esse ano mesmo, fui pego de surpresa, descobri com postagens nas redes sociais. Fotos dos pais vivos, dos que já se foram, dos heróis e dos que criaram heróis.
Eu tenho todos os motivos do mundo para odiar meu pai. Não deu praticamente nada de pensão para ajudar com meu crescimento. Depois que me mudei para Araruama, ele nunca mais me procurou. Nossas conversas foram limitadas a algumas ligações esporádicas que eu fazia para saber como ele estava. Durante muito tempo, eu sequer soube o que era pai. Minha mãe evitava falar dele, meu irmão não compartilhava o período em que ele esteve em casa e minha família materna não gosta dele, e quando falavam, falavam das suas traições, suas vigarices e seus erros. Dedos apontados na cara de quem você sequer conhece.
Mas eu só o odeio por um motivo em especial.
Aos 13 anos, tive a oportunidade de visitar ele no Rio de Janeiro. Era até então, a terceira vez que eu o veria (isso claro, desconsiderando a infância sem recordações), e a primeira vez em 5 anos, ou seja: Quem era meu pai? Ele era mesmo aquele homem cheio de defeitos que todos falavam? Não sabia se eu o odiava ou se ele era apenas indiferente para mim. Quando cheguei lá, tive um choque. Ele não se parecia em nada com as fotos que eu via dele. Gordo, careca e fumante compulsivo, seu apartamento era rodeado de peças de computador quebradas, cinzeiros abarrotados de cinzas e bombinhas de asma em cada cômodo. Roupas bagunçadas, e ele não tinha muitos móveis, exceto um sofá esburacado e um rack velho, também abarrotado de papéis sem importância. A princípio eu ficaria lá 3 dias. Só que esses 3 dias viraram 3 meses, devido a problemas que minha mãe passava aqui em Araruama. E sabem do que mais? Não houve um único dia naqueles 3 meses em que eu não tenha me divertido. Eu nem precisava de uma TV. Foram partidas de xadrez valendo sanduíches, de Elifoot 98 (jogo qual eu o viciei) e de tantos outros jogos eletrônicos. Histórias engraçadas da época em que ele viveu com minha mãe, com minha avó e com a minha irmã. Era uma outra faceta da minha família, um lado que eu nunca conheceria se eu não tivesse ficado lá tanto tempo. Até tive o convite de morar com ele, para ajudar nos meus estudos, mas eu sempre fui agarrado a minha mãe, por isso, não consegui ficar lá. As vezes me arrependo, as vezes fico feliz que não tenha ficado, mas minha raiva permanece. Meu pai é cheio de defeitos, problemas e doenças. Um cara problemático, e até certo ponto, doido. Mas ele sabia ser um pai de verdade. Dedicava seu pouco tempo pra conversar, esclarecer minhas dúvidas e me incentivava a ser alguém na vida, sem seguir seu exemplo. Confessava seu arrependimento por ter sido um péssimo pai, um péssimo esposo, um péssimo exemplo para um filho que mal conhecia. Minha raiva pai, é que você poderia ter sido meu herói, poderia ter sido uma parte importante de minha vida, um pedaço relevante de minha construção de caráter, mas você optou por se isolar do mundo (não só de seus filhos) a ter que enfrentar seus medos. Consigo imaginar sua reação ao te contar da primeira namorada, dos esporros e da rigidez na criação, assim como com meu irmão, imagino até como teria sido seu incentivo ao meu primeiro emprego. Talvez eu tivesse seguido numa faculdade... Enfim. Tudo que me resta de lembrança de ti são aqueles 3 meses de 2003, as férias mais divertidas da minha vida, e um rancor imenso por você não ter sido o pai que saberia ser. Não pai, não posso dizer que te amo, mas tenho certeza de algo: Você é o melhor pai do mundo que eu jamais tive.
Eu tenho todos os motivos do mundo para odiar meu pai. Não deu praticamente nada de pensão para ajudar com meu crescimento. Depois que me mudei para Araruama, ele nunca mais me procurou. Nossas conversas foram limitadas a algumas ligações esporádicas que eu fazia para saber como ele estava. Durante muito tempo, eu sequer soube o que era pai. Minha mãe evitava falar dele, meu irmão não compartilhava o período em que ele esteve em casa e minha família materna não gosta dele, e quando falavam, falavam das suas traições, suas vigarices e seus erros. Dedos apontados na cara de quem você sequer conhece.
Mas eu só o odeio por um motivo em especial.
