16/06/2020

XIV: Aquela árvore perto do Supermercado.

Morena da cor do verão. Sorriso de menina, jeitão de sapeca e olhos de uma mulher decidida.
Se eu pudesse resumir você, seria assim. É o que eu botaria ao lado de sua foto no dicionário. Bem destacado, bonito e pomposo como merece.
Sempre me lembro de quando instalei o Tinder e achava que aquilo era uma total perda de tempo. Até que vi sua fotinho lá. Bom, eu já te conhecia e eu só conseguia imaginar: Esse match nunca vai acontecer.
Aconteceu. E aí eu imaginava: essa mulher nunca vai querer sair comigo.
E quis. Mas aí eu imaginava: Esse beijo nunca vai acontecer.
E aconteceu. E aí o tempo passou... e a gente tava dando certo?
Olha, estamos de parabéns, pois fomos contra tudo e contra todos. Vivemos juntos o auge das fofocas que nos envolviam, dos olhos que nos julgavam, a beleza da conspiração estampada: Não queremos que vocês deem certo.
Porra, eu queria que desse certo. De verdade.
Você merecia alguém bom, preparado, bacana, que te apoiasse em todos os momentos.
Infelizmente eu não era esse cara. Estava difícil existir naquela época e você não merecia isso.
Mas eu gostava de você o suficiente pra partir. E foi difícil partir.
Entenda, eu não me arrependo. Melhor alguém com raiva de mim do que alguém presa a mim.
Mas entenda também: As coisas são mais complicadas do que geralmente parecem.
Ainda bem que hoje você entende.

Mas que árvore é essa?
Vai saber.

O que somos?

Somos pedaços descabidos de aventuras falhadas.
Cacos recolhidos dessa linha do tempo.
Todo alguém pode ser um João e Maria.
Basta deixar suas migalhas por aí.

Somos feitos de migalhas, então.
Pedaços vivos e pedaços póstumos.
Pessoas que nos marcam com ferro quente.
E pessoas que nos abraçam com plumas fofas.

Somos nós mesmos e somos os outros.
Somos o pó que virou ouro.
Somos tudo de todos e nada de ninguém.
É, somos eu, somos você.