Eram 18h em ponto quando eu a avistei saltando daquele ônibus caindo aos pedaços. Um logotipo enorme que brilhava no chassi da condução não mentia. Não que aquilo fosse importante.
- Desculpa o atraso, é sempre uma porcaria pegar ônibus para cá.
- Tudo bem, eu também tenho dificuldade de vir pra cá. Pelo menos é o melhor ponto para nós dois nos encontrarmos, né? Senão nunca aconteceria.
- É verdade...
Ela deu uma risada gostosa depois de falar isso, e tudo o que eu sentia era vontade de beijar aquela boca maravilhosamente desenhada e esculpida pelos deuses mais sacanas do olimpo. Apolo e Atena se esbarrando criaram você? Que coisa mais poética.
- Vamos então? Para onde você vai me levar?
- Não faço ideia, eu nem conheço muito a cidade. Você conhece?
- Hahaha eu conheço um pouco mais que você, bobinho. Vamos comer alguma coisa.
Você me pegou pelas mãos tal como uma mãe preocupada em atravessar o filho na pista. Não era com a mesma intenção, mas a sensação de proteção era a mesma, e eu sabia que ela de certa forma, realmente se importava comigo. Mas ao me atravessar para o outro lado, não soltou minha mão. Pelo contrário, eu diria que a apertou para que eu não lhe escapasse por entre os dedos.
- Calma mãinha, eu não vou fugir!
- Você foge de mim a quase uma década, acha mesmo que eu vou deixar você ir agora?
- Nem deve!
Mais risos despreocupados que emanavam no meio daquela rua velha e suja, meio que iluminando uma paisagem cinza e opaca. Como um cintilante de felicidade que corrói a podridão da velha cidade de propósito.
Logo que me dei por conta, estava tomando um café quente com ela. Eu não cansava de olhar aquela boca dela, me perguntando quanto mais eu deveria esperar para beijá-la. Não sou adepto dos romances de cinema nem tampouco dos contos literários, então estava perdido no timing perfeito.
- Pode ser agora.
Eu engasguei. Ela estava lendo minha mente?
- Agora o que? - Falei com a mão meio trêmula de ansiedade.
- Agora bobo, pode começar a falar da sua vida!
Olhei no fundo dos olhos dela e me acalmei novamente. Falar sobre minha vida? Minha vida era dela e ela nem sabia.
- Ah, você já sabe dela.
- Sei mesmo? Eu te conheço a anos mas nunca conseguimos conversar pessoalmente o suficiente para que eu soubesse de tudo o que quero saber sobre você.
- Eu sou meio caladão, né?
- Eu diria que meio idiota. Não calma, não no mal sentido, mas você é muito bobão, né?
- Um pouco, talvez...
- Talvez? Você até agora não tomou nem a iniciativa de beijar o amor da sua vida, e eu já estou na sua frente a mais de uma hora.
Eu realmente engasguei com o café.
- Eu estava esperando o momento perfeito.
- O momento perfeito foi a 10 anos atrás. Você está atrasado a pelo menos uma década, não acha?
- Botando dessa forma realmente...
- Hahahah eu estou brincando com você. Ou será que não? Você sempre parece tenso demais, para de pensar e só fala o que pensa.
- Mas o que eu penso você sabe.
- O que eu sei? Eu não sei de nada, você não fala sobre nada.
- Você sabe que eu te amo dentro dessa carcaça velha a anos.
Ela ficou me encarando com um certo ar de dúvida.
- Ah, disso eu já sei. Eu quero dizer... sobre outras coisas.
- Que coisas?
- Ah cara, porquê você me ama? Não é uma pergunta mais interessante?
Agora foi a minha vez de virar a cabeça como um cachorro que não entende do que o dono fala.
- Sério, tantos anos e a gente nunca nem deu um beijo sequer. A gente existe no subconsciente um do outro mas... porquê você me ama?
- Acho que você é o meu constructo ideal. Tipo a mulher perfeita.
- Tá, mas de perfeita eu não tenho nada e você mesmo sabe disso.
- Eu sei. Deixa eu reformular.
- Ok, estou esperando.
