30/01/2026

Meio trinta e poucos anos.

Tem gente que fala muito sobre a crise dos trinta e poucos. Como se fosse uma maldição imposta, intransferível, sem chance de bloqueio. Um engodo que só vai cessar quando acabar a tal década sombria do limbo adulto.

Os trinta anos. Os trinta e poucos. Os trinta e muitos. Muitos trintas.

Fala-se muito dos problemas que eles trazem. Ou da ausência de perspectiva, do caos, dos inimigos invisíveis mas... pouco se fala sobre o conhecimento adquirido que vem na esteira.

Veja, a vida ainda está acelerada, mas você não tem mais pressa de agarrar o mundo com as mãos. Agora, você provavelmente só quer traçar objetivos sólidos, com prazos determinados e plausíveis, pois já descobriu que nem tudo é sobre velocidade e sim sobre paciência.

Você tem mais prudência agora. Certas atitudes irresponsáveis hoje soam... irresponsáveis para você. Mesmo que você sinta saudade daquela época, você não voltaria a fazer aquilo. Mas também não dói tanto olhar pra trás e ver as merdas que fez. Os ensinamentos e livramentos não são mais punitivos e sim educativos.

A paciência para conflitos inúteis vai se dissipando. Chega uma hora que concordar com quem você discorda é mais sábio do que tentar impor suas convicções. Você sabe quem é e quais valores tem dentro de si, mas não importa que os outros saibam disso. Aliás, não só não importa como muitos não querem nem saber. Praticar o autofoda-se é saudável, realmente somos menos importantes do que achávamos.

Outra coisa interessante é que não dói tanto quando alguém vai embora, mesmo sem motivos. E se há motivos, parece mais fácil respeitar. Pode ser que você discuta, brigue, mas a resolução costuma ser mais simples. Se alguém não quer estar aqui, então que não esteja. E as vezes nem vale a pena saber os motivos, mas tentar entender os sentimentos alheios e respeitá-los mesmo que não façam sentido é sinal de amadurecimento. As vezes amizades apenas acabam. As vezes amores apenas se vão. Mãos são para confortar e não para prender.

Saber sobre o mundo é mais interessante. Conhecer ele também. Mas na maior parte do tempo ficar em casa é melhor do que querer explorar as catacumbas de sei lá aonde. Dormir oito horas de sono virou uma motivação básica do dia, tanto quanto comer, beber e transar.

Ah, transar. Já não faz tanto sentido colecionar corpos, não é mesmo? Não me entenda mal, é uma maravilha fazer sexo, mas você já entendeu que com alguém em quem você confia e gosta é outro patamar. Quase troca de energia.

Aliás, a vida parece mais... esotérica? Seja qual for sua religião inclusive, o mundo parece que te retorna ensinamentos o tempo todo. Olhar os pássaros cantando tem outro significado, entender o crescimento das plantas também. Será que tudo tem alma? Será que pedras coloridas transmitem energias diferentes? Será que mudar de lugar a cama do seu quarto vai mudar a sua vida? Parabéns, você se tornou um pouco cringe, e você não liga mais.

Inclusive muita gente já te chama de velho, mas mesmo cabelos brancos não incomodam. O que antes parecia ofensa agora parece elogio. Que bom que envelheci, você diz! Que bom que ainda não pereci, você ri.

Renato Russo mentiu quando disse que viraríamos nossos pais. Talvez seja nosso maior terror. Diferente deles, aprendemos com os erros deles. Mas... ainda há um pouco deles na gente. Tá, desculpa Renato, você não mentiu muito.

Sabe, somos apenas grão de areia num universo imenso. Quem somos e o que fomos pouco importa. Você não está competindo com ninguém por um pódio inexistente do tempo. Abraçar um amigo, amar quem nos ama, ajudar quem precisa e também aceitar o acolhimento nos dias ruins é o mais importante hoje.

Certa vez um certo eu disse "somos instantes". Hoje eu complemento com "faça durar".