Aos 13 anos, tive a oportunidade de visitar ele no Rio de Janeiro. Era até então, a terceira vez que eu o veria (isso claro, desconsiderando a infância sem recordações), e a primeira vez em 5 anos, ou seja: Quem era meu pai? Ele era mesmo aquele homem cheio de defeitos que todos falavam? Não sabia se eu o odiava ou se ele era apenas indiferente para mim. Quando cheguei lá, tive um choque. Ele não se parecia em nada com as fotos que eu via dele. Gordo, careca e fumante compulsivo, seu apartamento era rodeado de peças de computador quebradas, cinzeiros abarrotados de cinzas e bombinhas de asma em cada cômodo. Roupas bagunçadas, e ele não tinha muitos móveis, exceto um sofá esburacado e um rack velho, também abarrotado de papéis sem importância. A princípio eu ficaria lá 3 dias. Só que esses 3 dias viraram 3 meses, devido a problemas que minha mãe passava aqui em Araruama. E sabem do que mais? Não houve um único dia naqueles 3 meses em que eu não tenha me divertido. Eu nem precisava de uma TV. Foram partidas de xadrez valendo sanduíches, de Elifoot 98 (jogo qual eu o viciei) e de tantos outros jogos eletrônicos. Histórias engraçadas da época em que ele viveu com minha mãe, com minha avó e com a minha irmã. Era uma outra faceta da minha família, um lado que eu nunca conheceria se eu não tivesse ficado lá tanto tempo. Até tive o convite de morar com ele, para ajudar nos meus estudos, mas eu sempre fui agarrado a minha mãe, por isso, não consegui ficar lá. As vezes me arrependo, as vezes fico feliz que não tenha ficado, mas minha raiva permanece. Meu pai é cheio de defeitos, problemas e doenças. Um cara problemático, e até certo ponto, doido. Mas ele sabia ser um pai de verdade. Dedicava seu pouco tempo pra conversar, esclarecer minhas dúvidas e me incentivava a ser alguém na vida, sem seguir seu exemplo. Confessava seu arrependimento por ter sido um péssimo pai, um péssimo esposo, um péssimo exemplo para um filho que mal conhecia. Minha raiva pai, é que você poderia ter sido meu herói, poderia ter sido uma parte importante de minha vida, um pedaço relevante de minha construção de caráter, mas você optou por se isolar do mundo (não só de seus filhos) a ter que enfrentar seus medos. Consigo imaginar sua reação ao te contar da primeira namorada, dos esporros e da rigidez na criação, assim como com meu irmão, imagino até como teria sido seu incentivo ao meu primeiro emprego. Talvez eu tivesse seguido numa faculdade... Enfim. Tudo que me resta de lembrança de ti são aqueles 3 meses de 2003, as férias mais divertidas da minha vida, e um rancor imenso por você não ter sido o pai que saberia ser. Não pai, não posso dizer que te amo, mas tenho certeza de algo: Você é o melhor pai do mundo que eu jamais tive.
07/08/2013
Quem quer.
Quem quer, não cria desilusões, não cria falso moralismo.
Quem quer, não provoca, conquista.
Quem quer, sabe o que faz com as próprias mãos.
Quem quer, vai a luta e traz pra casa o sonho almejado.
Quem quer, não abandona, não deixa na porta do vizinho.
Quem quer, para no momento certo.
Quem quer, é humilde pra admitir suas limitações.
Quem quer, entende o mundo à sua volta.
Quem quer, faz de tudo mesmo que seja limitado.
Quem quer, vai até o fim.
Quem quer, quer de fato.
Quem quer, não provoca, conquista.
Quem quer, sabe o que faz com as próprias mãos.
Quem quer, vai a luta e traz pra casa o sonho almejado.
Quem quer, não abandona, não deixa na porta do vizinho.
Quem quer, para no momento certo.
Quem quer, é humilde pra admitir suas limitações.
Quem quer, entende o mundo à sua volta.
Quem quer, faz de tudo mesmo que seja limitado.
Quem quer, vai até o fim.
Quem quer, quer de fato.
02/08/2013
Mero dissabor não caracteriza dano moral.
Em meio a ataques de aneurisma e surtos de psicodelismo, estava lá o real motivo para tanto espasmo: Ódio. Não sabia como se implantara ali, nem tampouco se iria embora, mas era real, e tal como real, lhe deixava marcas salientes na pele. Nunca havia experimentado desta nova faceta (até porque, ele nunca a quis expor), e algo lhe dizia que agora era permanente, tal como a navalhada de um estilete na mesa de madeira. Lixe, pinte, nivele. Ela sumirá, mas sumirá grande parte da mesa também.
Nas ruas cinzentas de Libertine City, ele era só mais um anjo caído, rezando a desgraça de seus fiéis seguidores. No colo, nada de ombro amigo. No céu, não havia mais refúgio, muito menos no inferno. Tampava então os ouvidos e ouvia o som oco de sua cabeça, e a mesma explodia. Uma breve olhada na poça d'agua e bom, era apenas uma sensação passageira, a cabeça ainda estava lá, para seu total descaso.