Ela pegou a xícara dela com as duas mãos e levou ela até a boca enquanto me fitava sem nenhum pudor.
- Eu conheço você inteiramente e sei de todos os seus defeitos, e é por eles que eu me apaixonei.
- Hã?
- É muito fácil a gente se apaixonar pelas qualidades dos outros. Veja, eu sei que você é amorosa, inteligente, bonita e engraçada. São qualidades muito gostosas. Mas você é ciumenta, impulsiva, piegas e estranha.
- Estranha? Mas que diabo você quer dizer com isso?
- Ah, eu conheci você quando você era emo, fala sério! Isso é estranho!
- Hahahaha para de besteira... ok, eu concordo com você.
- Viu só?
- E você gosta disso?
- Eu gosto de tudo em você. Seria tão fácil amar o seu lado bom, mas são as nuances dos seus defeitos que lhe fazem perfeita para mim.
- E porquê acha isso?
- Porque essa sua loucura contida combina com a minha.
Eu peguei um pão de queijo e comecei a mastigar de forma estranha.
- Isso está borrachudo demais.
- É, eu não gostei do pão daqui não. Quer ir para outro lugar?
- Ah, ok.
Ela se emudeceu por um tempo, basicamente só reagindo a meus estímulos verbais. Parecia pensativa com o que eu falei, mas não o suficiente para parecer de fato incomodada. Apenas pensativa, franzindo aquela testa maravilhosa.
- Olha como aqui é bonito! Eu acho esse local maravilhoso para pensar.
- Realmente é muito bonito, tão bonito quanto seu sorriso de Tridents.
- Eu ainda me lembro de quando você falou isso a primeira vez, sabia?
- Me espantaria se n...
Fui subitamente pego por um beijo totalmente aleatório.
- não soubesse...
- Desculpa, mas você é muito lento, se eu não te beijasse eu acho que a gente iria embora sem você saber se minha boca tem gosto de chiclete mesmo hahahahaha
- Eu... deixa eu ver se tem gosto mesmo, não de pra perceber na primeira vez.
Nos beijamos de forma bem intensa da segunda vez, como se o tempo passasse nas nossas cabeças e nos chamasse de grandes idiotas por termos esperado uma eternidade para tomarmos essa iniciativa. E quanto mais eu a beijava, mais eu percebia que realmente fui feito para aquela mulher, em todos os sentidos: carne, osso, espírito, mente, tudo. Tudo meu era dela e ela sabia disso.
- Garoto, calma, a gente está na rua. É noite mas tem gente passando por aqui.
- Mas eu nem fiz nada!
- E essa mão na minha bunda é o que?
Ela pegou minha mão e tirou da bunda dela.
- Desculpa hahahaha
Rapidamente, ela pegou a mesma mão e botou de novo na bunda dela.
- Agora sim.
- Mas tá do mesmo jeito que estava antes.
- Shhh, eu estou certa!
Ficamos ali, como dois adolescentes que se esfregam de tesão sem saber direito ainda o que é sexo. Parecíamos dois iniciantes presos num torpor de sandices. Como dois apaixonados que se reencontram após anos sem saber de verdade o que era estar com alguém de quem realmente gosta.
- Sente o meu coração. Tá no mesmo ritmo do seu!
Ela sorria de uma forma tão gostosa...
- Eu te amo, garota.
- Eu também te amo, seu idiota. Não me deixa ir embora.
Naquele instante, eu percebi que eu teria que ir embora, eventualmente, e aquilo me deixou triste. Não por que seria impossível vê-la de novo, mas por que eu sentia medo de que tudo aquilo fosse apenas uma construção idealística da minha perversa mente.
- Você realmente é idiota e vai me deixar ir embora, né?
- Eu não quero que você vá, não agora. Não agora, depois de tudo que passamos...
Ela me olhou calmamente, pegou minhas mãos e disse:
- Eu não estou aqui, mas poderia estar. Eu não estou na sua frente, mas sempre estive dentro de você. Eu não estou sequer lhe tocando, mas sempre lhe tocarei. Eu sou sua dona e você é meu dono.
E então mais uma vez eu acordei. Sem você. Mas por acaso, mais uma vez também, eu sabia que tinha você. Só não sabia como.