- Que cheiro horrível.
- Sim. O cheiro está realmente horrível. É o cheiro das entranhas da minha vida, expurgadas para fora, pulsando o sangue negro decrépito do meu ódio. Do meu choro de desespero. É o mais amargo dos sentimentos. Fede a bile podre, o rasgo temporal que vaza todos os segundos perdidos. Dos amores que nunca foram entregues e explodiram. Das decisões erradas que viraram feridas cheias de pus e secreções nojentas, horripilantes. Como fraturas expostas que expõem a minha mais ridícula fragilidade. Um sepulcro de vermes comendo minha carne fodida, habitando no mais profundo âmago de minha alma. Destruindo tudo que um dia já fui. E como se não bastasse todo esse funeral de mim, ainda há esta fétida expulsão de gases nucleares, infectando todos ao redor. Culpado por morrer e matar aos próximos, morrendo lentamente e vendo todos assistirem a este show de horrores, atônito, culpado. Sentindo a mais vil culpa por destruir tantas vidas apenas por ser quem és, um defeito, quebrado, amassado. Com chorume vazando pelos poros, onde nenhuma planta jamais nasceria. Matéria orgânica tão inútil que não adubaria solo nenhum sequer. Aplaudam esta merda cheia de milhos, pisada por um chinelo velho que será jogado fora. A mais asquerosa forma de vida. Que realmente fede. Sim. Fede.
- Ah... eu me referia ao bueiro aberto que vim fechar.
- Compreendo.