Bateu a porta e saiu correndo. Nas mãos, uma pasta cheia de documentos para a reunião. No corpo, camisa social, calça cinza de brim e sapato social. Elegante talvez, não para um rapaz que acabara de sair da vida de adolescente. Cansado de ser o bad boy de cabelos grandes e tatuagens aparentes, decidiu tomar vergonha na cara e buscar seu espaço no mercado de trabalho. E conseguiu! Mas precisava provar isso nessa reunião. O problema: Estava atrasado. Muito atrasado.
É bem difícil começar a vida adulta já tendo um carro, exceto se você vier de família com boa situação financeira. Não era o caso dele. Sua única opção era o velho ônibus lotado da licitação superfaturada da prefeitura. Caia aos pedaços, e qualquer camelo ultrapassava ele na pista. Pessoas o esmagavam. Não demorou muito, e a pasta marrom de couro velho se abriu, largando todos os papéis, seu lanche da tarde e um punhado de papéis pessoais, talvez até inúteis. Tentava se abaixar, sem êxito, para pegar aquela lambança. Não conseguia. Ao invés disso, conseguiu cair embaralhado nas pessoas, por causa do chacoalhar do ônibus. Olhou o relógio, a reunião já havia começado a 10 minutos, e ele estava a 15 minutos do trabalho, a pé. Recolheu os papéis conforme dava, jogou tudo na pasta e saltou ali mesmo.
Ao sair do ônibus, começou uma corrida de vida ou morte contra o relógio para conseguir seu lugar ao sol. Ele precisava ser alguém, e precisava agora. Quando faltavam 2 quarteirões, seu celular tocou. Seu patrão lhe demitiu ali mesmo, sem direito a discussão, sem direito a desculpas. Falou sobre irresponsabilidade, sobre deixar os outros na mão. Lhe deu o direito de levar sua carteira pra dar baixa no dia seguinte, como se fosse um grande favor.
Então ele desligou o telefone. E um vazio o completou. Dos pés a cabeça, sentiu um gelo, o gelo da certeza de não se encaixar naquele mundo... Enfim, cansado, decidiu tomar um café. Olhou para a sua direita, e entre as pessoas andando na calçada, avistou uma pequena livraria, um bocado velha inclusive, mas que oferecia café e chocolate quente. Ele nunca havia entrado numa livraria. Na verdade, sequer leu livros. Sua leitura se restringia a jornais de esportes e a páginas estranhas da internet.
- Bom, sempre há uma primeira vez para tudo.
Entrou. Olhou as prateleiras empoeiradas, os livros com capa de couro, alguns rasgados inclusive. Se indagou intimamente sobre aquelas coisas estarem sendo vendidas daquela forma, mas não deu bola. Foi até o balcão e pediu um cafezinho.
A atendente era tão simpática e ao mesmo tempo tão estabanada, que mesmo ela não sendo o ás da beleza, conseguiu despertar no jovem uma coisa diferente. Ele não sabia dizer se era como se ele tivesse se apaixonado ali, ou algo do tipo. Ela era apenas... interessante. Numa bandeijinha de aço inox já cheia de espaços pretos, ela trouxe o copinho descartável de café, com alguns sachês de açúcar.
- É diabético? Senão, eu pego o adoçante! Eu deveria ter pego o adoçante, mas é tão jovem... diabéticos geralmente são velhos!
Terminado de falar isso, ela franziu a testa e fez um bico engraçado com a boca, e fez com tanta pureza, que ele até deixou pra lá a bobagem que ela havia falado.
Deu uma primeira golada, sem açúcar nem nada. Ele queria despertar um pouco.
- Credo! Você é estranho, sabia? E o que um rapaz tatuado assim faz com roupas sociais? Achei que tatuagem fosse coisa de rockeiros.
Ele esboçou um sorriso.
- É, mas isso é bobagem. Na verdade, toda tatuagem tem algum significado.
- Huum sim... Então me conta, qual o significado dessa aqui?
- Err...
- E essa aqui, de carpa?
- Bom...
- Então você não tem significados para essas tatuagens? Você é bastante curioso!
- Poisé, você me pegou!
Em menos de 10 minutos, já havia esquecido que seu dia começara mal.
- Eu estava trabalhando numa grande empresa do ramo de informática. Estava envolvido no desenvolvimento de um programa de vendas e precisava apresentar o programa para algumas pessoas... mas fui demitido.
