31/03/2022

Lua Cheia.

Efemeridade.
A lua cheia é um evento tão bonito, tão único, tão singelo, tão... tão!
E mesmo assim poucas vezes a admiramos como ela merece. Mas por quê?
Vida atribulada, problemas na caixoleta, cansaço, tristeza, parece que a gente precisa casar nosso tempo com o da lua para ter um "encontro perfeito". E o que é esse encontro perfeito?
Sei lá.
Eu não via a lua cheia a pelo menos uns bons 5 anos. Ou pelo menos não reparava no esplendor dela dizendo "ei humano, me olhe!".
Logo eu, que já fiz das caminhadas ao pôr-do-sol uma rotina pra recobrar a felicidade, de repente me vi estagnado, sem tanto fazer o que sempre amei: Reparar nos pequenos detalhes.
A lua cheia é só uma desculpa para escrever sobre isso: Como que perdemos cada dia mais nossas identidades e viramos massa.
A cada decepção, um pedacinho de nós vai embora, e quando nos damos conta, viramos apenas um adulto chato, boring mesmo, daqueles que quando você tinha 14 anos diria "nossa eu nunca vou ser assim, meu quarto vai ter vários posters das bandas que eu gosto, um monte de action figures expostas nas paredes e um grande banner do Vasco no meio de tudo".
Não tem nada disso, tem glamour nenhum. A gente passa a achar que tudo isso é piegas, coisa de adolescente. Perdemos muito quando envelhecemos.

Voltemos à lua. Ela fica cheia todo mês pra abraçar o mar e, mesmo assim, a gente pouco liga para ela. Contas vencidas à pagar, grita nosso cérebro, teimando em parar por um instante que seja para voltar a ser um humano.
Mas enfim, estou dando voltas e voltas para dizer que a 2 semanas atrás eu admirei essa magnífica lua. Eu estava sentado no bar na beira da lagoa, local muito bonito inclusive. Tomei alguns chopps, conversei, brinquei, ri. Ri de mim mesmo, ri dos outros, me alegrei como fazia tempo que não o fazia. Eu vivi, depois de mais de 2 anos de pandemia me surrando. Surras de todos os tipos. Me tornei quase o homem das cavernas e perdi muita coisa. Perdi pessoas, perdi sentimentos, perdi alegrias, perdi a mim mesmo.
Ali, naquele lugarzinho besta, eu estava me reencontrando. Percebendo que eu não preciso de migalhas, eu preciso de mim mesmo.
E no fim desse dia a lua apareceu. Belíssima e efêmera, e por isso comecei o texto falando da efemeridade. Não durou nem 1 hora essa imponência, mas foi muito bem aproveitada. Sentei com minha última caneca de chopp, a olhei e senti até um pouco meus olhos marejarem, e não era a maresia, era um sentimento de nostalgia. Não de um momento que eu vivi, mas de uma vida que eu já tive. Eu me senti mais humano, mais terreno, mais espiritual, sei lá. Eu poderia ficar horas tentando explicar esses sentimentos, mas o que eu tenho para explicar? Foi sinérgico (talvez isso explique).
A questão é que quando eu olhei a lua eu pensei em algo. Eu sorri, achei que era impossível, mas eu não lembrava mais o que era ver a lua tão bonita, não é mesmo?
E agora eu acho que é possível.