A alguns anos atrás uma bela jovem lhe chamou a atenção. Charmosa por ser, indiferente a olhos nus. Seu estilo não parecia nada anormal, suas botas também eram bem simples. Talvez o mexer dos cabelos, ou o sorriso? Não. Ela era definitivamente normal. Sorriso normal, imperfeito. O céu da sua boca resplandecia mais do que o estrelado lá do alto. Avante e adiante, seguiu então a lhe seguir. Com olhos marejados, definhava sem nem saber para onde as cinzas o levava. Um altar? Um caixão? Uma sesta de fim de tarde?
Assim se seguiram os anos. Ela envelheceu, as rugas lhe marcaram, os filhos apareceram e seu corpo padeceu. Não ascendeu aos céus, não foi vendida ao Diabo. Tudo que lhe restava eram ossos num caixão, e um buquê matinal, sempre trazido pelo seu amante espiritual. Anjo? Criatura? Criador? Nada sabia sobre si mesmo. Um espírito leviano? Ahh... como um ser não sabe daonde veio?
Frustrações inacabadas, talvez sem volta, sem porta dos fundos nem atalho. Apenas era. Um capote no ar, uma queda ao chão. O som forte de sua queda acordava multidões caídas em eterno sono, sem escapatória para ninguém. A sua força agora era a de dez mil homens furiosos, loucos ensandecidos por sexo repreendido e destruidores por ser. Ser, talvez não ser. Era a questão afinal?
A questão era que ninguém o via, e se quisesse dar cabo de si mesmo, seria inútil. No geral, seu dissabor não caracterizava qualquer dano moral, tampouco cerebral. Tudo que lhe restava eram horas e horas de pura nostalgia, pelo que nunca viveu, pelo que nunca saboreou. Aqueles olhos negros, sedentos por uma nova vida, um novo sorriso, ele nunca alcançou. E numa última tentativa frustrada, ascendeu aos céus à procura de respostas, a procura de alguém que lhe dissesse o que fazer. Ingênuo... Extinguiu sua existência já na camada de ozônio. Anjos nunca foram resistentes ao calor de um corpo, como seriam capazes de aguentar os raios de um sol? Mas afinal, ele era mesmo anjo?
Era. O anjo dela. E a cinética que era máxima, acabou variando, e aqueles dois corpos inexistentes, acabaram criando uma história que nunca existiu.
Nas ruas cinzentas de Libertine City, ele era só mais um anjo caído, rezando a desgraça de seus fiéis seguidores. No colo, nada de ombro amigo. No céu, não havia mais refúgio, muito menos no inferno. Tampava então os ouvidos e ouvia o som oco de sua cabeça, e a mesma explodia. Uma breve olhada na poça d'agua e bom, era apenas uma sensação passageira, a cabeça ainda estava lá, para seu total descaso.
A alguns anos atrás uma bela jovem lhe chamou a atenção. Charmosa por ser, indiferente a olhos nus. Seu estilo não parecia nada anormal, suas botas também eram bem simples. Talvez o mexer dos cabelos, ou o sorriso? Não. Ela era definitivamente normal. Sorriso normal, imperfeito. O céu da sua boca resplandecia mais do que o estrelado lá do alto. Avante e adiante, seguiu então a lhe seguir. Com olhos marejados, definhava sem nem saber para onde as cinzas o levava. Um altar? Um caixão? Uma sesta de fim de tarde?
Assim se seguiram os anos. Ela envelheceu, as rugas lhe marcaram, os filhos apareceram e seu corpo padeceu. Não ascendeu aos céus, não foi vendida ao Diabo. Tudo que lhe restava eram ossos num caixão, e um buquê matinal, sempre trazido pelo seu amante espiritual. Anjo? Criatura? Criador? Nada sabia sobre si mesmo. Um espírito leviano? Ahh... como um ser não sabe daonde veio?
Frustrações inacabadas, talvez sem volta, sem porta dos fundos nem atalho. Apenas era. Um capote no ar, uma queda ao chão. O som forte de sua queda acordava multidões caídas em eterno sono, sem escapatória para ninguém. A sua força agora era a de dez mil homens furiosos, loucos ensandecidos por sexo repreendido e destruidores por ser. Ser, talvez não ser. Era a questão afinal?
A questão era que ninguém o via, e se quisesse dar cabo de si mesmo, seria inútil. No geral, seu dissabor não caracterizava qualquer dano moral, tampouco cerebral. Tudo que lhe restava eram horas e horas de pura nostalgia, pelo que nunca viveu, pelo que nunca saboreou. Aqueles olhos negros, sedentos por uma nova vida, um novo sorriso, ele nunca alcançou. E numa última tentativa frustrada, ascendeu aos céus à procura de respostas, a procura de alguém que lhe dissesse o que fazer. Ingênuo... Extinguiu sua existência já na camada de ozônio. Anjos nunca foram resistentes ao calor de um corpo, como seriam capazes de aguentar os raios de um sol? Mas afinal, ele era mesmo anjo?
Era. O anjo dela. E a cinética que era máxima, acabou variando, e aqueles dois corpos inexistentes, acabaram criando uma história que nunca existiu.
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