- Hã? O que? Não entendi nada do que disse, mas ser demitido parece muito ruim! Você deve estar mal, não é?
- É, um bocado. Mas vai passar, eu acho.
Terminado de falar isso, voltou a pensar na realidade nua e crua que o rodeava. A verdade que tantos brasileiros enfrentavam. E ele morava sozinho, numa kitnet alugada e maltrapilha. Imagine quem sustenta mais de uma boca, bocas pequenas, bocas grandes. Bocas. Ser responsável por mais de uma vida, pelo sustento de uma família. Enquanto pensava nessas coisas, sentiu uma mão quente tocar suas mãos. A jovem havia saído do balcão e foi de encontro a ele.
- Venha, vou lhe mostrar um livro legal.
E saiu puxando ele para dentro da loja. Quanto mais olhava para as prateleiras, mais livros velhos achava. Tomou coragem e perguntou:
- Vocês vendem esses livros velhos aqui, mesmo? Alguns estão em estado terminal!
- Você entendeu errado, não vendemos livros. Nós doamos. Recebemos livros por meio de doação e damos a quem quiser. Algumas vezes recebemos o mesmo livro de volta, pois já foi lido. É uma forma de repassar informação a quem precisa. Só vendemos o cafezinho. Dito isso, sorriu de orelha a orelha.
O rapaz ficou meio atônito, observando a menina. Achou graça, então sorriu timidamente. Olhou para os cantos, e ficou corado. A menina inclinou um pouco a cabeça, e sorriu novamente. Com seus dedos delicados, foi passando de livro em livro, até achar o que queria entre tantos que ali estavam.
- Tome, um presente para você!
Meio sem jeito, disse:
- Que isso! Não posso aceitar! Eu não gosto de ler, nem levo jeito para isso. Os livros daqui deveriam ir para quem precisa, não para alguém feito eu. O máximo que já li foi um rótulo inteiro de um vidro de ketchup.
- Bom, pelo menos você já sabe do que é feito um ketchup!
- Sim, isso é verdade.
- Então, pense igual com este livro. Com ele, poderá saber do que é feito a vida.
Mais um sorriso. Aquela menina encantava ele.
- Ok. Levarei ele com uma condição: Quero seu telefone para te chamar para sair!
- Justo. Mas só me ligará quando terminar a leitura. Assim saberei que leu. E não tente me enganar, eu conheço este livro do início ao fim! Terá que me provar que leu.
- Tudo bem então...
Depois de mais um pouco de conversa, ela deu para ele o telefone e ele pagou o café. Trocaram beijos no rosto e ele enfim saiu da loja. Nem se deu conta, mas passou mais de uma hora ali. E era como se tivessem sido apenas alguns minutos.
Chegou em casa e jogou o sapato na sala. Tirou a roupa e deixou a mala na cama. Tomou seu banho e preparou algo para beliscar, já que o stress do dia lhe tirou a vontade de comer.
Enquanto ele comia seu sanduíche de restos de geladeira, teve a ideia de pegar o livro para analisar. A capa não era das mais convidativas: Uma espécie de papel velho e rasgado, de cor preta desbotada e sem título. Abrindo o livro, percebeu que suas páginas estavam em branco. Folheava, folheava, e nenhuma palavra sequer. No fim do livro, havia um compartimento aonde se encontrava uma velha caneta preta de nanquim, já seca, e na última página, um pequeno verso:
"Sabedoria de vida é usufruir do presente, com a experiência do passado."
Refletiu um pouco sobre aquilo. Foi quando se deu conta que o livro de sua vida ainda estava em branco.
Decidido, correu para pegar o celular e, com o que lhe restava de créditos, ligou para a jovem.
- Já li o livro. Ele é sensacional!
- Sabia que ele seria perfeito para você, mas cheguei a duvidar que leria tão rápido. Para onde iremos, então?
Depois deles ajustarem os detalhes do encontro, ele desligou o telefone e rapidamente foi até a cômoda do quarto e pegou uma caneta. Voltou a sala e abriu novamente o livro, onde na sua primeira página, ele escreveu:
"Hoje nasce um novo homem."
Datou a nota e fechou o livro. Levou de volta para a livraria e entregou a menina, que guardou em sua bolsa.
- Não vai botar de volta na prateleira?
- Não não... tenho a impressão de que esse livro agora é meu. Não concorda?